10.7.09

Escolhas, tortas e disciplina


Quem é de Porto Alegre sabe que uma das melhores confeitarias da cidade, a Max, tem uns bolos e tortas imbatíveis. São realmente simples, mas deliciosos. Outro dia eu estava esperando para ser atendido e na minha frente estava uma moça – de uns trinta e poucos anos, espremida nas roupas que pareciam ser de um número abaixo do seu e segurando impaciente um molho de chaves absurdamente lotado na mão direita e celular na outra – que fazia perguntas constantes à atendente, pois não sabia exatamente qual torta levar. Até que, para minha surpresa e da balconista, ela pediu desculpas, dizendo que não ia mais levar nada e foi em direção à saída.

Todos os dias a gente faz escolhas. É redundante falar nisso. Mas eu insisto em dizer e dizendo eu reforço mais para mim mesmo do que para fora. Lembro o tempo todo que, por muito tempo, as minhas escolhas mais relevantes foram feitas sem que eu sequer me desse conta de que estava escolhendo. Optar por um caminho em vez de outro na volta para casa, escolher a que entrevistas de emprego me submeter, quais amigos realmente me respeitam e querem bem, que relações amorosas levar adiante ou que atitudes tomar com membros da família.

A verdade é que mesmo a pessoa mais calculista e consciente está sujeita a escolher “errado”. A medida desse “errado”, claro, é o tanto de felicidade e frutos que nos trazem as consequências da escolha. Eu já cheguei a pensar que refletir demais sobre o ato diário de escolher tirava a espontaneidade da vida. Quantas vezes você já não se deparou com a escolha entre o que parece certo de acordo com estatísticas calculadas e o que a sua vontade lhe manda fazer?

Eu poderia comer esse bolo de chocolate reluzente com recheio de doce de leite e nozes picadas, polvilhado de canela – que é meu desejo imediato – ou parar por um segundo e refletir se eu realmente posso bancar essas calorias ou se não me faria mal em longo prazo. O primeiro impulso às vezes é achar que, comendo o doce, estaríamos deflagrando um processo de autodestruição irrevogável, que essa indulgência é demais para nós, que o mundo é feito dos disciplinados. A frase preferida de quem pensa assim é “depois de passada a vontade, a gente percebe que fez a escolha certa”.

disciplina
Substantivo feminino
(...)

5. Derivação: por extensão de sentido.
obediência a regras de cunho interior; firmeza, constância


Ex.: para vencer na vida é preciso disciplina.


6 Diacronismo: antigo.
castigo, penitência, mortificação
Fonte: Dicionário Houaiss


Ora, depois de passada a vontade, o que me resta é amarga frustração de não ter obedecido ao meu desejo. Não é uma questão de merecer ou não, de poder ou não poder, de engordar ou emagrecer, é muito mais do que isso: é sentir. E se eu preciso olhar atentamente alguma coisa, não é o momento da escolha, mas sim observar com muita atenção o meu sentir, que vem bem antes do ato de optar. Eu não me torno um sujeito mais disciplinado por não comer o bolo. Na realidade, disciplinado mesmo é aquele que consegue definir o tamanho certo da fatia que lhe saciará o desejo e não lhe fará mal.

Não acho que a moça da confeitaria tenha superado sua tentação. Acho que ela conseguiu fugir dela, ainda que momentaneamente. Só que enquanto ela ficar obcecada em fazer as escolhas que os outros lhe profetizaram serem as corretas, vai continuar não enxergando que seus impulsos estão ligados a sentimentos mais profundos do que a banalidade prática de dizer sim ou não a uma torta de limão. É estabelecendo essa comunicação entre o sentir e o pensar que ela vai conseguir entrar na confeitaria, pedir seu doce predileto, sabendo a quantidade certa para ela, ciente das consequências e prazeres de saborear uma boa fatia de bolo.

*Na foto, Robin Williams e Bobby Cannavale, em Segredos da Noite (The Night Listner, 2006). Sobre um homem que não sabe que escolhas fazer.

6.7.09

O inverno são os outros

Quando faz muito frio eu fico contente, mas também fico muito jururú. Me alegra não sentir mais calor, não suar (tanto, porque continuo suando, sou quente – no mau sentido), tomar mais chá, cappuccino, fazer amendoim doce e comer assistindo a um filme em preto e branco. Mas o vento gelado do inverno também me deixa vulnerável, saudoso, melancólico e muito sozinho. Aí me apego mais a livros, filmes e gentes, procurando neles o que há de mais diferente, mais esquisito, mais doloroso. Acho que me interessa mesmo ver nos outros o que ninguém mais enxerga, ver os filmes que ninguém quer ver, procurar as coisas que são interessantes por não se encaixarem em categoria alguma, a graça para mim é essa. Canto pela casa a mesma canção por horas a fio, vou e volto no tempo, folheio livros em busca de uma frase que reitere quem eu sou.

Aí, irrompe um sol lindo, numa manhã que amorna com as horas e um sol que deita a cabeça no meu colo, e pronto. Quem era eu mesmo?

5.7.09

Sunday Classics


William Powell e Louise Brooks, 1929.

29.6.09

Good morning, Charlie!



"Era uma vez três panterinhas que entraram para a polícia feminina. E a cada uma foi destinada uma missão perigosa. Mas eu as afastei de tudo isso. E agora trabalham para mim.
Meu nome é Charlie."


Uma das minhas memórias televisivas mais remotas e pela qual guardo um imenso afeto é a de esperar ansiosamente pela exibição às quartas-feiras do seriado As Panteras, numa época em que a Globo passava várias séries americanas na faixa das 21h. Mas para expressar melhor a minha ansiedade, é preciso especificar um detalhe técnico.

Charlie's Angels começou nos Estados Unidos em 1976 e era criação de Aaron Spelling, o mago da televisão que também criara outros títulos de sucesso no Brasil como A Ilha da Fantasia, Barrados no Baile e Melrose Place, só para citar alguns. Mas quando eu já tinha idade para assistir à série na Quarta Nobre, ela já estava no seu segundo ano. Originalmente ela durou cinco temporadas, de 76 a 81.

O elenco também mudava bastante. Durante a primeira temporada, os anjos de Charlie eram: Jaclyn Smith (Kelly Garret), Kate Jackson (Sabrina Duncan) e Farrah Fawcett-Majors (Jill Munroe). Farrah na época era casada com Lee Majors (o Homem de Seis Milhões de Dólares) e fazia algum sucesso como modelo. Eis que um certo poster que a retratava de maiô vermelho vira febre nos EUA e ela é alavancada para uma fama imediata, com propostas de melhor salário e oportunidades diferentes. Por isso, resolveu deixar a série logo no final da primeira temporada.

Para justificar sua saída da trama, os roteiristas criaram Kris Munroe, irmã de Jill interpretada por Cheryl Ladd, que chegaria para substituí-la a partir da segunda temporada. Foi exatamente neste ponto que eu comecei a assistir às Panteras, ou seja, eu havia perdido toda a famosa primeira temporada com a mais famosa ainda Farrah Fawcett. E toda a minha empolgação para ver a Quarta Nobre era calcada na esperança de que algum episódio da primeira temporada fosse reprisado, para que eu conhecesse Jill Munroe em ação - ela até participou de alguns episódios posteriores, mas não era a mesma coisa.

Farrah Fawcett era uma entidade. A foto do maiô vermelho aparece até em "Os Embalos de Sábado à Noite", no quarto de Tony Manero, e é o poster de pin-up mais vendido da história, com 12 milhões de cópias comercializadas. Farrah estava presente em mais lugares do que qualquer série ou filme conseguia chegar. O mais irônico de tudo é que ela deixou o seriado de Aaaron Spelling por propostas de trabalho que nunca se concretizariam - um pouco pela relação conturbada de Lee Majors com o sucesso da então esposa. Farrah estava por toda parte, o público a conhecia, mas ninguém sabia dizer o que mais ela tinha feito além de Charlie's Angels – sua profissão era a fama.

Um dia eu conversava com um fã inglês do seriado, colecionador experiente da memorabília da série e perguntei quanto valia uma foto autografada do elenco. Ele respondeu imediatamente, "depende, se a Farrah estiver na foto é mais caro, muito mais caro".

O meu dia finalmente chegou quando a Globo, anos depois, passou As Panteras para a faixa vespertina da programação, na Sessão Aventura. O seriado foi transmitido desde o começo e pude acompanhar a tão desejada primeira temporada. A esta altura, claro, eu já havia desenvolvido uma relação de proximidade com as meninas de Charlie. Nunca simpatizei com a insípida Tiffany (Shelley Hack), por exemplo. Mas adorava a breguice divertida da ruiva Julie (Tanya Roberts), uma modelo que virou detetive e a última a ser admitida no elenco. Tanya participaria depois de That 70's Show, como a mãe de Donna.

A temporada de estreia do seriado tem uma dose extra de charme se comparada às outras. Não só pela presença de Fawcett, mas muito pelo esforço constante dos roteiristas em ousar – dentro do que lhes era permitido na época – no que diz respeito aos papéis femininos. Mas eram contraditórios, mesmo para a década de 1970. Ao mesmo tempo em que as personagens eram mulheres de fibra e coragem, não dispensavam o guarda-roupas digno de editorial de moda. No final das contas Farrah é uma das principais razões do status de culto que Charlie's Angels adquiriu.

E Farrah se foi semana passada, aos 62 anos, depois de 27 anos ao lado do companheiro Ryan O'Neal.

Godspeed, angel.

25.6.09

To Farrah

20.6.09

Compilation



Agora é Cafeína Compilations. Esta é para frio com sol. Atentem para Gabriella Cilme, uma Amy Winehouse adolescente e australiana, com sua voz de trovão cantando Cry Me a River, cover de Justin Timberlake. Na capa, Julie Christie. Obrigado ao Marcelo por Ella. :)

1. Esther Phillips - Let's Move & Groove (3:29)
2. Bettye Swann - Little Things Mean a Lot (3:43)
3. Ella Fitzgerald - You Do Something To Me (2:23)
4. Trash Pour 4 - You´re So Vain (3:24)
5. Gloria Estefan - Don't Let This Moment End (Ballad Version) (4:14)
6. Dinah Washington - Easy Livin' (4:58)
7. Nina Simone - I Am Blessed (Wax Tailor Remix) (3:03)
8. A Camp - It's Not Easy To Be Human (2:35)
9. Elton John - I Guess That's Why They Call It the Blues (4:45)
10. Gabriella Cilmi - Cry Me a River (3:41)
11. Moloko - Sing It Back (Acoustic) (4:11)
12. Supreme Beings of Leisure - Angelhead (Featuring Lili Haydn) (4:49)
13. Maroon 5 - This Love (C. Tricky Stewart) (2:57)
14. k.d. lang - Barefoot (Live by Request) (4:20)

AQUI.

16.6.09

Bom e ruim

E sabe que Divã, baseado no romance de Martha Medeiros, não é tão ruim quanto parece? Eu achei que seria mais uma daquelas comédias brasileiras de divulgação ampla, orçamento generoso e elenco global, mas que não têm um pingo de originalidade. Divã é algumas dessas coisas, mas tem um roteiro que não é exatamente melhor do que a média das comédias românticas, mas é certamente diferente – e poucas coisas são melhores do que ouvir diálogos diferentes quando o que se espera é mais do mesmo.

Divã não foi feito com muito dinheiro. Há uma cena em que a protagonista encontra o ex-marido no supermercado e tudo que se vê nas prateleiras são garrafas e recipientes com líquidos coloridos e empilhados, como se fossem alegorias de palco numa peça de teatro. A única coisa identificável no supermercado é o xampu do patrocinador, rótulos bem claros e grande quantidade de produtos enquadrados pela câmera. É triste que o product placement do cinema brasileiro seja ainda tão patético e didático. Não espantaria a ninguém se a cena em questão fosse parte de uma novela da faixa das 19h, mas cinema exige um pouco mais de dignidade. A direção de arte parecia estar trabalhando em sistema de guerrilha, aproveitando sempre o mínimo e o esteticamente correto para dar verossimilhança aos sets. Talvez por isso tenha passado longe no quesito personalidade.

A história é a seguinte: Lília Cabral é Mercedes, casada com Gustavo (José Meyer), tem dois filhos ótimos e um casal de amigos. Resolve um belo dia fazer terapia e, ao mesmo tempo em que conta suas histórias ao analista, entram os flashbacks (ou flashforwards) para mostrar ao espectador como tudo aconteceu. O analista nunca aparece claramente, ele é sempre a figura quase invisível da autoridade psíquica e mesmo sem enxergá-lo, sabemos que ele está lá – como todo bom terapeuta tem de ser. É possível, inclusive, imaginar as perguntas que ele faz a ela sem que nem precisemos ouvir sua voz. A interação da personagem com o terapeuta é certamente um dos pontos altos desta adaptação.

Mercedes acaba tendo um caso extraconjugal - com um antropólogo de supostos 40 anos, interpretado por Reynaldo Gianecchini, com quem tem uma das cenas mais engraçadas do filme – e acaba optando por se separar do marido. Depois disso, começa a sair com um ainda mais jovem, 19 anos (Cauã Raymond), até ficar sozinha de verdade pela primeira vez e experimentar intensamente a sensação de não saber direito quem é depois de tanto tempo vivendo para o parceiro. Entre um desencontro amoroso e outro, cenas muito engraçadas e outras bastante medíocres. Muito embora seja bom ver o cinema brasileiro abraçando gêneros e experimentando fórmulas para um dia acertar, ainda está difícil não nivelar por baixo. Um amigo sempre diz “olha, até que para ser filme brasileiro, este não é ruim”. Eu não tiro a razão dele, mas também não concordo 100%.

É fato que o cinema brasileiro ainda não tem profissionais afinadíssimos como acontece nos Estados Unidos ou na Europa – até porque não temos tradição, escolas, veteranos capacitados a ensinar etc. – nossos orçamentos são estrangulados e toda a forma de distribuição aqui é feita pelo cartel comandado por uma distribuidora toda-poderosa. Os independentes precisam chamar muita atenção em festivais para serem razoavelmente distribuídos, o que, em geral, é exceção. Então quem faz cinema não pode depender da renda que ele oferece, ou seja, o cinema acaba sendo um hobby, enquanto que as carreiras na publicidade ou na televisão servem de fonte principal de renda.

É o caso do diretor José Alvarenga Júnior, que no cinema mesmo só fez filmes da Xuxa, dos Trapalhões e Os Normais – O Filme. Na TV dirigiu Sai de Baixo, Os Normais e A Diarista (entre outros). Acabou que ele trouxe para Divã, a comédia física e pastelão dos programas humorísticos televisivos e isso me causou um desconforto muito grande. Não são raros nesta adaptação do livro de Martha Medeiros, os momentos em que a gente tem aquela sensação de já ter visto uma cena em algum humorístico de sexta-feira à noite ou em alguma comédia romântica produzida em Hollywood, e de já ter visto melhor. Mas há quem vá se divertir muito com isso. Porque, apesar do formato bastante falho, Lília Cabral é ótima humorista e o texto tem momentos de honestidade interessantes, o que é sempre uma boa surpresa.