23.1.05

A casa rosa e os bolinhos de chuva


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Numa tarde gris como esta, não restava mais nada a fazer além de caminhar pela cidade já deserta, como geralmente ficam as cidades no sábado. Lembrou um pouco do lugar onde nascera, que no verão ficava assim vazio e sem graça, especialmente com tempo nublado. Não, não, engano, já era quase noite, 19:22. "Este horário de verão é um nojo!" Olhava os prédios gemendo de tão velhos, as ruas estreitas estalando, quase que pedindo para serem alargadas, dava pena olhar em volta. Os edifícios pareciam mais com idosos, senhores e senhoras, agigantados, enrugados, curvados. Descascando e deixando revelar um passado em que eram urbanos com U maiúsculo. Se pudessem falar, talvez contassem estórias de confeitarias bem frequentadas e cafés que borbulhavam de gente nas manhãs de outra época. Reclamando, diriam que as cores de hoje em dia são mortas ou escandalosas demais. Poderiam cantar os antigos lamentos, roucos, sem força. Alguns não aguentam e desabam, de cansaço ou dor. Tinha um casa antiga, cor-de-rosa desbotada, também descascando de tantas chuvas, situada numa esquina lá longe. Era numa rua movimentada, os carros faziam a curva por ali enquanto seguiam para a vida, mas ninguém dava conta da existência daquele prédio. De vez em quando, lhe caíam pedaços de reboco, como se quisesse chamar a atenção dos transeuntes. Quanto mais se tentavam remendar os buracos, mas desfigurada ficava a fachada. "Mas de quem é esta casa?" "Acho que não tem dono, já morreram todos." Na verdade, dizem que os herdeiros daquela família moravam longe e, por desleixo ou preguiça, sequer apareciam para abrir-lhe as janelas e deixar um pouquinho de sol entrar. Em agosto, daqueles frios, o telhado começou a silenciosamente ruir e assim continuou por algum tempo. Numa quinta feira, dia 9 de dezembro de 1999, só lhe restavam as paredes. Nada mais do vento soprando pelas frestas das madeiras, como um choro baixinho, nada do telhado rugindo nem do barulho de chinelos arrastados dos espíritos que ali vagavam. Demuliu-se, então, a casa que um dia abrigou tantos estranhos sob o mesmo sobrenome, mas que ficara esquecida numa esquina da lembrança. Eu morei nela e hoje ela mora em mim.

O perfume dos bolinhos de chuva fritando em algum lugar aqui perto me fez lembrar a minha avó, a casa rosa onde eu morei por 25 anos.

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