19.2.05

Goodbye To Open Sores



O mundo em que ele acordou naquele dia não era o mesmo da noite anterior. Foi à rua andar e das árvores haviam caí­do as folhas, os cimentos da cidade estavam literalmente rasgados como se um gigante de unhas de aço as tivesse arranhado, o asfalto fervia a ponto de não se poder enxergar nada em foco, pelo menos nada que estivesse a um metro acima do chão da rua. Numa praça, com muitos esqueletos de árvores, ruinas de monumentos sem-cabeça e bancos quebrados, circulavam algumas pessoas. Bem, não pareciam ser pessoas se você considerá-las como as de ontem. Não. Hoje elas são seres muito diferentes. Não param, não sentam nem descansam. Vagam com roupas queimadas e pele escurecida por algum corrosivo, repuxada, anormal. Um aura negra ao redor dos olhos opacos que olham para lugar algum. Inclinam a cabeça para o lado esquerdo, como se alguém lhe sussurrasse algo assustador no ouvido, dão mais seis passos, e repetem o gesto, como se uma voz lhes instruí­sse o que fazer e este não fosse nada além de caminhar e parar.

Uma mulher de cabelos pretos cacheados, curtos de um lado e compridos de outro, muito gorda, com roupas apertadas e batom borrado em volta da boca empurra um carrinho de supermercado em que se encontram empilhados corpos de garotas em pele e osso. Quase vivas, elas tentam, sem muita força, introduzir a mão inteira garganta a baixo. A gorda solta gargalhas esquizofrênicas. Seus pés estão inchados, roxos e apertados num sapato de salto baixo que parece ser dois números menor.

Um homem, cuja idade não se pode adivinhar dado seu estado, tenta colar de volta os dentes à boca. Unhas longas, quebradas e sujas nos dedos rachados. Ao falhar na tarefa de refazer sua dentição, chora como criança. Anda trêmulo, nu, com muito frio, apesar da temperatura estar escaldante.

Num canto de areia quase preta, arrastam-se pelo chão, em velocidade impressionante, crianças estranhamente pequenas, murmurando algo incompreensí­vel através dos dentes cerrados. Parecem querer fugir de algo que lhes fez mal, só que apenas circulam em volta de uma gangorra partida em 2.

Mais adiante, ele chega numa avenida larga, edifí­cios dos dois lados. Olha para cima e vê corpos pendurados nos fios de eletricidade, como se fossem lençóis postos a secar num varal gigante. Muitos dos vidros das janelas dos prédios estão quebrados, como se aquelas pessoas se tivessem jogado, temendo um destino pior. Não há som, nem vento, muito menos movimento. O ar ali é mais pesado, respirar é difí­cil, parece-lhe que criaturas invisí­veis lhe roubam o oxigênio. Ele decide então entrar em um dos edifí­cios, um hotel de luxo. Lá dentro tudo novo, intocado, limpo. Passa pela recepção, sobe as escadas, oito andares. Já exausto, caminha devagar pelas portas abertas ao longo do corredor. Uma dessas portas lhe atrai sem qualquer razão aparente. Entra no quarto, roupas jogadas em cima da cama, é como se tivesse entrado em uma fotografia, nada se move, tudo parece unidemnsional, sem profundidade. Olha em direção à porta entreaberta do banheiro e vê a banheira a ponto de transbordar um lí­quido vermelho e viscoso, avistou um pé para fora, as pontas dos dedos acinzentadas. Aproximou-se, escancarando a porta e viu que havia alguém ali, cabeça amparada pela torneira de aço. O rosto, porém, estava fora de foco, como imagens quando ampliadas à exaustão. Ao tentar chegar mais perto, sentiu pisar em algo, uma fina corrente dourada, com uma familiar medalhinha de santo pendurada. Amedrontado, suando frio, levantou vagarosamente a cabeça, e viu com clareza sua própria face naquele corpo que jazia no tanque de sangue. Segurou com ternura a mão gélida e deixou que corressem as lágrimas.

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