14.3.05

Mar Adentro

Mar Adentro


A novela das 8 terminou na sexta-feira, mas a do meu computador ainda se extende.

- Vamos aproveitar a tarde de hoje, já que é sábado, para formatarmos teu computador?
- OK, vamos.
- Legal, vai ser rapidinho, nem te preocupa! Já fizeste backup, agora é so formatar e ele fica novinho em folha.

Mas, veja bem, as coisas geralmente não são como nós as imaginamos. O fato é que o danado do PC nunca mais iniciou. Mas como meu amigo, além de técnico, é gente boa demais, me emprestou seu super computador por um tempo, até que o meu tenha seu destino definido. Além disso, deixou comigo um super estojo com zilhões de filmes em DivX, entre eles MAR ADENTRO, de Alejandro Amenábar. E lá fui eu assistir a história do homem que queria morrer, pelo menos era isso que eu achava que ia ver.

Longe de ser apenas um filme sobre morte, Mar Adentro fala da vida sob uma perspectiva de quem não tem esperanças de ser feliz, viajar, amar, correr na praia, sentir o toque. Muito mais do que a história de seu protagonista, conta a tragetória daqueles que foram tocados por esta secura e precisam ver no outro um motivo para seguir em frente, esquecendo do vazio que têm à sua volta.

"Ganas de vivir", do espanhol: vontade de viver. É engraçado como a língua espanhola pode ser tão exata e difícil de traduzir quando fala de emoções. Depois de ver o filme, a vontade que dá é de traduzir como "gana de viver" e não apenas "vontade", por que ter gana é ter uma fome obstinada de algo. E para nós, que insistimos em viver, este afã anda escasso. As provações vem quando o impossível/improvável que tanto sonhamos não chega.

Fazia tempo que eu não chorava tão naturalmente de emoção assistindo um filme. A gente critica o hômi, mas Deus sabe o que faz.

Bem no início de Mar Adentro toca NEGRA SOMBRA, poema de Rosalía de Castro, interpretado por Luz Casal (a mesma de Un Año de Amor, na trilha de De Salto Alto), Carlos Nuñez e Ry Cooder. Eu, muito musical-emocional que sou, não consigo mais parar de ouvir e sentir o olho encharcar:

Negra Sombra

Cuando pienso que te fuiste,
negra sombra que me asombras,
a los pies de mis cabezales,
tornas haciéndome mofa.

Cuando imagino que te has ido,
en el mismo sol te me muestras,
y eres la estrella que brilla,
y eres el viento que zumba.

Si cantan, eres tú que cantas,
si lloran eres tú que lloras,
y eres el murmullo del río
y eres la noche y eres la aurora.

En todo estás y tú eres todo,
para mí y en mi misma moras,
ni me abandonarás nunca,
sombra que siempre me asombras.


Rosalía de Castro. Follas Novas, 1880.

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