9.11.05

Je suis honore

Margarida

Meninas da margarida, tentei comentar no blog de voces sem sucesso a tarde inteira. Adorei a referencia. Amo o Caio, como deve ter dado para perceber. E para voces:

A Maragarida enlatada

Foi de repente. Nesse de repente ele ia indo pelo meio do aterro, quando viu um canteiro de margaridas. Margarida era um negócio comum: ele via sempre margaridas quando ia para sua indústria todas as manhãs: margaridas não o comoviam, porque não o comoviam levezas. Mas exatamente de repente ele mandou o chofer estacionar e ficou um pouco irritado com a confusão de carros às suas costas e com o motorista parar um pouco adiante, e ele precisou caminhar um bom pedaço de asfalto para chegar perto do canteiro. Estavam ali, independentes dele ou de qualquer outra pessoa que gostasse ou não delas: aquelas coisas vagamente redondas, de pétalas compridas e brancas agrupadas em torno dum centro amarelo, granuloso. Margaridas. Apanhou uma e colocou-a no bolso do paletó. Diga-se em seu favor que até esse momento não premeditara absolutamente nada. Levou a margarida no bolso, esqueceu dela, subiu pelo elevador, cumprimentou as secretárias, trancou-se em sua sala. Como todos os dias, tentou fazer todas as coisas que todos os dias fazia. Não conseguiu. Tomou café, acendeu dois cigarros, esqueceu um no cinzeiro do lado direito, outro no cinzeiro do lado esquerdo, acendeu um terceiro, despediu três funcionários e passou uma descompostura numa secretária de saia demasiado micro. Foi só ao meio-dia que lembrou da margarida no bolso no paletó. Estava meio informe e desfolhada, mas era ainda uma margarida.

No dia seguinte acordou mais cedo do que de costume e mandou o chofer rodar pela cidade. Os cartazes. As ruas cheias de cartazes, as pessoas meio espantadas, desceu, misturou-se com o povo, ouviu os comentários, olhou, olhou. O cartazes. O fundo negro com uma margarida branca, redonda e amarela, destacada nítida. Na parte inferior, o slogan: PONHA UMA MARGARIDA NA SUA FOSSA. Sorriu. Ninguém entendia direito. Dúvidas. Suposições: um filme underground, uma campanha antitóxicos, um livro pop. Ninguém entendia direito. Mas ele e sua equipe sabiam. Os jornais e revistas das duas semanas seguintes traziam textos, fotos, chamadas:

O índice de poluição dos rios é alarmante.
Não entre nessa.
Ponha uma margarida na sua fossa.
Ou
O asfalto ameaça o homem e as flores.
Cuidado.
Use uma margarida na sua fossa.
Ou
A alegria não é difícil.
Fique atento no seu canto.
Basta uma margarida na sua fossa.

Jingles. Programas de televisão. Horário nobre. Ibope. Procura desvairada de marfaridas pelas praças. Não eram encontradas. Haviam desaparecido misteriosamente dos parques, lojas de flores, jardins particulares. Todos queriam margaridas. E não havia margaridas. As fossas aumentaram consideravelmente. O índice de suicídios cresceu. As chamadas continuavam.

O índice de suicídios no país aumentou em 50%.
Mantenha distância.
Há uma margarida na porta principal.



Contratos. Compositores. Cibernéticos. Escritores. Artistas plásticos. Comunicadores em massa. Cineastas. Rios de dinheiro corriam pelas folhas de pagamento. Ele sorria. Indo ou vindo pelo meio do aterro ele mandava o motorista ligar o rádio e ficava ouvindo o locutor falar sobre o surto de margaridite que assolava o país. Todos continuavam sem entender nada. Mas quinze dias depois: a explosão. As prateleiras dos supermercados amanheceram repletas do novo produto. As pessoas faziam filas na caixa, nas portas. Compravam, compravam. As aulas foram suspensas. As repartições fecharam. O comércio fechou. Apenas os supermercados funcionavam sem parar. Consumiam. Consumavam. O novo produto: margaridas cuidadosamente acondicionadas em latas, delicadas latas acrílicas. Margaridas gordas, saudáveis, coradas em sua profunda palidez. Mil utilidades: decoração, alimentação, vestuário, erotismo. Sucesso absoluto. Ele sorria. A barriga aumentava. Indo e vindo pelo aterro, mergulhado em verde, manhã e noite ¿ele sorria. Sociólogos do mundo inteiro vieram examinar de perto o fenômeno. Líderes feministas. Teóricos marxistas. Porcos chauvinistas. Milionários em férias. A margarida nacional foi aclamada como a melhor do mundo. Mais uma vez a Europa se curvava ante o Brasil. Em seguida começaram as negociações para exportação: a indústria expandiu-se de maneira incrível. Todos queriam trabalhar com margaridas enlatadas. Ele pontificava. Desquitou-se da mulher para ter casos com atrizes em evidência. Conferências. Entrevistas. Debates. Tornou-se uma espécie de guru tropical. Comentava-se em rodinhas esotéricas que seus guias seriam remotos comerciantes fenícios. Ele havia tornado feliz o seu país. Ele se sentia bom e útil e disse uma vez na televisão que se sentia um homem realizado por poder dar amor aos outros. Declarou textualmente que o amor era o seu país. Comentou-se que estaria na sexta ou sétima grandeza. Místicos célebres escreviam ensaios onde o chamavam de mutante, iniciado, profeta da era de Aquarius. Ele sorria. Indo e vindo. Até que um dia, abrindo uma revista, viu o anúncio:

Margarida já era, amizade.
Saca esta transa,
O barato é avenca.

Não demorou muito para que tudo desmoronasse. A margarida foi desmoralizada. Tripudiada. Desprestigiada. Não houve grandes problemas. Para ele, pelo menos. Mesmo os empregados tiveram apenas o trabalho de mudar de firma passando-se para a concorrente. O quente era a avenca. Ele já havia assegurado o seu futuro, comprara sítios, apartamentos, fazendas, tinha depósitos bancários na Suíça. Arrasou com napalm as plantações deficitárias e precisou liquidar todo o estoque do produto a preços baixíssimos e, como ninguém comprasse, retirou-o de circulação e incinerou-o. Só depois da incineração total é que lembrou que havia comprado todas as sementes de todas as margaridas. E que margarida era uma flor extinta. Foi no mesmo dia que pegou a mania de caminhar a pé pelo aterro, as mãos para trás, rugas na testa. Uma manhã, bem de repente, uma manhã bem cedo, tão de repente quanto aquela outra vez, divisou um vulto em meio ao verde. O vulto veio se aproximando. Quando chegou bem perto ele reconheceu sua ex- esposa.
Ele perguntou:
- Procura margaridas?
Ela respondeu:
- Já era.
Ele perguntou:
- Avencas?
Ela respondeu:
- Falou.

CAIO FERNANDO ABREU

***


2 comentários:

  1. pois é, eu também fui homenageada e eu também não consegui dizer nada... :/

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  2. Isso de colocar o conto inteiro no ar foi simplesmente tudo.
    Tá difícil mesmo de comentar lá...
    Mas nós sabemos que vcês viram e já ficamos felizes.
    bjos,

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