25.12.05

REFLEXO

Reflexo


Mais um ano voou. Nos passou por entre os dedos como a areia fina daquela praia da minha infancia. Lá, bem no sul, o verao nao tem a mesma cara dos veroes em geral. O vento implacável faz a areia te chicotear as pernas, como se aproveitar o sol fosse um castigo católico, um prazer do qual temos de nos sentir culpados, punidos. Mas, me lembro muito bem, persistíamos, como persiste todo católico em pecar, pois sabemos todos como o fruto proibido tem um gostinho irresistível. Estacionávamos, em fileiras inimagináveis para quem veraneia na maioria das praias do mundo, nossos carros na beira do mar, no esforço improvisado de nos protegermos daquele sopro gelado que vem do polo sul, e cobríamos quilometros de extençao, sentados em cadeiras de alumínio com assentos de cores havaianas, nos entretendo a cuidar da vida alheia. Dissecávamos a estética e a conduta de quem passasse, sem dó, muito menos piedade, na triste certeza de sermos tambem prezas do crivo moral do carro vizinho.

Eu era uma criança atípica, como geralmente sao as criancas que tem esta "coisa" de escrever seus delírios quando adultas: observador ao extremo, de uma memória prodígia e imaginaçao fecunda beirando os limites da salubridade mental de pessoa odinária. Para nao parecer idiossincrático aos olhos dos adultos, fingia fazer castelos de areia, quando o que me interessava mesmo era o assunto da conversa dos mais velhos. Registrava tudo e depois, em doses homeopáticas, numa ida ao supermercado, ou qualquer outra situaçao trivial de convívio com meus pais e irmaos, tentava esclarecer os porques que me torturavam, tudo para tentar entender a conversa da praia. "Pai, o que é aborto?", "Por que voces nao falam mais com a familia da casa azul?", "O que é tomar tóxico?" e outras perguntas constrangedoras que só o desprendimento da infancia te permite fazer.

Em determinadas cidades, a praia é um evento social como qualquer outro, porém com o agravante de nossas imperfeiçoes estéticas atingirem uma obviedade algumas vezes aviltante. Justamente por isso, eu, pré-adolescente obeso e flácido que era, vi por bem me ocupar com tarefas que nao exigissem de mim tirar a camisa em público. Se todos os tópicos em todas as rodas lá sentadas fossem os mesmos daquela que eu conhecia, eu certamente deveria sofrer escrutínio identico ao que meus pais submetiam os conhecidos que passeavam chutando a água do mar em frente ao nosso Corcel 82. Pelo menos era este meu reciocínio. O que eu quero dizer é que praia nao é lugar de gente insegua e complexada. Ter filhos também nao. Só depois que eu cheguei ao ponto de contentamento e aceitaçao que me permitiu encarar tal cenário sem neuras é que eu vi que nada disso importa. Mas faz diferença em quem voce possa vir a se tornar.

Natal, fim de ano, amigo secreto, sao coisas que inevitavelmente me lembram praia e verao, me ocorreu enquanto eu tomava café, sentado na soleira do meu quintal e vendo o reflexo da árvore do vizinho na poça d`água, numa manha gelada de dezembro londrino. Fotografei para nao dizerem que faço drama demais.

***

4 comentários:

  1. A foto tá linda. O texto, especialmente pra ex-adolescentes obesos, uma verdadeira maravilha de espelho retrovisor. Melhor que os dois juntos: te ter de volta, postando. Presentaço de Natal. Beijos com asas.

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  2. Anônimo11:27 AM

    Alex
    a foto tá mágica, uma capa de cd dos Cranberries ...
    Eu também tinha (tenho) vergonha de tirar a camisa, mas por que eu era (sou) muito magrinho, então as tatuagens que eu faço ninguém vê ... mas tudo bem, pelo menos eu vou ser um velho rock n´roll Iggy Pop secreto, de baixo de uma aparência quase normal :-)
    Um beijo guri e não fique triste, vc está em Londres afinal!!!!!!!!
    tacel

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  3. Anônimo6:04 PM

    Alex, so não esquece que a única que pode fazer drama sou eu: a canceriana!!!! ehehehehehehe
    bjs, cris
    tentei ligar pra ti a semana passada e nao conseguia. tenho novidades.

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