31.1.06

O EFEITO BROKEBACK

Brokeback Mountain



A esta altura do ano passado, depois das indicações do Oscar serem divulgadas, só se falava em Closer. A bola da vez em 2006 é O Segredo de Brokeback Mountain, de Ang Lee, que estréia nos cinemas do Brasil esta semana. Coincidentemente ou não, ambos são filmes de impacto emocional inegáveis. Enquanto que o mérito de Closer é o texto, o de Brokeback é o subtexto, aquilo que não é dito, o que se sente. Garanto que o incauto expectador saído do cinema vai guardar muita coisa para si, depois de estimulado pelo amor em conserva que é este filme. Sim, voce leu bem, em conserva, armazenado a vácuo no peito, pronto para servir quando for conveniente ou possível, viável.

Com 8 indicações aos prêmios da Academia, Brokeback Mountain conta a história de dois homens que se conhecem no confinamento social da vastidão que é a montanha Brokeback, no Wyoming, enquanto precisam tomar conta de um rebanho de ovelhas. O isolamento traz a necessidade de se estabelecer uma certa intimidade que, num momento de embriaguez, leva ao sexo. Poderia ficar só nisso, como ficam inúmeras relações da vida cotidiana, mas, nesta história, sexo é a menor das coisas. Se voce pensar bem, sexo é raramente um problema, ele apenas acontece, por instinto ou necessidade. Já o amor, meus amigos, quando chega, a gente não pode fazer que não o vê ou sente. E aqui ele chega sem avisar e se recusa a partir.

A narrativa começa nos anos 60 e se extende por mais de 20 anos, lançando luz sobre a clandestinidade de uma relação que, a princípio, nos parece fadada ao fracasso. Ennis, o cowboy calado, durão e problemático, é interpretado por Heath Ledger com uma precisão comparável àquela de Steve McQueen em seus áureos tempos, ao passo que Jake Gyllenhaal confere a seu personagem, Jack, uma delicadeza inerte e corajosa. A colisão destes elementos tão antagônicos, somada à marginalidade da relação entre dois homens, faz de Brokeback um filme sobre a impossibilidade prática do amor, muito mais do que um filme a respeito dois cowboys gays, como nos sugere a mídia.

Ang Lee consegue tirar dos atores, especialmente Michelle Williams (da extinta série Dawson's Creek), atuações silenciosas e contidas, porém eficazes. E é exatamente no silêncio e no subtexto que o roteiro é mais poético e verdadeiro. Quando não se fala nada, se diz muito mais. Por isso agora me calo.

***

8 comentários:

  1. Anjo Gabriel11:03 PM

    E ai amigo. Nos conhecemos muito pouco, mas um pouco suficiente para sentir tua sensibilidade. Era um carnaval na Ilha, estava eu, o meu e o teu amigo, onde fomos apresentados. Depois fui a um jantar na tua casa e depois a despedida. Tenho acompanhado tua trajetória pelo amigo anjo Mikael. Bom voltando ao objetivo deste comentário pergunto pra vc que já assistiu ao filme. Será que todos vão ter sensibilidade suficiente para compreender sobre o AMOR dos cowboys? - sobre esta essência - que julgada e jogada ainda é o que persevera e perseverá. Um grande abraço e sucesso.

    ResponderExcluir
  2. Lindo, fiquei surpreso com a indicação do Jake. E torcia muito pela indicação da Michelle, que tem lindos momentos dentro do filme. Como personagem e seus resultados e principalmente - já que eu sou ator - na construção da dramaticidade e os caminhos dos resultados. Teu texto é lindo, adoro quando vc atenta para o subtexto. Percepção para ganhar um abraço e um jantar de presente. Fico te devendo, então... beijoca

    ResponderExcluir
  3. Gabriel,

    Fiquei na dúvida de quem vc seja, de qualquer forma, bem vindo! Olha só, eu acho que não interessa se "todos" vão compreender, isso raramente acontece nos filmes, mas ele está lá, para todo mundo ver. Cada um do seu jeito.

    Jr,

    Eu gostei da atuaçao de todos no filme, embora confesso que o Jake me pareceu meio forçado da primeira vez, mas depois de ler o conto original, entendi porque. Se quiseres, te mando.

    ;)

    ResponderExcluir
  4. Poucas vezes na vida esperei tão ansiosamente por um filme, como agora espero por este.
    Sua crítica só me fez ter mais vontade de impulsionar este relógio que demora uma eternidade até o amanhã...

    Beijos.

    ResponderExcluir
  5. Putz, há tempos não via uma resenha assim tão bem feita, completa e ampla. Parabéns! Se eu já queria ver o filme, imagina agora, então? O amor é lindo, seja ele como for, de que forma for. Sendo amor, já tá bom demais!

    ResponderExcluir
  6. Lili, to contigo: roendo as unhas de ansiedade.
    Calexico, conta o final aí!

    ResponderExcluir
  7. Rossela11:28 AM

    Queridão...bela resenha. Vejo hj com Leda, a Bárbara. Beijos rrrrrrrrrrr.

    ResponderExcluir
  8. bom, primeira vez comentando aqui. achei sua resenha o máximo. admiro quem sabe fazer e você é alguém que sabe. fiquei curiosa pelo filme, embora uma amiga de londres tenha dito que viu e não achou nada demais. será? vou conferir. ;>)

    ResponderExcluir