8.5.06

CINZA-CHUMBO

Eu vim pra cá em busca de um refúgio que nada mais conseguiu me dar. Sentar na entrada do flat para fumar um, dois cigarros não me sossegou, muito menos me aquietou rolar no desabrigo da cama. Não sei bem do que preciso, porque pouco me conheço, pelo menos não o bastante a ponto de prover remédio para dor que seja.

Não basta a ninguém, melhor dizendo, a mim meramente vagar pela vida. Precisamos, melhor dizendo, preciso sentir (palavra-chave) que tenho uma estrutura fundamental que me liga a Deus (ou que nome tenha) e ao mundo de uma forma que signifique algo além da explicação que a palavra me permite. Este erro (não o desacerto, mas o estado errante, daquele que vaga) é instigante e sedutor quando se busca no universo algo de mais profundo. No entando, ter um lar que te espera no final da perigrinação é de uma (e aqui me falta a palavra/definição, portanto deixo a lacuna).

E meus irmãos quem são? Eu sei quem é minha mãe. Eu sei do meu sentir, o meu amor, onde guardo, quem já viu. Mas e eles? O que sai deles quando a vida os espreme? Pra quem eles ligam quando têm medo? De quem são os braços que lhe fazem falta? Como é que, sob o mesmo teto, com o mesmo sobrenome, se criam cinco quase-estranhos? Em que momento deixamos de tentar?

- Agora, confesso, me deu uma vontade instintiva de pressionar ctrl+a del. Soou o alarme que denuncia aquelas áreas nossas das quais a gente se incomoda de falar -

Mas não. Eu quero dizer isto a vocês. Eu já não me escondo mais, perdi a vergonha de ser. Porque a gente não deve ter vergonha de ser, senão acabamos estranhos também.

A esta altura, você pensa que eu devo ser meio perturbado, que minhas idéias são um tanto incoerentes (iguaizinhas ao meu texto) e perde o interesse. A verdade é que eu sou que nem você, só falo diferente, porque o meu não-entender as coisas é diferente do seu. As minhas imagens tendem a ser meio dark, meu humor beira o escárnio e às vezes não. Tem horas que pra mim, assim como pra você, viver é mais leve, mais simples, preto-no-branco. Outras não. É pesado, nums tons mal-amados de cinza (viu só? Cinza-chumbo se chama assim, porque viver no cinza é pesado) .

E quando pressionar publish post, eu sei (e só sei por sentir) que meus braços desafiarão a matéria e se estenderão ao abraço de quem quiser não-entender junto comigo.

7 comentários:

  1. Lembrei da música da Marisa Monte: "Todo o dia fico pensando em casar/ Juntar as rimas como um pobre popular/Subir na vida com voce em meu altar(...)" Seria tão mais fácil pensar assim n é?
    Divido-me em diversos objectivos, cada um num plano diferente da vida, num turbilhão que distancia da minha vista o objectivo final, o meu papel. Porque afinal para ter esse talvez tivesse de desistir dos outros... entao existo numa roda-viva arco-íris que, bem vistas as coisas, não é menos vaga que o cinza chumbo!
    "E deixar-me devorar pelos sentidos/ E rasgar-me do mais fundo que há em mim/ Emaranhar-me no mundo/ E morrer por ser preciso/ Nunca por chegar ao fim". Bjos o teu blog é um óptimo café

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  2. Hmmm café amargo.
    Vá adoçar tua boca e desmanchar esta careta, moço!

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  3. A esta altura eu penso que esse blog é pra onde eu corro procurando um refugio que nada mais conseguiu me dar. Ao menos aqui eu encontro alguém que sente o mesmo que eu, mas consegue traduzir isso em palavras como eu tento, mas não consigo.
    Mas eu saio daqui mais aliviada. Com o peso compartilhado.
    Grande beijo, e fica bem.

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  4. Anônimo1:40 PM

    eu quero.
    taz.

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  5. Helga8:48 PM

    Nossa, nunca, nunca mesmo um post combinou tanto com meu estado de espírito, com a minha sensação de não ser, de não pertencer a ninguém, nem a lugar algum, de não ter com quem desabar em lágrimas, de não ter alguém que me abrace apertado, feito um urso e diga no meu ouvido: calma, isso também vai passar.
    Bjs Mr. Cafeína, minha total e incondicional solidariedade, ainda que inútil.

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  6. Meus braços também estão desafiando a matéria...quase viram asas.

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  7. Oi, menino..quanto tempo! Sempre bem bom esse café que você serve.

    Não sei se vai fazer sentido pra você. Pra mim fez e faz.

    "Quanto mais precisarmos de Deus, mais Deus existe. Quanto mais pudermos, mais Deus teremos. Ele deixa. (Ele não nasceu para nós, nem nós nascemos para Ele, nós e Ele somos ao mesmo tempo). Ele está ininterruptamente ocupado em ser, assim como todas as coisas estão sendo, mas Ele não impede que a gente se junte a Ele e, com Ele, fique ocupado em ser, numa intertroca tão fluida e constante -- como a de viver.."

    Por essas e por outras percebi, que Deus (ou o nome que tenha), estava ali do meu ladinho, faltava traze-lo pra dentro.

    Beijo

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