14.5.06

Com M maiúsculo

Toda vez que, no meu aniversário, ia algum amigo/a diferente na minha casa, a minha mãe chegava de mansinho e dava um jeito de juntar a turma e contar do dia em que eu nasci.

Eram aproximadamente 7:30 da noite e minha mãe começou a sentir as contrações. Ligou para Geni (sua fiel amiga e vizinha) e atravessou a rua, rumo à Beneficência Portuguesa. Na saída de casa, cruzou com meu pai e disse casualmente: "Estou indo para o hospital". Meu pai, na tranquilidade do sexto parto, pensou consigo "isso vai demoraaar..." .

Chegando no hospital o médico examina e diz:"Ele está na posição errada, e, se não sair agora, enforca-se no cordão umbilical". Lá vai a Geni correndo em casa buscar a maleta com as roupas e tal. Encontra meu pai tranquilíssimo, fritando bife e assistindo ao Jornal Nacional.

- Vamos que teu filho tá nascendo!
- Tá nada, eu já vi esta novela cinco vezes. Depois do jornal eu vou.
- Depois do jornal vai ser tarde. Eles vão ter que cortá-la. Teu filho está nescendo!

Não há registros se meu pai efetivamente terminou o bife. Minha mãe estava urrando de dor no hospital, Geni já morreu e o próprio se recusa a falar no assunto.

E aí que realmente precisou cortá-la porque eu resolvi vir ao mundo já ocupando espaço. Só que depois de dado à luz, não houve quem fizesse o bebê chorar, roxo, sem batimentos nem qualquer sinal de que fosse reagir.

Neste momento da história, os ouvintes já me olham com cara de acusação, balançando a cabeça e pensando "como tu dás um susto desses na tua pobre mãe?".
E aí o tom da narrativa ganha suspense e pausas dramáticas.

- A enfermeira já estava levando ele embora, o médico já havia me desenganado e tudo!! Foi quando eu ouço uma tossezinha abafada láááá no fundo. Ele estava vivo!

"Uaaau!" Suspira a platéia aliviada, como se não soubesse do fim da história.

- Alguém mais quer croquete?

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Eu amo a minha mãe. Talvez mais hoje do que quando criança, porque hoje eu identifico os atos de amor por ela praticados no passado com os olhos de quem sabe amar porque foi amado. Quando jovem, eu pensava que ela contava esta história sempre para me envergonhar. Um belo dia, num aniversário há alguns anos, eu perguntei:

- Mãe, por que tu sempre contas isto? Para eu não esquecer do trabalho que dei ao nascer?
- Não. Porque eu quero que as pessoas saibam que tu existires, pra mim, é um milagre.


Páft!


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FELIZ DIA DAS MÃES PRA TODO MUNDO


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Um comentário:

  1. que linda essa historia..
    se alguem me contasse ia dizer que era coisa de filme.

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