1.5.06

DA MORTE

Passado o hiato de trezentos e muitos dias nebulosos em que mergulhou em profunda dissonância com quem realmente era, acordou com muita dificuldade. Pálpebras pesadas recusando-se a deixar entrar os jatos de luz do sol que jorravam no quarto, depois de perfurarem o linho das cortinas marrons. Sol. Finalmente já conseguia agora manter os olhos abertos. Sol. Olhou e pensou alguma coisa a respeito do sol, provavelmente algo de outra vida.

Suave. Seus pés e mãos já não eram mais ásperos, tampouco lhe doiam as costas e joelhos. Tal era o deslumbre com a ressureição do físico que demorou a perceber a leveza. Vazio. A leveza de se estar com o espírito em paz, de não se sentir só, de não angustiar subitamente a proximidade do outro. E de não morrer a cada distância estabelecida pela brutalidade de viver.

Brutal. Assim lhe pareceu aquele período em que a vida, esta entidade sádica e prepotente, se mostrou mais intolerável. Viver, em momentos, lhe parecia realmente, incrivelmente, intolerável. E a aí se morre para ela. Porque morrendo se tem a chance de recomeçar. Morrer é ganhar o presente da pausa. Do parar, da chance de sentir com calma cada corte, cada roxão por você guardado em lugares inalcançáveis pela obviedade do cotidiano.

Batida. Não havia mais aquele som irritante e incessante da batida do coração lhe assombrando como um relógio antigo prestes a despertar, ou uma bomba-relógio prestes a explodir. Nunca se sabe. Em épocas é um despertar, em outras, a explosão. Viver é não saber.

E estar pura e simplesmente existindo naquele quarto inundado por feixes alaranjados bastava. E sentou no chão, recostando-se na cama, fitando a porta, na outra extremidade do cômodo. Onde existe uma porta, há uma passagem, um caminho, um espaço. E se alguém a colocou ali, é porque o trânsito era necessário. Seria?

Nenhum comentário:

Postar um comentário