11.5.06

PA(I)Z

C.R.A.Z.Y.

Durante um período da minha infância, domingo era um dia mágico e especial. Primeiro porque era o dia que minha mãe cozinhava, almoço e sobremesa, e segundo porque era o único dia da semana que meu pai, comerciante, não trabalhava. Eu era o primeiro da casa a acordar, levantava bem cedo, por volta das 6:30 da manhã e ia correndo para a sala assistir "Concertos para a Juventude" e depois "The Muppet Show". Em seguida, levantava meu pai, tirava o carro da garagem e me chamava para irmos comprar o jornal de domingo numa banca de revistas perto do correio, a única aberta tão cedo da manhã. Claro, eu não ia apenas pela Zero Hora, mas também tinha direito a escolher uma revista em quadrinhos. Evidente, eu não sabia, mas também não ia meramente pelo gibi a que tinha direito, mas pelo raro momento que meu pai me permitia de sua companhia.

Éramos, já, estranhos um ao outro, só que - sabe como é criança - havia uma curiosidade imensa em estar com aquele homem que eu queria ser quando crescesse. Imaginar que um dia eu também dirigiria um carro, teria uma carteira cheia de dinheiro, compraria o jornal com meu filho. Aos 6,7 anos isto me parecia um ideal plausível e desejável. Além do mais, quando se tem mais quatro irmãos, saber que aquele momento é só teu, te dá uma certa propriedade, um sentimento de pertencer.

Um belo domingo meu pai acordou e, ao me encontrar na sala cantando "ma-nã, ma-nã" com os Muppets, me olhou bem sério e disse "Tu já estás muito grande para ler gibi". Ou, como minha mente de criança entendeu, "Eu não quero mais a tua companhia".

A partir de então, declaramos guerra.

Em C.R.A.Z.Y. (na foto), filme selecionado para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro pelo comitê canadense (muito embora nem tenha chegado à lista final), Zac busca incessantemente conhecer o pai, aproximar-se dele, muito embora acabe também "declarando guerra", pela falta de aceitação.

É só chegando à vida "adulta" que a gente percebe uma coisa que Clarice Lispector dizia, com aquela sua compreensão tão vasta da alma humana, a respeito do adulto: "Todo adulto é triste e solitário (...) a criança, não. A criança tem a fantasia."

Hoje é mais fácil (não que seja fácil, mas sim possível) pra mim entender que meu pai já era, naquela época, adulto, triste e solitário. Eu também era solitário já aos seis, sete anos, mas não era triste, justamente porque tinha a fantasia. Meu pai já não tinha mais um pai e nem isto lhe serviu de estímulo para se fazer mais presente, mais pai para os cinco filhos que tinha. A verdade é que a gente só pode dar aquilo que tem. Bandeira branca, pai.


4 comentários:

  1. Teu Blog vicia. Tu andas inspiradíssimo e o que tu deixas por aqui tem me deixado pensativo.
    Eu fico com você ? Pepsi Twist Light.
    Eu queria falar com o Santo desta mesma forma ? mas quando vi eu tava querendo de volta o amor que acabei de perder. Funciona? O Santo traz figurinha repetida?

    Meu pai me levava no Ponto Certo. Comprava o jornal, minha mãe chocolates, eu e minha irmã gibis e figurinhas. Foi assim por muito tempo. Na verdade eu não lembro bem como era a relação com ele na infância. Eu gostava de esperar ele chegar do trabalho ? só via ele à noite. Na adolescência vejo que ele foi incapaz, por suas razões, de ser mais próximo, de conversar comigo, de me ensinar como era o mundo. Mas sempre esteve perto, observando. Nunca frio nem distante. Só não sabia como falar, como abordar. Não teve esse exemplo. Tinha vontade, não sabia como.

    Hoje ele me surpreende. Estou cada vez mais parecido com ele (fisicamente). As conversas são cheias de cumplicidade. Há um zelo carinhoso em querer saber da minha vida, de como estou, com quem estou...agora ele só quer poder acompanhar a nossa vida (dos filhos), estar presente...coisas do tempo, não imaginava um dia ter as conversas que tenho com ele hoje.

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  2. Patricia1:42 PM

    Axe,
    nao precisava de tanto numa plena quinta-feira. Bateu fundo.
    Beijos

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  3. Eu e Margarida falamos sobre este post no almoço. Discordamos, claro. Só se torna um adulto triste quem não tem como custear o que "fica retido na fonte". Não é o seu caso. Vá trabalhar pra resgatar o que dá!

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  4. Sem palavras.. Definiste tudo

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