22.6.06

Desertos

Early Sunday Morning, Edward Hopper


Sam Shepard estrelou e escreveu (junto com o diretor Wim Wenders) Don't Come Knocking (2005) que inexplicavelmente no Brasil ganhou o título de Estrela Solitária.

Ok, é um filme que fala de solidão, só que ao meu ver prevalece a solidão dos lugares isolados, da aridez como metáfora do vazio interno de cada um. Os espectros do passado vergonhoso assombram os cenários inóspitos do interior dos Estados Unidos tal qual o fazem numa tela de Edward Hopper, cuja influência estética se faz presente aqui nas angulosas sombras e nas cores (no céu muito azul, paredes muito vermelhas e areia alaranjada).

Lembra muito Paris, Texas, clássico do mesmo diretor, pois traça a história de uma viagem que na verdade é duas: a de dentro e a de fora. Sarah Polley (do fantástico Minha Vida Sem Mim) conduz seu papel com muita responsabilidade, aparentando ser - no início - um peronagem menor, para culminar no final como um dos destaques da trama.


Fora todo o resto que Wenders sempre fez muito bem, trilha, fotografia, ângulos, edição, os gestos, close-ups, sons. Aquela belezura habitual.

Daí, você que foi ao cinema no meio da tarde, porque ainda pode, sai da sessão e vai tomar um espresso duplo para refletir a respeito. A primeira coisa que passa na cabeça é que o mundo anda rápido demais e a vontade de pedir um silêncio emergencial e um amor tranquilo é inevitável. Mas os ônibus continuam a deixar sua nuvem preta no ar, os carros continuam a não esperar que você atravesse a rua, as pessoas continuam a falar alto nas calçadas, os taxis buzinam indecentemente e tudo segue igual a sempre. Sorte sua que, por duas horas ao menos, você pôde ver como é pegar a via opcioal, experimentar o plano b. É por estas coisas que o cinema é mágico.

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