28.6.06

O Dia em Que Anais Nin Encontrou Karen Carpenter

Coisas meio bobas estas do dia-a-dia. Acordar sentindo cheiro de quem já não é mais, levantar tropeçando em fios, ligar a cafeteira, abrir a janela e ser atingido pela primeira rajada de sol, mascar a própria saliva ainda amarga da noite anterior, tomar café bom-forte-fumegante. Tudo isso sozinho.

O telefone,
a campainha,
quase meio-dia.

Comida. E agora? Qualquer coisa. Quem se importa?

A louça.
O forno,
Detergente.

Já sei. Música. Quem? Sem dúvida, Karen Carpenter. Mas qual? Hurting Each Other se impôs tão absurdamente que eu não tive outra escolha.

A resistência,
o fio,
pão.

Desço, compro, subo.
Desço, compro, subo.
Desço, compro, subo.

E duas malas ainda gordas da viagem me olhando como as câmeras enfrentativas de George Orwell e eu querendo achar aquele canto mágico de 1984 onde elas não me enxerguem.

Abro mala. Roupas amassadas, memórias, presentes, livros, livros, livros. Onde andará Anaïs Nin? No bolso de dentro, abraçada em Jacqueline Suzanne, quem diria...

Karen se cala. Teria sido por respeito a Anaïs? Roupas no armário, silêncio, Isaac Hayes: Walk on by.

Telefone:

-Compraste?
-Comprei.
-Trocaste?
-Troquei.
-Comeste?
-Comi.
-Tudo bem?
-Tudo bem.

O velho Isaac volta a cantar. Apago a luz e é tão melhor ouvir sem ver.

Deito.

E aquele cheiro voltou.

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