22.8.06

Fricção 2

"Por que diabos eu tinha que beber tanto?" foi o que se perguntou enquanto dobrava a esquina da Getúlio. Todo bêbado (ao volante ou não) se faz esta pergunta e você sente que está meio tonto, sabe que já não enxerga normalmente mas não consegue lembrar em que momento da festa deveria ter parado. E um bêbado como você deve ter tido um motivo para ter cruzado a linha, não é mesmo? Um torpor, uma compensação, a ausência.

Ninguém na rua, só os gatos vira-latas. O rádio toca alguma coisa dos anos 80, você esqueceu dos porta-cds em casa. Não importa, seus pensamentos estão ocupados agora em avaliar seu próprio estado, quem te queria e você não quis e quem você queria mais nem te olhou.

Será que quem está bêbado sabe que está bêbado? Tem consciência de suas limitações, que não vê como deveria, que já não se equilibra normalmente? Talvez seja paranóia, sentimento de culpa. Quem sabe você nem está bêbado?

Não. Alguma coisa há de errado. Tanto há, que você resolve estacionar o carro na rua mesmo, com medo da rampa em caracol da garagem. Ao abrir a porta do carro, aquele vento gelado no rosto te lembra do frio de 3 graus prometido pela moça do tempo no noticiário.

Do nada, de algum ponto no jardim escuro do prédio vizinho salta um vulto e lhe encosta na parede, com uma faca gelada no pescoço. Olhos arregalados fitando seus olhos arregalados. A diferença entre vocês dois, vistos assim tão de perto, é que ele sua na testa e cheira a alguma coisa velha, suja. Assim como você, ele tem sardas por todo rosto. A impressão agora é de que a faca lhe perfurará o pescoço a qualquer momento. Mesmo tentanto continuar imóvel, é impossível não tremer com aquele marginal a menos de um palmo de você.

-Passa celular, carteira e o casaco! Anda!

Você obedece sem questionar.

Antes de sumir esquina afora, ele te empurra e grita:

-Assuma o absurdo!


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