21.8.06

Fricção

Arrepiaram-lhe os pelos do braço quando aproximou-se vagarosamente do endereço que lhe haviam dado. Afinal de contas, um carro novo, por mais que seja um carro mil, chama atenção indevida num lugar assim. Dá vergonha de verbalizar um receio desses, mas evitar sentí-lo já é mais complicado. Ela sempre morria de medo de ser assaltada, muito embora nunca tivesse sido. Enxergou o numero 324 pintado na porta de madeira velha, respirou fundo e bateu.

- Dona Carla?
- Não, ela está atendendo. Pode entrar.

Sentou-se, agarrada na bolsa, cercada por velas derretidas e revistas do ano passado. Quando caiu uma mecha de cabelo na testa, chegou a pensar duas vezes se deveria ou não ajeitá-la. Bobagem para pessoas normais isso de arrumar cabelo que cai na testa, as pessoas nem pensam muito, ajeitam e pronto. Para ela não. Por isso a terapeuta, os remédios, reiki, chás.

Quando chegou sua vez, sentiu que não estava pronta, mas ergueu-se com coragem e controlou os nervos com o estoicismo de sempre. Sentou-se à mesa, em frente à velha.

- A senhora não precisa me dizer nada. Só corte o baralho e mentalize o que quer saber. Pode fumar, se quiser. Só não me interrompa.

Um silêncio que parecia mais longo do que realmente era, um suspiro pesado e o dedo indicador batendo levemente numa carta com o desenho de um homem montado num cavalo. Com o olhar oblíquo, Dona Carla aconselha:

- Assuma o absurdo.


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