27.8.06

Na escuridão do mar

O melodrama no cinema nasceu nos anos 50, época em os Estados Unidos se recuparava da depressão pós-guerra e abraçava os valores familiares na tentativa de ancorar a moral como ferramenta de construção da sociedade perfeita. Perfeição esta visível nas cores, na arquitetura e celebrada nos meios de expressão artística e cultural. No entanto, para firmar estes valores e podar o comunismo que ameaçava os padrões do crescimento alavancado pelo capitalismo, instalou-se nos bastidores a caça implacável a tudo que fosse "subversivo".

O diretor pioneiro dos melodramas hollywoodianos foi Douglas Sirk. Mas se tudo era perfeito, por que então o drama? Talvez porque é da natureza humana o conflito, a diferença. Os filmes de Sirk eram ousados em levantar questões que incomodavam os censores guardiões da moral, em mostrar sem véus românticos o conflito, a não-adequação social, ou seja, a subversão, sem julgar. E incomodavam especificamente pela justaposição da sociedade aparentemente perfeita dos subúrbios de classe média com maridos bissexuais, comunistas inconformados e mulheres perigosamente independentes num invólucro muito parecido daquele utilizado nas comédias de costume inofensivas de Doris Day.

Zuzu Angel (2006) utiliza propositalmente muito da linguagem dos melodramas de Douglas Sirk para falar de repressão e estabelecer um clima narrativo de continência verbal. É tudo muito lindo, os figurinos são nada menos do que esplendorosos, o cenário é de cair o queixo e se justapoem tragicamente com a tensão imposta pela ditadura militar no Brasil dos anos 70.

Este sim é um filme que pode nos representar em pé de igualdade em qualquer premiação internacional de cinema. Patrícia Pillar, no seu retrato da estilista que luta para encontrar o paradeiro do filho sequestrado pelo regime militar, mesmo apresentando uma Zuzu glamurizada para o cinema, entrega momentos comoventes e verdadeiros e leva o filme no bolso. Luana Piovani faz uma Elke Maravilha que cumpre sua função na história (pequena, é verdade) com muita competência e Daniel de Oliveira tem lá seus momentos.

Um dos grandes trunfos do filme é a ediçao moderna e vigorosa e a trilha sonora de um bom gosto indefectível. Aliás, um ponto significativo em Zuzu Angel é estebelecido pela influência da cultura, nele representadas pela música e a moda, na nossa sociedade. Um regime repressor pode tentar calar um povo, mas não silencia suas expressões artísticas, só as faz mais sofisticadas na maneira de protestar.

Assista, amigo leitor.

**

Antes de morrer assassinada pela ditadura, Zuzu deixou uma carta com o amigo Chico Buarque dizendo que se morrece de algum acidente aparente, isso seria obra do regime militar. Em sua homenagem, Chico compôs Angélica (1976).

Quem é essa mulher
Que canta sempre esse estribilho?
Só queria embalar meu filho
Que mora na escuridão do mar

Quem é essa mulher
Que canta sempre esse lamento?
Só queria lembrar o tormento
Que fez meu filho suspirar

Quem é essa mulher
Que canta sempre o mesmo arranjo?
Só queria agasalhar meu anjo
E deixar seu corpo descansar

Quem é essa mulher
Que canta como dobra um sino?
Queria cantar por meu menino
Ele já não pode mais cantar



De chorar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário