29.9.06

Hit and Run



Vivendo na normalidade burra do dia-a-dia, aquela de virar a chave na fechadura, levar o lixo pra rua, fazer café, tomar banho, a gente não tem a real noção do peso que é viver. A banalidade nos distrai de afazeres mais profundos, de abrir outras portas, dispormo-nos de outros dejetos, bebermos da verdade amarga e fumegante, limparmo-nos do ressentimento e da dor.

É, em si, viver, um atropelamento. Brutal. Ora eu sou vítima, ora culpado. Mas sempre morro. Sirenes de ambulância ou transeuntes voyeristas não mudam o fato. O fato é que vivo. O fato é que morro.

Todos os dias. Todos os dias.

28.9.06

O Diabo Calça Blahnik



"-Desculpa, eu ainda estou aprendendo sobre estas coisas...
-Estas coisas? Ah, entendi. Você acha que isso não tem nada a ver com você. Você abre o seu guarda-roupa e pega, sei lá, um suéter todo embolado. Porque você está tentando dizer ao mundo que você é séria demais para se preocupar com o quê vestir. Mas você não sabe que esse suéter não é somente azul. Nem tampouco é turquesa, é "sirilio". E você também é cega para o fato de que em 2002 Oscar de la Renta fez uma coleção com vestidos somente nesse tom, e eu acho que foi Yves Saint Laurent - não foi? - que criou jaquetas militares em sirilio. E o sirilio começou a aparecer nas coleções de muitos estilistas. E logo chegou às lojas de departamentos. E acabou como um ítem de liquidação nessas lojinhas de beira de esquina. E foi assim que chegou a você. E sem dúvida, esse azul representa milhões de dólares e incontáveis empregos. E é meio engraçado quando você acha que fez uma escolha e que esta escolha te exclui da indústria da moda, quando, na verdade, você está usando um suéter que foi selecionado para você pelas pessoas nesta sala ... entre muitas outras "coisas"."

Baseado no livro homônimo, em que a jornalista Lauren Weisberger narra sua experiência como assistente de Anna Wintour (na foto), a poderosa editora da Vogue americana, O Diabo Veste Prada poderia ser muito melhor, mas não chega a desapontar. Um grande problema é que Ann Hathaway é uma atriz muito fraca e o roteiro idem. No entanto, há momentos impagáveis de Meryl Streep e algumas linhas de diálogo inesquecíveis (como a citada acima). Você já deve ter ouvido falar que Gisele Bündchen faz um ponta, não é mesmo? Pois entenda que é uma ponta muito, mas muito pequena, proporcional ao seu talento para atuar e de falar inglês.

A trilha sonora é um pouco óbvia, muito embora a inserção de Vogue (cantada por Madonna, evidentemente) acaba fazendo muito sentido quando se sabe da história prévia que envolve os bastidores do livro.

Agora, se você quer saber mais a respeito dos figurinos, a produção e tudo mais, leia o artigo da grande Juliana Pereira para a revista SET deste mês. Excelente.

26.9.06

Fricção Chocolate

"Caminhamos ao encontro do amor e do desejo.
Não buscamos lições, nem a amarga filosofia que se exige da grandeza.
Além do sol, dos beijos e dos perfumes selvagens, tudo o mais nos parece fútil."
Albert Camus


Assim, deitado na cama com a luz apagada, olhando para o teto, distraía-se com as sombras em movimento dos carros que passavam na rua. De um deles saiu, por alguns segundos breves (mas longos o bastante para que a reconhecesse ) uma música da adolescência. "Seria assim para sempre/Se nos apaixonássemos/Esta noite é para sempre/Me diga que você concorda/Esta noite é para sempre/Abra a porta, você tem a chave". Numa tontura de vertigem, lembrou de suores que muito escorreram de suas costas ao som de músicas assim, abafadas, molhadas, meladas.

Como o suor de quem você deseja tem gosto bom, "o salitre do feromônio" um dia lhe disseram. Que bobagem. Que coisa mais besta lembrar de como é passar a língua por trás de uma orelha e mordiscar de leve o lóbulo, quando a vontade que dá é de morder com força. Não chamam por aí o ato sexual de "comer" à toa. A coisa é essa; comer um chocolate que nunca acaba. Não por fome, mas por desejo.

O tic seco do relógio o tirou do transe, marcando uma hora irrelevante da madrugada. Se é madrugada, a hora não importa, pensou.

-Tá acordado?
-Sim.
-Viajando?
-Distraído.
-É bom.
-É?
-...
-...
-Vem aqui, me abraça.
-Te abraço.
-Já te disseram que você é um homem-aquecedor?

Caíram na risada.

-Como assim?
-É. Com você abraçando assim forte, fervendo desse jeito, a gente não passa frio. E quando você me encerra nos teus braços e as tuas mãos se trançam na minha barriga, eu só sei sonhar, porque da realidade não me resta nada melhor.
-Chocolate. Eu estava pensando em chocolate. Num chocolate que nunca acaba.
-Eu?

Sorriram. E não era preciso se olharem para saberem que ambos sorriam.

-Sabe de uma coisa?
-O que?
-De manhã, quando eu for embora, vou te levar comigo, como a gente leva o gosto do chocolate na boca depois de comer. Você vai sentir falta do pedaço que eu vou levar, vai precisar dele e de mim. Mas nunca mais vai me ver.
-Eu sei.

Da rua, como tiros, ouviram bêbados chutando latões de lixo. Um deles ia gritar "Assuma o absurdo", mas achou uma besteira sem tamanho.

25.9.06

Cafezinho com Cigarros

Você há de concordar que o bom gosto andava em falta nas comédias americanas ultimamente. Inteligência também. Em Obrigado por Fumar (Thank you for Smoking, 2006), o diretor Jason Reitman (ironicamente filho de Ivan Reitman, conhecido por dirigir comédias idiotas do tipo Caça-Fantasmas e A Super Ex-Namorada) utiliza-se da sutileza para focar assuntos polêmicos nos dias de hoje.

Nick Naylor (Aaron Eckheart) é um porta-voz das companhias de cigarro que ganha o mundo na lábia. De discurso forte e conciso, ele tem a habilidade de convencer qualquer um do que lhe for conveniente. O espectador acompanha Nick enquanto ele transita pelos bastidores da indústria do tabaco e tenta lidar com sua vida pessoal. Mas engana-se quem pensa que este é um filme sobre cigarros. Na verdade, Obrigado Por Fumar fala de liberdade de escolha, hipocrisia e princípios, num roteiro razoavelmente simples mas brilhante.

23.9.06

Da série BIGORNA ACME

"Eu acredito na continuidade das coisas que amamos, acredito que para sempre ouviremos o som da água no rio onde tantas vezes mergulhamos a cara, para sempre passaremos pela sombra da árvore onde tantas vezes paramos, para sempre seremos a brisa que entra e passeia pela casa, para sempre deslizaremos através do silêncio das noites quietas em que tantas vezes olhamos o céu e interrogamos o sentido. Nisso eu acredito: na veemência destas coisas sem princípio nem fim, na verdade dos sentimentos nunca traídos.

E a tua voz ouço-a agora, vinda de longe, como o som do mar imaginado dentro de um búzio. Vejo-te atraves da espuma quebrada na areia das praias, num mar de setembro, com cheiro a algas e a iodo.

E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros.

Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Nao perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre."

Miguel Sousa Tavares "Eternamente"

22.9.06

Uma coisa nas mãos



(Silêncio)

-Você tem um cigarro?
-Estou tentando parar de fumar.
-Eu também. Mas queria uma coisa nas mãos agora.
-Você tem uma coisa nas mãos agora.
-Eu?
-Eu.

(Silêncio)


Cousa muito linda, meus leitores. É O Dia que Júpiter Encontrou Saturno de Caio F.
Na minha (sic)estréia no teatro, eu era o moço deste diálogo. Aos 21 anos eu nem sabia direito da dimensão de um texto assim, mas já achava lindo.

Então corram para o blog da Lu! E bom fim de semana.

Bienvenido a Miami

Não espere um remake da série dos anos 80, nem uma homenagem ao clima bem-humorado do Miami Vice que assistíamos na tv. Na verdade, este filme poderia se chamar qualquer outra coisa. Dirigido por um dos criadores da série original (Michael Mann, o mesmo de Colateral), Miami Vice é um filme policial correto, moderno e realista. Tão realista que não há sequência de créditos no início, nem mesmo o nome do filme.

Michael Mann é um diretor virtuoso - vide O Informante (1999) - e as provas disso são as cenas de ação bem coreografadas, a edição vigorosa e a crueza nos detalhes sórdidos da narrativa. Mas não se engane, nem Colin Farrel consegue fazer do mullet uma coisa menos horrenda.

20.9.06

19.9.06

Faz Calor em Porto Alegre


A confraria Coprobelly* ontem, via e-mails trocados durante o dia, discutiu questões de cunho social e filosófico como o vídeo da Boccuda aquela na praia com o namorado e a exposição das rachaduras na casa de Juliana Paes.

Para Dita Von Claire, Fernanda Abreu canta a sua versão cool de Kung Fu Fighting.

Bom feriado a todos!

*A confraria Coprobelly é composta por distintos blogueiros que se encontram uma vez por semana para "enxer" a cara.
**Update, um anônimo atento apontou erro de grafia do verbo ENCHER acima. Adicionamos aspas para não ficar chato. Porque segundo bibliografia alternativa (Roitman et al), pinguços de raiz jamais cometem o preciosismo desnecessário ao dizer que ENXEM a cara, portanto as aspas. Adoro leitores atentos!

18.9.06

Da Série REFERÊNCIAS

Ouça Kung Fu Fighting, clássico da era disco.

Meu Amigo (em construção)

Para ler ouvindo Groove Armada.

Eu ainda não tenho muita intimidade com Esse Moço, o tempo. O menino que tem um olho azul, outro verde se apresentou para mim num dia de sol peneirado pelo céu pedrento na areia de Jurerê, prometendo me contar um segredo que faria de viver e amar um jogo menos perigoso para mim. Talvez você ainda não saiba, mas Ele guarda mil segredos. E os guarda porque sabe das coisas. Sabe que ninguém se esconde atrás de máscaras chorosas para sempre, sabe das coisas sim, sabendo que as pessoas mentem muito, mais a si próprias, protegendo-se de amar, privando-se da verdade, revestindo-se de vaidade, mentindo, mentindo, mentiras horrorosas.

Naquele dia na praia, olhei para o céu e os raios de luz tentando romper a grade de nuvens e cheguei à conclusão de que a verdade do Menino Tempo é assim, igualzinha: como a luz solar no teto pedrento, prevalece. Meu amigo vestia bermuda azul com estampa de nuvens brancas, o Tempo. Demos umas risadas (ele é debochado, sabia?) e me contou de umas gentes que estavam por passar, falou do futuro, Londres-Porto Alegre, contou das pessoas que não sabem amar, ficou tristeamargoirônico, alertou mais uma vez do medo, do meu, dos outros. Falou horas sobre o medo, do que ele faz com os homens e mulheres. Mudou a voz, num tom grave, orgulhoso de mim, me chamou de amigo e bradou "Eu vou te contar que você é livre. Vai incomodar quem não sabe muito de si, porque em geral, os outros são doentinhos, tadinhos, mas você é livre e vai te amar quem souber beber da tua liberdade". Eu olhei pra Ele, os olhos verde-azul avermelhando-se da maresia, meio abestado com aquilo tudo. "Tenha paciência, hoje você ainda não sabe, mas eu te mostro, ainda há Tempo, né?" Tempo. Caímos na gargalhada.

16.9.06

Para um sábado de sol

Ou Olhe para o Céu
-->Para ler ouvindo Tori Amos.

"Lá no céu, Cecília Meireles acorda cedinho. Mais cedo ainda do que de costume, que ela gosta de espiar os querubins tontinhos de sono. Mas hoje é dia especial. Cecília prende os cabelos, depois toma sua homeopatia (será Dulcamara? Daqui não dá pra ver - pode até ser Stramonium) e lava devagar o rosto na água do arco-íris. Bebe seu chazinho de pétalas de rosa branca - amarela não, que dá azia. Escova devagar as asas, pluma por pluma. Só depois de bem bonita é que bate de leve na porta da nuvem ao lado. Dentro, um resmungo mal-humorado.

É Vinícius de Moraes, que virou a noite com o arcanjo Gabriel, conhecendo as bocas da zona da Ursa Maior, aquela louca pirada. Mesmo de ressaca, o Poetinha acorda. "É hoje" - sussurra Cecília na janela que Vinícius se espreguiça: "Ô xará, não é que é mesmo hoje" E vai correndo se aprontar.

De braços dados, os dois vão bater à porta da nuvem de Manuel Bandeira. Mas nem era preciso. Manuel já está aceso, debruçado na janela, o nariz um pouco vermelho, fungando e tomando café quente que Irene acabou de preparar. "É hoje" - dizem Cecília e Vinícius. Manuel funga: "E eu não sei, gente? Daqui a pouquinho". Os três ficam em silêncio, o coração deles começa a bater no mesmo compasso (dodecassílabo? Daqui não dá para ouvir direito) então eles olham para baixo, em direção ao planeta Terra, que gira e gira, meio bobo de tão azul."


Caio F.

Leia o resto da crônica aqui. E tudo mais, azul, aceso, dodecassílabo aqui.

Bom sábado, bom domingo, até segunda.

15.9.06

This is my song for you


Saiu, meu povo. Coletânea para jogação desenfreada. Madonna mandou dizer pra vocês que a gente tem direito, se estressa a semana inteira, dorme mal, se preocupa, se incomoda e tem direito sim, de uma jogação bem fervida. Claro, por melhor que seja o lugar, o dj, a gente nunca ouve tudo que gosta. Esta é a minha versão de uma noite divertida. Enjoy.

01 John The Revelator (Dave Is In The Disco Tiefschwarz Remix) (7:49)
02 kim carnes - bette davis eyes 2006 (4:03)
03 Madonna - Music Inferno (5:40)
04 Baccara - Yes sir I can boogie 2005 (extended mix) (7:09)
05 John Miles - A song for you (Edvaldo s Extended Club Mix) (7:22)
06 Texas - what about us (jacques lu cont main mix) (7:35)
07 Scissor sisters - I don't feel like dancing (Paper Faces mix) (6:33)
08 Blue Chips vs Tina Charles - I Love To Love (3:41)
09 Janet Jackson Ft Nelly - Call On Me (Tony Moran Remix) (9:13)
10 Nelly Furtado- Promiscuous (Ralphi Rosario Dirty Mix) (7:58)
11 Sanny X Featuring Tina Charles - Higher (Extended Club Mix) (8:27)
12 Grace Jones vs Hell - Ive seen that face before Berlin Mix (8:14)
13 Masters At Work Present India - I Can't Get No Sleep (Naked Music White Label Remix) (8:05)

*Tudo isso aqui.

Atenção


Crianças do meu Brasil varonil,

Hoje é sexta-feira, chove que Deus manda na capital gaúcha, mas à noite tem jogação.

Daqui a pouco, coletânea. Preparem seus pezinhos dançantes.

14.9.06

Ele conta as favas

Conto as FavasQuem lê os blogs dos amigos, conhece o Rogério como "o Margarido", esposinho da Margarida-mor. O que vocês não sabem (e eu só soube conhecendo-o pessoalmente) é que o Rogério é muito mais. Não é de se espantar. Ela é sagitariana, expansiva, comunicativa, estabanada, impulsiva, querida, requer atenção redobrada perto de coisas que quebram e objetos ponteagudos. Ele é leonino, daqueles do bem, dos que entendem a frequência calamitosa sagitariana e, de tão altruísta, cede o quanto de tempo e espaço for a ela necessário. Não briga pela luz do holofote por saber tê-la já em si. Às vezes nem sabe, mas a tem.

É com grande orgulho, portanto, que a Cafeína Inc. anuncia mais um dos seus templates personalizados: o Conto as Favas, do Rogério Margarido.

13.9.06

Arranhões

A besta de dentro, Madonna.

Eu tenho a impressão de que as pessoas mais interessantes que eu conheço têm, dentro de si, uma besta. No bom sentido, óbvio. Talvez nem sempre bom, mas certamente justificável. Em determinados momentos a besta se solta. Na maioria deles, mantém-se enjaulada, quietinha, adormecida. E eu a chamo de besta (e não fera, bicho, luz, paixão) porque ela não vive pelas regras do nosso mundo, não obedece leis, nem ouve a razão. E nem sempre parece bonita aos olhos de quem a vê, muito pelo contrário, lhes parece bizarra. Por ser livre.

Enfim. Viva à besta!

9.9.06

A Janela para o Sol ou a Penumbra

"Preciso sim, preciso tanto. Alguém que aceite tanto meus sonos demorados quanto minhas insônias insuportáveis. Tanto meu ciclo ascético Francisco de Assis quanto meu ciclo etílico bukovskiano. Que me desperte com um beijo, abra a janela para o sol ou a penumbra. Tanto faz, e sem dizer nada me diga o tempo inteiro alguma coisa como eu sou o outro ser conjunto ao teu, mas não sou tu, e quero adoçar tua vida. Preciso do teu beijo de mel na minha boca de areia seca, preciso da tua mão de seda no couro da minha mão crispada de solidão. Preciso dessa emoção que os antigos chamavam de amor, quando sexo não era morte e as pessoas não tinham medo disso que fazia a gente dissolver o próprio ego no ego do outro e misturar coxas e espíritos no fundo do outro-você, outro-espelho, outro-igual-sedento-de-não-solidão, bicho-carente, tigre e lótus. Preciso de você que eu tanto amo e nunca encontrei. Para continuar vivendo, preciso da parte de mim que não está em mim, mas guardada em você que eu não conheço."


Do Caio F. óbvio. A Lu fez uma coisa linda. Está reunindo textos de Caio Fernando Abreu num blog.
Leia a crônica acima na íntegra aqui. Leia todo o resto, áspero, suave, gritante aqui.


*

8.9.06

Unicidade

A Keiko agora está de casa nova. Porque a mulher é única mesmo.

*Mais um template Cafeína.

Atendemos no mundo inteiro. Sem consulta ao SPC e SERASA.

La Vie en Close



L'ÊTRE AVANT LA LETTRE


la vie en close

c'est une autre chose


c'est lui

c'est moi

c'est ça


c'est la vie des choses

qui n'ont pas


un autre choix



Paulo Leminski


*Na foto, Kim Novak relê o scrip de Um Corpo Que Cai (Vertigo, 1958).

6.9.06

A Teus Pés


Tá. Não me olhe assim. Porque eu sou um estranho de mim mesmo, como é então que você se acha no direito de me conhecer?
Ok. Eu tenho saudade. Muita. Eu queria mesmo tanta coisa, sabendo que tenho direito a elas assim tão suavemente dizendo no teu ouvido enquanto passo o dedo no lóbulo da tua orelha.
Entendi. Acabaram períodos, mudaram marés das nossas águas tão bruscamente. Muitas embarcações afundaram e acabamos náufragos em praias equidistantes. Perdidos>encontrados>resgatados. Mas não um do outro.
Nem precisa repetir. Vivemos estes anos todos feito barro no sapato. Grudados a nossos pés. Está mais do que na hora de usarmos o capacho de bem-vindo para bem vir um novo amor. Ou quem sabe não. Simplesmente para termos os pés limpos e não sujar a casa de niguém.

Mas, espera. O que eu queria te dizer não era isso. Até esqueci.

Tudo que eu preciso, ar



*Na foto Deadpan, de Steve Mcqueen (não, não é o ator famoso. É um artista desconhecido)

Linda, profunda, estranha, perigosa

"29.12.1970

Hildinha, a carta para você já estava escrita, mas aconteceu agora de noite um negócio tão genial que vou escrever mais um pouco. Depois que escrevi para você fui ler o jornal de hoje: havia uma notícia dizendo que Clarice Lispector estaria autografando seus livros numa televisão, à noite. Jantei e saí ventando. Cheguei lá timidíssimo, lógico. Vi uma mulher linda e estranhíssima num canto, toda de preto, com um clima de tristeza e santidade ao mesmo tempo, absolutamente incrível. Era ela. Me aproximei, dei os livros para ela autografar e entreguei o meu Inventário. Ia saindo quando um dos escritores vagamente bichona que paparicava em torno dela inventou de me conhecer e apresentar. Ela sorriu novamente e eu fiquei por ali olhando. De repente fiquei supernervoso e sai para o corredor. Ia indo embora quando (veja que GLÓRIA) ela saiu na porta e me chamou: - "Fica comigo." Fiquei. Conversamos um pouco. De repente ela me olhou e disse que me achava muito bonito, parecido com Cristo. Tive 33 orgasmos consecutivos. Depois falamos sobre Nélida (que está nos States) e você. Falei que havia recebido teu livro hoje, e ela disse que tinha muita vontade de ler, porque a Nélida havia falado entusiasticamente sobre Lázaro. Aí, como eu tinha aquele outro exemplar que você me mandou na bolsa, resolvi dar a ela. Disse que vai ler com carinho. Por fim me deu o endereço e telefone dela no Rio, pedindo que eu a procurasse agora quando for. Saí de lá meio bobo com tudo, ainda estou numa espécie de transe, acho que nem vou conseguir dormir. Ela é demais estranha. Sua mão direita está toda queimada, ficaram apenas dois pedaços do médio e do indicador, os outros não têm unhas. Uma coisa dolorosa. Tem manchas de queimadura por todo o corpo, menos no rosto, onde fez plástica. Perdeu todo o cabelo no incêndio: usa uma peruca de um loiro escuro.

Ela é exatamente como os seus livros: transmite uma sensação estranha, de uma sabedoria e uma amargura impressionantes. É lenta e quase não fala. Tem olhos hipnóticos, quase diabólicos. E a gente sente que ela não espera mais nada de nada nem de ninguém, que está absolutamente sozinha e numa altura tal que ninguém jamais conseguiria alcançá-la. Muita gente deve achá-la antipaticíssima, mas eu achei linda, profunda, estranha, perigosa. É impossível sentir-se à vontade perto dela, não porque sua presença seja desagradável, mas porque a gente pressente que ela está sempre sabendo exatamente o que se passa ao seu redor. Talvez eu esteja fantasiando, sei lá. Mas a impressão foi fortíssima, nunca ninguém tinha me perturbado tanto. Acho que mesmo que ela não fosse Clarice Lispector eu sentiria a mesma coisa. Por incrível que pareça, voltei de lá com febre e taquicardia. Vê que estranho. Sinto que as coisas vão mudar radicalmente para mim - teu livro e Clarice Lispector num mesmo dia são, fora de dúvida, um presságio. Fico por aqui, já é muito tarde.

Um grande beijo do teu Caio"


Carta de Caio Fernando Abreu à Hilda Hist. Só pra vocês verem que somos todos amadores neste negócio feio de viver.

5.9.06

É virgem vigorando



Eu tenho umas convicções astrais bem bizarras e eu sei que a minha margarida enlatada vai me entender nesta hora. Este sol em virgem promete, meus amigos. Porque virgem é organizativo e arruma as gavetas mais íntimas, inicia o há tanto postergado e soluciona a paixão recolhida. Derruba mitos falsos, trás com as nuvens a verdade galopante, mergulha nas águas da hipocrene da inspiração suada.

Muda tudo.

Mudou aqui e vai mudar mais aqui-dentro. Tô dizendo.

O ano do mondo cane acabou.
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Na foto, The Lost Highway, o primeiro Lynch que me bateu forte.
Da Trilha, Deranged, com David Bowie e Brian Eno.

4.9.06

Alto Lá!

Calma. Você não entrou no blog errado. Sou eu mesmo. Apenas diferente. E diferente é bom. É ou não é?

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Alguém já leu a roupa íntima da Ticcia hoje? Leia. Mesmo que você não use calcinha.

**

Tem coisas que só o Google faz por você.

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Bom dia.
Boa segunda-feira.
Boa semana.

1.9.06