26.9.06

Fricção Chocolate

"Caminhamos ao encontro do amor e do desejo.
Não buscamos lições, nem a amarga filosofia que se exige da grandeza.
Além do sol, dos beijos e dos perfumes selvagens, tudo o mais nos parece fútil."
Albert Camus


Assim, deitado na cama com a luz apagada, olhando para o teto, distraía-se com as sombras em movimento dos carros que passavam na rua. De um deles saiu, por alguns segundos breves (mas longos o bastante para que a reconhecesse ) uma música da adolescência. "Seria assim para sempre/Se nos apaixonássemos/Esta noite é para sempre/Me diga que você concorda/Esta noite é para sempre/Abra a porta, você tem a chave". Numa tontura de vertigem, lembrou de suores que muito escorreram de suas costas ao som de músicas assim, abafadas, molhadas, meladas.

Como o suor de quem você deseja tem gosto bom, "o salitre do feromônio" um dia lhe disseram. Que bobagem. Que coisa mais besta lembrar de como é passar a língua por trás de uma orelha e mordiscar de leve o lóbulo, quando a vontade que dá é de morder com força. Não chamam por aí o ato sexual de "comer" à toa. A coisa é essa; comer um chocolate que nunca acaba. Não por fome, mas por desejo.

O tic seco do relógio o tirou do transe, marcando uma hora irrelevante da madrugada. Se é madrugada, a hora não importa, pensou.

-Tá acordado?
-Sim.
-Viajando?
-Distraído.
-É bom.
-É?
-...
-...
-Vem aqui, me abraça.
-Te abraço.
-Já te disseram que você é um homem-aquecedor?

Caíram na risada.

-Como assim?
-É. Com você abraçando assim forte, fervendo desse jeito, a gente não passa frio. E quando você me encerra nos teus braços e as tuas mãos se trançam na minha barriga, eu só sei sonhar, porque da realidade não me resta nada melhor.
-Chocolate. Eu estava pensando em chocolate. Num chocolate que nunca acaba.
-Eu?

Sorriram. E não era preciso se olharem para saberem que ambos sorriam.

-Sabe de uma coisa?
-O que?
-De manhã, quando eu for embora, vou te levar comigo, como a gente leva o gosto do chocolate na boca depois de comer. Você vai sentir falta do pedaço que eu vou levar, vai precisar dele e de mim. Mas nunca mais vai me ver.
-Eu sei.

Da rua, como tiros, ouviram bêbados chutando latões de lixo. Um deles ia gritar "Assuma o absurdo", mas achou uma besteira sem tamanho.

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