18.9.06

Meu Amigo (em construção)

Para ler ouvindo Groove Armada.

Eu ainda não tenho muita intimidade com Esse Moço, o tempo. O menino que tem um olho azul, outro verde se apresentou para mim num dia de sol peneirado pelo céu pedrento na areia de Jurerê, prometendo me contar um segredo que faria de viver e amar um jogo menos perigoso para mim. Talvez você ainda não saiba, mas Ele guarda mil segredos. E os guarda porque sabe das coisas. Sabe que ninguém se esconde atrás de máscaras chorosas para sempre, sabe das coisas sim, sabendo que as pessoas mentem muito, mais a si próprias, protegendo-se de amar, privando-se da verdade, revestindo-se de vaidade, mentindo, mentindo, mentiras horrorosas.

Naquele dia na praia, olhei para o céu e os raios de luz tentando romper a grade de nuvens e cheguei à conclusão de que a verdade do Menino Tempo é assim, igualzinha: como a luz solar no teto pedrento, prevalece. Meu amigo vestia bermuda azul com estampa de nuvens brancas, o Tempo. Demos umas risadas (ele é debochado, sabia?) e me contou de umas gentes que estavam por passar, falou do futuro, Londres-Porto Alegre, contou das pessoas que não sabem amar, ficou tristeamargoirônico, alertou mais uma vez do medo, do meu, dos outros. Falou horas sobre o medo, do que ele faz com os homens e mulheres. Mudou a voz, num tom grave, orgulhoso de mim, me chamou de amigo e bradou "Eu vou te contar que você é livre. Vai incomodar quem não sabe muito de si, porque em geral, os outros são doentinhos, tadinhos, mas você é livre e vai te amar quem souber beber da tua liberdade". Eu olhei pra Ele, os olhos verde-azul avermelhando-se da maresia, meio abestado com aquilo tudo. "Tenha paciência, hoje você ainda não sabe, mas eu te mostro, ainda há Tempo, né?" Tempo. Caímos na gargalhada.

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