12.10.06

SOBRE MENINOS E LOBAS

Para ler ouvindo Shirley Bassey

Soledad
Nos seus mais de 40 anos, Lupe, filha de imigrantes espanhóis, já havia descartado a
possibilidade do amor real naquela altura da vida. Enquanto tricotava violentamente
suas inúteis e inúmeras mantas, sua mãe costumava dizer-lhe que a hora de se
encontrar um homem é no período que sucede a puberdade e antecede os 20 anos.
"Enquanto as coxas ainda estão firmes. Nós mulheres somos como mamões, filha, se
ao tocar-nos eles nos sentem a carne mole, nos têm como passadas e morremos podres
em uma gôndula. Solas, niña, solas"

Energia que dá gosto
Com o tempo, passada a morte da mãe, Lupe aprendeu coisas que uma mãe não
ensina. Coisas como o prazer. E passou a aplicar a regra do mamão de uma forma em
que a vantagem era sua. Tinha preferência pela companhia íntima de garotos entre 16
e 20 anos, de coxas firmes e fôlego de campeão. Virou aquilo de que mais tinha medo
na juventude: um predador. Sabia que garotos ainda não eram homens, portanto ainda
não haviam desenvolvido o instinto de caçar a fêmea pelos cabelos, como os
brutamontes que conhecera. Os jovens eram firmes por fora porém tenros por dentro.

...levar estes doces para a vovozinha
Bruno tinha 17 anos, com a aparência física de um jovem bárbaro, entroncado e
sisudo. Os cabelos ruivos encaracolados pareciam arder em chamas de tão vermelhos.
Adorava visitar a avó materna, não que a velha lhe fosse muito especial, mas, em
agradecimento à visita, dava-lha dinheiro e disso ele gostava. E, além do mais, a
comida era deliciosa.

Certa feita, num verão desses abafados de Porto Alegre, voltando do apartamento da
avó, ao abrir a porta do elevador, Bruno avistou uma senhora muito bem arrumada de
quatro no chão da recepção do prédio, catando as compras esparramadas. Chamou-lhe
atenção a fenda da blusa estampada que abrigava mal e porcamente fartos, lustrosos
peitos

- Deixa que eu lhe ajudo!
- Obrigada.

- Você mora aqui? Eu nunca tinha te visto.
- Não não. Vim visitar minha avó que mora no 305.
- Eu me chamo Lupe.
- Prazer, dona Lupe.
- Esquece o dona, filhinho.
- Esquece o filhinho, dona.
- Tudo bem, como é teu nome?
- Bruno.
- Então, Bruno, quer subir para tomar um sorvete? Eu preciso te recompensar pela
ajuda.
- Precisa recompensar não, do- ... quer dizer, Lupe. Mas vou aceitar o sorvete, tá
muito quente.

Chegando no apartamento, Bruno distraiu-se com a quantidade de bibelôs, de todas as
cores e tamanhos, e os quadros de ponto de cruz. Muitos deles.

- Chocolate ou creme? Perguntou Lupe.
- Uma bola de cada.
- Quer calda?
- Tem de caramelo?
- Tem.
- Então, capricha!
- Aqui estão suas bolas. Bem meladas.
- Hum...q delícia. Bem do jeito que eu gosto.
- É a minha especialidade. Disse a loba com olhar malicioso, enquanto acendia um
cigarro.

- Que idade você tem, lindo?
- Quase 18.
- Nossa...um homem praticamente. E impulsionou o tronco para frente, acomodando o
queixo na mão.

O sinal de mensagem do celular interrompe o diálogo. Ela percebe que o semblante do rapaz
mudou drasticamente.

- O que foi, querido?
- É a caçadora.
- Caçadora?
- É. Minha mãe. Se passa das 8 e eu ainda não tiver chegado, ela me atormenta até me
achar. Manda mensagem, liga pros meus amigos, me caça pela cidade toda.
- A tua mãe não tem mais o que fazer não? Um homem feito desses...
- Meu pai já é falecido, ela se preocupa muito comigo. Olha, Lupe, eu preciso ir. Mas
valeu pelo sorvete!

E saiu porta afora. A loba acendeu outro cigarro, olhou para o sorriso da mãe no porta
retrato e percebeu que a foto estava meio caída. Foi arrumá-la e notou que havia algo
escrito nas costas do retrato. "Acepta el absurdo"

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