6.10.06

Volver



Para ler ouvindo Volver

"Existe algo terrível na realidade, mas eu não sei o que é. E ninguém me diz, nem sequer você", se queixa a neurótica Monica Vitti a Richard Harris no final de Deserto Vermelho (de Antonioni), depois de ter dormido com ele.

Assisti ao filme novamente e essa frase me causou muito impacto. Gostaria de aplicá-la à minha pessoa, mas não entra nem à força. Esta seria a minha adaptação:

"Existe algo terrível na realidade, eu sei o que é, mas não quero dizer a vocês", ao menos não de imediato.

"Quando digo "realidade", me refiro à trama de Volver. O filme está finalizado, esta semana as primeiras cópias ficaram prontas, minha aventura acabou e, com ela, a minha procura. Por fim, vislumbro aquilo que queria contar: uma história da Espanha branca que acontece no mesmo lugar, com os mesmos personagens, onde se desenvolve a Espanha negra. Queria contar (no início da filmagem não sabia) que, sem trocar de cultura, cenário, personagens, época e costumes, sem renunciar tampouco à "profundidade" da Espanha profunda, existe uma Espanha que exala luz e bondade. E essa é a que retrato em Volver."

Pedro Almodóvar para a revista Bravo do mês de junho.

Volver é um filme sobre as relações quase mágicas que se estabelecem entre mulheres. Depois de La Mala Educación, de 2004, o diretor espanhol mais famoso do mundo volta ao tema que lhe é mais íntimo: o universo feminino. Nele há espaço para o sobrenatural, culinária, intimidade, confissões e redenção. Não é necessário dizer que as tomadas e ângulos de Volver são de uma beleza estarrecedora, nem que nas mãos do diretor até uma atriz que é essencialmente fraca e exagerada como Penelope Cruz entrega uma interpretação competente. A história gira em torno de três gerações de mulheres que precisam enterrar seus mortos, acertar contas com o passado e encontrar meios de seguirem em frente.

Almodóvar retorna a um tom de narrativa que dosa muito bem o humor e a sensibilidade, como já havia feito em A Flor do meu Segredo (1995) e Tudo Sobre Minha Mãe (1999), num filme que sedimenta seu lugar entre os grandes diretores do cinema internacional.

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