1.11.06

Little Miss Sunshine

Uma das coisas que mais me admiram na nova safra de diretores norte-americanos é a capacidade de auto-humor que eles têm. Sabem olhar para o próprio umbigo e debochar da sociedade que os criou. Todd Solondz (de Felicidade, 1998), Paul Thomas Anderson (Magnolia, 1999) e Greg Araki (Mistérios da Carne, 2004) fazem isso muito bem em seus filmes. No mesmo caminho estão Jonathan Dayton e Valerie Faris, os diretores de Pequena Miss Sunshine, que até podem ser estreantes no cinema, mas já são referência em direção de videoclip. De Janet Jackson a Smashing Pumpkins, de REM a Paula Abdul, de Offspring a Red Hot Chili Peppers, a dupla dirigiu alguns dos vídeos mais bem acabados visualmente das últimas décadas.

Portanto, não é de se espantar que Little Miss Sunshine seja esteticamente tão coeso, com os amarelos, azuis e vermelhos no seu devido lugar. No que tange ao tema, a dupla também soube escolher bem duas coisas revoltantes na sociedade norte-americana: neurolinguísica e concursos de beleza mirim.


O filme conta a tragetória da família Hoover, cujo pai (Greg Kinnear) é um "especialista" em neurolinguística fracassado, o filho (Paul Dano) é obcecado por Nietzsche e se recusa a falar, a pequena Olive (Abigail Breslin) sonha em ser miss, o avô (Alan Arkin) é viciado em cocaína, o tio (Steve Carell) acaba de tentar suicídio e a mãe (Toni Collette) tenta, muitas vezes em vão, colocar ordem e paz em meio a loucura de todos. A franqueza com os personagens se tratam é admirável. Aliás, franqueza é o que não falta aqui.



Outra questão levantada no filme é a bizarrice dos padrões de beleza venerados pelos americanos. Para ser um vencedor não se pode ser diferente do estabelecido. Pois Dayton e Faris expõem a hipocrisia desse conceito e questionam a sexualização precoce nesses concursos de beleza, em que mães recalcadas e doentes tratam as filhas como se fossem bonecas Barbie, ao seu (mau) gosto.



Mais um daqueles filmes alternativos que vai muito longe, por ser simples, honesto e bem feito.

Quem quiser ver alguns comerciais e videoclips dirigidos pela dupla Dayton/Faris, aqui tem.

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Quer uma sugestão? Corra à locadora mais próxima e procure Bem-Vindos (Tillsammans, 2000), filme sueco de Lukas Moodysson, que empresta muito da estética usada em Pequena Miss Sunshine.

Tem a menininha de óculos retrô, a Combi e muito amarelo, azul e vermelho.

Além, é claro, de ser um filmaço.

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