11.12.06

Andares

''... Não foi um milagre , não é outra pessoa , é ela com seus ardores nojentos e é seu coração que levanta esse pesado tosco que é seu corpo. '' Hilda Hilst

Hoje eu ouvi a história de um rapaz que se jogou da janela do oitavo andar de um prédio na minha rua. Aqui pertinho, ali na outra quadra. Ali, ali, onde passeam com boxers e cockers, onde estacionam entregadores de baurú e fofocam as vizinhas sobre a vida alheia. No meio desse viver simplinho do centro de Porto Alegre, jogou-se da janela do oitavo andar um rapaz de vinte e cinco anos. Ninguém sabe dizer porquê. Nem a razão do suicídio nem porque ele escolheu jogar-se da janela ao invés de outro método menos ou mais simbólico. Jogou-se da janela.

Quando eu morava em Florianópolis, meu vizinho de corredor tomou uma cartela de calmantes com amoníaco, confortavelmente fornecidos pela tele-entrega da farmácia mais próxima. Depois de descoberto caído no chão pela namorada, ele durou mais 2 horas, me disseram. Também me contaram que fora por causa da namorada, não por ela em si, mas por ter terminado o relacionamento.

Ainda em Floripa, há 2 anos, uma menina linda, com quem sentei por umas horas tomando café no calçadão, recém chegada de Londres, num dia de loucura, impulsionada pelo colchão, jogou-se de cabeça do primeiro andar, depois de soltar-se do pai desesperado. Ela não queria morrer. Nem bem sabia o que queria, para dizer a verdade.

No dia 29 de outubro de 1983, Ana Cristina Cesar, talentosa poeta, escritora, tradutora, amiga próxima de Caio Fernando abreu, jogou-se da janela do sétimo andar do edifício onde moravam seus pais em Copacabana. Num momento de angústia urgente, como em seus poemas, aquelas eternas despedidas com gosto de gengibre e "um filete de sangue na gengiva", Ana C. não aguentou mais.

Nem tentem me explicar. Eu não pretendo entender. Não quero saber de esquizofrenia, depressão, distúrbios psicóticos, desamor, desatino, desespero, desapego. Hoje eu não vou rezar pelas crianças na África, pelas do Brasil, para o natal ser bonito, só hoje eu não vou desejar que os americanos e brasileiros aprendam a votar, nem vou pedir emprego, dinheiro, amor. Eu vou é pedir a Deus que, na arquitetura divina das vidas nossas, não dê a ninguém a ilusão de ter asas nem lhes permita viver sem esperança.

Do sétimo, do oitavo ou primeiro, a goles ásperos de amoníco, não importa, eu não consigo entender. Não mesmo. E o meu não entender não é porque eu seja pollyana a ponto de achar que viver é lindo, não mesmo. Acho inclusive que viver é doer sem remédio, não há overdose de calmantes que amenize. E para nós, não há escolha. Vivemos. E se nos tentam cortar a vida, se nos assaltam, sequestram, espancam, maltratam, se adoecemos, cerramos o maxilar, buscando garra e vida lá bem dentro, para que não nos falte nem nos tirem. Mesmo sem dinheiro, sem amor, sem pai, sem mãe, sem música, sem filho, sem teto, sem nada. Nem do sétimo, nem do oitavo ou primeiro, não é deste andar que a gente deve se jogar. A gente precisa é se jogar pra frente. E, pelo menos, andar.

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