10.12.06

Chega mais


Para ler ouvindo a nossa música.

Meu amor,

Preciso te dizer uma grande verdade: sobra, com o tempo, cada vez menos de nós em mim. Não não. Eu ainda consigo sentir teus cheiros se fechar os olhos e pensar com força. Outro dia mesmo te vi ao meu lado dormindo e ouvi teu suspiro frágil ao se remexer na cama, como sempre fizeste, sem nem ao menos estares ali, como coisa viva e real. Mas de vivo e real só havia eu. Eu que agora me reviro com sonhos outros onde tu já não moras. Visitas, mas com menos frequência.

O verão aqui já superaquecendo Porto Alegre, avermelhando as cicatrizes aquelas que tu conheces bem, e as recordações de ti meio tépidas, amornando à temperatura do corpo, enquanto arde todo o resto. Se querias saber de mim, estou bem. Pensando cada vez menos em ti.

Largar da memória de quem se amou (eu já não uso mais o presente, percebeste?) é uma prisão privilegiada dos que se entregaram até o fim. A gente se prende àquele sofrer porque é uma forma de perpetuar o relacionamento. Assim eu fiz contigo estes três anos desde a nossa separação, me grudei ao que eu sentia por ti por não saber viver diferente, por achar que nunca mais poderia ser bom, que já não havia mais a possibilidade de ver o mundo em câmera lenta ao me apaixonar. E se há alguém, Deus ou que nome tenha, que comanda de longe a vida da gente, espero que Ele esteja só esperando para apertar a tecla slow motion de novo.

Pois hoje, sem nem mesmo saberes, eu oficialmente dou um belíssimo pé-na-bunda do que resta de ti em mim.

Vá com Deus.

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