30.1.07

Um avião




Adriana Calcanhotto e Antônio Cícero compuzeram Inverno em 1994, para o cd Fábrica do Poema. Disse a cantora "Fingi para ANTONIO CICERO (durante toda a gravação) que eu compreenderia se ele não conseguisse colocar uma letra na música que eu havia mandado, já que estava concentrado escrevendo seu livro. Fui falsa o tempo todo mas não posso dizer que cheguei a perder a esperança, aliás, gravei uma base instrumental com os músicos e fiquei esperando o dia em que chegaria em casa pisoteando folhas de fax?"

Começa assim: "No dia em que fui mais feliz/eu vi um avião se espelhar no seu olhar até sumir" e eu confesso que uma frase dessas não é para qualquer um, bicho. Este romantismo simples e eficaz, "sem amarras, barco embriagado ao mar" me deixou assim, meio congelado de emoção, acho que por causa do jeito que a gente vive as relações agora. A tendência é ver cada vez menos aviões se espelharem nos olhos amados e conseguir ser mais feliz por uma coisa assim.

É daquelas músicas que a gente sente que foram escritas para nós (não, Luana Piovani), talvez seja este o carimbo de qualidade das canções pop: a identificação imediata. Não sei, confesso, não sei mesmo. Pode ser também que esta coisa de dizer que "o céu reuniu-se à terra um instante por nós dois" faça a gente se sentir tão absurdamente abençoado e único. De novo não sei. Só sei que gosto muito. O jeito de Adriana cantar, de separar as sílabas, impetuosa, forte, mesmo que enfraquecida de sentimento, é bonito demais.

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Na foto, Palavras ao Vento (Written on the Wind), de Douglas Sirk. Sobre uma mulher ninfomaníaca e um homem impotente. Sei...

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