20.2.07

Censura Livre


Em inglês, a expressão "correr com tesouras" é utilizada para descrever um ato perigoso, no qual o praticante está fadado a se dar mal. Adverte-se sempre para que as crianças não corram com tesouras nas mãos, pois podem (e, provavelmente irão) se machucar. É mais ou menos o que ocorre com o protagonista de Running With Scissors, em cartaz nos cinemas do país (mentira minha, só entra em cartaz dia 23 de março. Ô atraso, viu?). A trama é, na verdade, uma coleção de memórias de Augusten Borroughs, autor do livro homônimo, cuja mãe louca o abandonou a cargo da família de seu terapeuta, numa casa em que a árvore de natal fica montada o ano inteiro e a mobília, exposta no jardim. Deu pra entender a loucura ou precisa mais?

Anette Benning faz o papel da mãe desvairada que sonha em ser poeta famosa, talvez seu melhor desempenho até agora. Ainda no elenco Gwyneth Paltrow, Joseph Fiennes, Alec Baldwin e Joseph Cross (na foto, à esquerda) no papel do autor Borroughs (na foto, à direita). Não perca seu tempo com Dreamgirls, se tiver que escolher um bom filme da temporada, assista a este.

Ouça, da trilha, Catherine Feeny cantando Mr. Blue

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Eu sou, desde sempre, um fã incondicional de documentários. Não sei se This Film Is Not Yet Rated chegará algum dia ao Brasil, mas quem gosta de cinema deve assistí-lo pois o filme investiga o sistema de classificação dos filmes lançados nos Estados Unidos, mais ou menos o que a censura fazia aqui na época da ditadura.

O problema é que a organização responsável, a MPAA, é composta por censores cujos nomes permanecem no anonimato e as regras são um mistério. Não se sabe, por exemplo, por que Atá-me, de Pedro Almodóvar, recebeu classificação X (a mesma de filmes pornôs) e O Resgate do Saldado Ryan, cujas cenas de violência explícita extrapolam qualquer parâmetro daquelas vistas até então no cinema, recebeu apenas um R (restrito).

Em Meninos Não Choram, para que o filme recebesse um R e, portanto, pudesse ser lançado em cinemas do país inteiro sem que a sua audiência fosse comprometida, a MPAA exigiu que o orgasmo de Chloe Sevigny fosse "mais curto" porque as protagonistas da cena eram ambas mulheres, ao passo que o estupro violento da personagem de Hilary Swank permanceu intocado.

Ao que parece, os Estados Unidos, representados por "pais preocupados", ocupam-se mais em censurar o sexo do que a violência. Acham mais feio Victoria Abril transando com Antônio Banderas do que as cabeças sendo decepadas em Sin City. Violência gratuita pode, sexo não. E eles ainda se perguntam por que a América é o país mais violento e hipócrita do mundo.

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