6.2.07

Clara Nunes, Iemanjá e a lama

Eu tenho uma reação muito inesperada cada vez que volto à casa dos meus pais. Desta última, no feriado de Iemanjá (veja você, aqui não é Bahia, mas dia 2 de fevereiro é feriado festejadíssimo) revirei fotos antigas, trouxe algumas, inclusive, e voltei a experimentar sons da minha infância e juventude. Fiz coisas legais, fui à praia, comi tudo de mais gostoso que tem por lá, matei saudades da família e cousa e tal. Mais especificamente, ouvi, com meus irmãos, muita Clara Nunes. A letra de uma das músicas encaixou-se como uma luva na memória de algumas pessoas que eu lá conheci.

Você pode tirar alguém da cidade pequena, mas você não tira a cidade pequena de alguém. Este ranço interiorano que as pessoas têm (inclusive eu) de sumirem da sua vida, ignorando tudo que vocês viveram, o quanto se gostaram, as que te amaram, as que brincaram contigo na infância, as que compartilharam da sua adolescência, as que foram o primeiro grande amor etc.

Pode ser que nos falte humildade de reconhecer que somos todos, do mesmo jeito, feitos para o mundo e que seria muito mais fácil se encarássemos a jornada sabendo que podemos contar um com o outro, de uma forma doce e verdadeira, sem receio de dizer nem de fazer. A verdade, me parece, é que certos gostares têm data de validade. Especialmente quando você, no encontro inusitado, percebe que te olham de cima e falam a teu respeito que já não pode mais, que foi. Estas coisas a gente percebe no olho. O engano de pensar que se está num degrau acima é perigoso demais. E não, o céu não é o limite. O limite somos nós.

Clara Nunes, Lama. Rodando a Bahiana.

"Pelo o curto tempo que você sumiu
Nota-se aparentemente que você subiu
Mas o que eu soube a seu respeito
Me entristeceu, ouvi dizer
Que pra subir você desceu
Você desceu

Todo mundo quer subir
A concepção da vida admite
Ainda mais quando a subida
Tem o céu como limite

Por isso não adianta estar no mais alto degrau da fama
Com a moral toda enterrada na lama"

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