1.3.07

Contida Violência

Eres humano?

"Um dia, antes de casar, quando sua tia ainda vivia, vira um homem guloso comendo. Espiava seus olhos arregalados, brilhantes, estúpidos, tentando não perder o menor gosto do alimento. E as mãos, as mãos. Uma delas segurando o garfo espetado num pedaço de carne sangrenta - não morna e quieta, mas vivíssima, irônica, imortal -, a outra, crispando-se na toalha, arranhando-a nervosa na ânsia de já comer novo bocado. As pernas sob a mesa marcavam compasso e uma música inaudível, a música do diabo, de pura e contida violência. A ferocidade, a riqueza de sua cor... Avermelhada nos lábios e na base do nariz, pálida e azulada sob os olhos miúdos. Joana estremecera arrepiada diante de seu pobre café. Mas não saberia depois se fora por repugnância ou por fascínio e voluptuosidade. Por ambos, certamente. Sabia que o homem era uma força."

Clarice Lispector, PERTO DO CORAÇÃO SELVAGEM.

Nenhum comentário:

Postar um comentário