19.3.07

Gente Louca S.A.

Half Nelson conta a história de um professor viciado em drogas pesadas, Dan Dunne e sua distante, porém fecunda relação com uma de suas alunas. Os dois, cada qual de um lado do tráfico de drogas, tem na trivialidade miserável da vida de classe baixa seu ponto de convergência. É a miséria humana em 3D. Um filme que exala poesia visual de uma forma simples e eficiente. Não é de se espantar que Ryan Gosling tenha sido indicado ao Oscar de melhor ator este ano. O título se refere a uma estratégia na luta, em que um dos braços do adversário é imobilizado antes do golpe final. Esta imobilidade norteia o roteiro do filme que consegue, sem reviravoltas e transformações, engajar o espectador.




Na tarde chuvosa de sábado, resolvi rever A Bela da Tarde, de Buñoel. Nunca vi Catherine Denenuve tão linda e perversa. Na época, 1967, era considerado uma obra de alto teor erótico, mesmo sem nudez. O erotismo está sempre à espreita na história da jovem e bem casada parisiense Séverine Serizy, cujo desejo sexual encontra-se aprisionado na fantasia, e sua luta para trazê-lo ao plano real. Para tanto, Séverine procura emprego num bordel das 2 às 5, para satisfazer suas fantasias de dominação. A vida dupla acaba trazendo um novo prazer à relação com seu marido mas, inevitavelmente, acaba em tragédia. Cinemão do bom.

O filme chegou a inspirar o título de uma música do sempre horrendo Alceu Valença. Valha-me Deus.



No Brasil, Lady Sings the Blues (1972) chama-se O Ocaso de uma Estrela e foi o Marcelo que gravou pra mim. É Diana Ross no papel de Billie Holiday, bem bêbada, bem drogada, bem tudo. Há alguns bons momentos de Diana, afinal de contas, ela não era tão ruim como atriz também. Este foi o filme que seu então marido milionário, Barry Gordy, presidente da gravadora Motown, deu-lhe de presente. O projeto é inclusive mencionado no filme Dreamgirls. Não há um frame de Lady Sings que não tenha a presença da atriz/cantora, às vezes irrita, mas no geral é tudo muito bem cuidado e a trilha é refinadíssima.

Claro, Billie Holiday era bem gordinha e Diana é um fiapo de gente, praticamente só cabeça, daí fica difícil associar uma à outra.




O diretor Michael Gondry, de O Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, mais uma vez propõe um desafio à racionalidade: a ciência do sono, ou melhor dizendo, dos sonhos.

Gael Garcia Bernal é Stéphane, filho de pai mexicano e mãe francesa que volta a Paris e conhece a vizinha Stephanie (Charlotte Gainsbourg), por quem se apaixona e vive num vai-e-vem intenso de sonho e realidade, onde a água é feita de papel celofane e os carros são de pepelão.

Para promover o filme a Warner Independent Films criou um website onde usuários postam vídeos amadores que representam seus sonhos.

The Science of Sleep é um desafio delicioso.


Quem já viu O Fantasma, do diretor português esquisitão João Pedro Rodrigues, provavelmente não sentiu muita vontade de conhecer o resto de sua obra. A especialidade dele é erotizar o bizarro, sem medir esforços. Em Odete (2005), no entando, Rodrigues pega mais leve nos fetiches sexuais e se aprofunda na loucura da falta de amor. Rui e Pedro são apaixonados e felizes até que este último morre num acidente de carro deixando o companheiro inconsolável. Por uma carência insana, Odete entra na vida de Rui, tentando ocupar o lugar do falecido, usando dos artifícios mais impróprios (incluíndo uma gravidez psicológica). Em inglês, o título de Odete é Two Drifters, referência à canção Moon River, tema do casal de gajos. Filme bonitinho, mas ordinário.

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