28.4.07

Adianta?

Ontem minha mãe, que mora a 320 Km de Porto Alegre me ligou para saber se eu estava bem. Dona Cafeína só liga aos domingos, por isso achei estranho. Acontece que à tarde haviam ligado a cobrar para a casa dos meus pais, uma voz chorosa dizendo "mãe, me salva, pelo amor de Deus". Agora você imagina dois velhinhos de 76 anos, com dois filhos morando longe, recebendo um telefonema desses. Claro, se ela tivesse continuado na linha, eles provavelmente pediriam um resgate. Graças à televisão e aos jornais, minha mãe sacou na hora que se tratava de um daqueles seqüestros virtuais, os tais golpes hediondos para extorquir grana dos indefesos.

O fato é que, num caso desses, a gente se torna refém sem mesmo ser seqüestrado. Dizem que eles ligam aleatoriamente, não sabem com quem estão falando e seguem telefonando até encontrar uma vítima que caia no golpe. Mesmo assim, você nunca mais enxerga a vida da mesma forma. Sua tranqüilidade vira refém desses marginais para sempre. É uma forma do mundo te dizer "você nunca está seguro". Daí você lembra do garoto arrastado e assassinado, dos ônibus pegando fogo, dos arrastões e da completa inexistência efetiva da segurança pública .

E pouca gente lembra que cada vez que um usuário compra um papelote de cocaína, uma trouxinha de maconha, uma pílula de ecstasy, sendo rico ou pobre, está alimentando a possibilidade cada vez maior de ser uma vítima. Porque no fundo, no fundo, o comércio de entorpecentes é que faz funcionar esta máquina do vandalismo brasileiro. São vândalos os deputados, senadores e políticos de toda ordem que perpetuam a nossa miséria em troca de uns milhões numa conta bancária em algum paraíso fiscal. Eles também são culpados dos crimes que acontecem todos os dias, de quando roubaram seu carro, de quando te assaltaram na volta do trabalho, daquela vez que você optou por voltar a pé pra casa e foi espancado por causa de um par de tênis.

Já o traficante que comanda o crime via celular do presídio nasceu num mundo diferente do nosso. A gente aprendeu a ler e escrever, tivemos um infância bonitinha, com carrinhos movidos a controle remoto, quebra-cabeças e bonecos Falcon. Ele só teve acesso a essas coisas depois de matar muita gente, depois de obter controle do morro, estuprar, assassinar, enganar. Hoje ele brinca de crime movido a controle remoto, ele quebra a cabeça planejando rotas de tráfico e manipula os bonecos da polícia militar com ameaças e subornos. Pessoas assim chegaram ao mundo com tanta humanidade nas veias quanto nós, a diferença é que eles perdem um pouco dela a cada dia que passa.

Eu me sinto culpado da violência, mesmo sendo refém, mesmo me sentindo o tempo todo como se estivesse com uma arma na cabeça. Eu me sinto responsável por ela. Eu tento votar com a melhor das intenções, quero um candidato que valorize a segurança pública, um que coloque policiamento nas ruas. Mas será que adianta? Será que não estamos construindo uma redoma social que fomenta ainda mais o ressentimento dos que ficam à margem dela? Será que policiamento ostensivo dá educação e saúde para quem já nasce na marginalidade? Existirá a possibilidade de humanização no caos horrendo da falta de alma?

Daqui a uns dias meus pais e eu esqueceremos o ocorrido. Dormiremos mais tranqüilos. Esse é que é o perigo.

"... o que me sustenta é saber que sempre fabricarei um deus à imagem do que eu precisar para dormir tranqüila e que outros furtivamente fingirão que estamos todos certos e que nada há a fazer."
Clarice Lispector, Mineirinho.

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