14.4.07

Os Embalos de Sábado de Manhã

Muito cedo nas manhãs de sábado, sou invariavelmente acordado por uma legião de senhoras vestindo jérsey. Eu explico. A prefeitura de Porto Alegre (ou instituição que o valha) realiza aos sábados, desde demasiadamente cedo, uma aula de dança de salão no largo de uma praça a alguns metros do meu apartamento. Lá, um professor vestindo lycra e uma moça de cabelos crespos loiro-diarréia têm, presos à cabeça, microfones de Madonna (Vogue! Vogue!) e proferem ordens de incentivo às empolgadas da diminuta platéia. Arrisco a dizer que não há homens, pelo menos até onde eu consegui enxergar. Geralmente o volume da música desafia a potência das caixas de som e minha capacidade de ignorar o evento. Hoje, como não costumo, resolvi tomar meu café na sacada e conferir a interação. A loira diarrética grita, em gauchês fronteiriço:

-Vamos lá, gurias, danção! Pegão na mão da colega, muita alegria!

Uma senhora de cabelos alaranjados requebra sacudindo as mãos como se delas pingasse água. Dediquei a ela a minha atenção. Dei até nome: Dona Edília. O que mais me espanta em D. Edília é a independência. Durante a troca de pares ela, ao contrário das outras, não sai à caça de uma nova parceira de dança. Fica lá, na sua, curtindo seu Elvis Presley, dançando twist numa nice. Vocês precisam ver a valsa de D. Edíla. Dança, com olhar romântico, com seu parceiro invisível e rodopia, rodopia, rodopia. Um mini-ciclone tropical.

O moço de lycra comanda:

-Querem descansar? BEM CAPAZ!! Vamos dançar lambada!

A velha Edília revira os olhinhos, com cara de ódio. Dá meia-volta e deixa aquele bando de simplórias descadeiradas ao som de Chorando Se Foi.

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