31.5.07

Os Cubos de Mondrian


Por muito tempo um dos grandes medos que me assombravam foi o de ser mal interpretado. Porque é humano esperar algo do outro. A pessoa abre a boca e antes que as palavras saiam, o interlocutor já tem um formulário com o esqueleto do que ele espera ouvir e as possíveis variantes preenchem as lacunas. Mas nem sempre percebemos que este formulário com nosso nome na primeira linha é um retrato mais ou menos fiel da forma com que o outro nos enxerga. Aprendi, talvez um pouco tarde, que se da outra extremidade da falha de comunicação há um estranho, não deve haver razão para mágoas ou auto-flagelo. Um estranho não tem obrigação de esperar o melhor de mim, muito provavelmente não vai e quem há de culpá-lo?

Nunca me fugiu a certeza de que tenho um discurso de cor vermelho-serrote, de fato uma agravância para o ruído de comunicação com as pessoas de tons pastéis. E eu digo coisas que no momento da fala me parecem claras porque eu penso e sinto intensamente a respeito delas. Mas eu nunca desconsiderei a fugacidade da vida na hora de benvir a possibilidade de amanhã mudar de idéia. E se um amigo aproxima-se suspeitoso da minha certeza, sabe como eu sou, tira uma onda ou simplesmente, vestido da mais branca honestidade, me confronta. "Me explica isso, rapaz!" Explico de boa vontade sim. Pode ser que voltemos, cada qual para o seu canto, mais esclarecidos, menos ofendidos e mais amigos.

E se um de nós se recolhe calado? E se os dois se fecharem? Tranca-se a porta e engole-se a chave. Para isso não me parece haver bula. Nem o tempo, coitado, a quem nós delegamos exaustiva responsabilidade de cura, consegue sempre redimir um desentendimento bélico. A verdade é que não há teoria, acho que precisamos deixar a força do inevitável dar ordem às coisas. Desvendar o que em mim fez mal-dizer e ao outro mal-entender. Mas há cadáveres que, depois de bem velados, precisam deitar no abraço da cova mais funda para que possamos seguir vivendo e nos desentendendo com um pouco mais de compreensão.

Na última semana



Faz um tempinho que eu gravei uns dvds com clássicos que eu sempre quis assistir. Nas últimas semanas eu resolvi que ia explorar dois diretores: Douglas Sirk e Hitchcock. O primeiro foi especialista em retratar a sujeira por debaixo do tapete dos subúrbios americanos pós-guerra. Aliás, em Tudo Que o Céu Permite (1955) a câmera passeia pelas ruas sob o céu technicolor de uma forma muito parecida (para não dizer idêntica) ao seriado Desperate Housewives. E as donas de casa dos anos 50 retratadas por Sirk eram, sim, desesperadas e sofriam com o olhar acusador desta entidade misteriosa chamada "sociedade". Em Palavras ao Vento (1956) percebe-se a forte influência do diretor no seriado Dallas, com o executivo do petróleo alcóolatra, sua irmã ninfomaníaca e os dramas familiares que o dinheiro não resolve, só aumenta. Imaginem isso discutido naquela época.

Em O Homem Errado (1956), o mestre do suspense explora muito pontualmente o tema da culpa. Henry Fonda faz o papel de um homem acusado injustamente de assaltar vários estabelecimentos. Seu único crime, no entanto, é parecer-se demais com o verdadeiro criminoso. Hitch é impiedoso com a sociedade moralista que pretende a qualquer custo encontrar a quem culpar, mesmo sem provas concretas. Não é de se espantar que esta seja a realização do diretor mais estudada pelos aficcionados franceses, pois além da forma corajosa com que encara o tema, também apresenta movimentos de câmera revolucionários para a época. Já Terror nos Bastidores não é um dos melhores filmes de Hitchcock, mas tem Marlene Dietrich impagável como a esposa suspeita de ter matado o marido. Mais uma vez o espectador é levado a acreditar numa tese que se desfaz magistralmente no final.

E quanto mais eu assisto aos clássicos, mais percebo que o mundo pouco mudou.

30.5.07

A origem das espécies - parte 2

O Processo

"E ali estava ele. Que pretendera apenas anotar, nada mais que isto. E cuja inesperada dificuldade era como se ele tivesse tido a presunção de querer transpor em palavras o relance com que dois insetos se fecundam no ar. Mas quem sabe — perguntou-se então na perfeita escuridão do absurdo — quem sabe se não é na expressão final que está o nosso modo de transpor os insetos se glorificando no ar. Quem sabe se o máximo dessa transposição está exatamente e apenas no querer. . . (E assim ele estava salvando o valor de sua intenção, dessa intenção que não soubera se transformar em ação.) Quem sabe se o nosso objetivo estava em sermos o processo. O absurdo dessa verdade então o envolveu. E se assim for, oh Deus — a grande resignação que se precisa ter em aceitar que nossa beleza maior nos escape, se nós formos apenas o processo."

Clarice Lispector, A Maçã no Escuro |1961|

28.5.07

Um sopro

Montgomery Clift, aos 33 anos, estrelou A Tortura do Silêncio (I Confess, 1953), de Alfred Hitchcock, fazendo o papel de um padre que ouve a confissão de um assassinato na cidade de Quebec. Acontece que, dadas as reviravoltas mirabolantes, ele se torna o principal suspeito. O que fazer então se ele não pode quebrar o segredo da confissão?

Também no elenco, Anne Baxter, de A Malvada e o grande Karl Malden. Confesso que não sei o que Hitchcock fazia para tirar dos atores performances tão inspiradas, mas é uma coisa que faz muita falta no cinema de hoje.

O filme perfeito para o final de domingo.



Em cartaz no Santander Cultural até o dia 31, sempre às 15h, Oscar Niemeyer - A Vida é um Sopro, conta, através dos projetos do arquiteto mais famoso do Brasil, sua história e filosofia de vida. Um documentário encantador, com bom ritmo e imagens emocionantes.

"A primeira vez que eu fui à Brasília de avião, a gente foi com os militares. Eu sentei ao lado do Marechal Lott e, no caminho, ele me perguntou: ‘Niemeyer, o nosso edifício vai ser clássico, né?’ Eu até disse, sorrindo pra ele: ‘o senhor, numa guerra, o que vai querer? Arma antiga ou moderna?"

O filme ainda contém depoimentos de gente do calibre de José Saramago, Eduardo Galeano, Carlos Heitor Cony, o poeta Ferreira Gullar, o cineasta Nelson Pereira dos Santos, o ex-presidente de Portugal Mário Soares e Chico Buarque.

25.5.07

Compilation



Uma coletânea com 12 faixas que começam acústicas e terminam mais eletrônicas. Destaque para o remix de Vestidinho Vermelho (versão em português de Beautiful Red Dress, de Laurie Anderson), faixa bônus de Lá Nos Primórdios, álbum novo de Marina Lima e a colaboração gostosíssima de la Calcanhotto com o português Rodrigo Leão.

1. Merril Bainbridge - Being Boring (3:52)
2. The Stereophonics - Nothing Compares 2 U (4:19)
3. Keane - With or Without You (3:15)
4. Tracey Thorn - King's Cross (4:28)
5. Rufus Wainwright - Not Ready To Love (5:51)
6. Rodrigo Leão feat Adriana Calcanhotto - A Casa (Lounge Mix) (5:21)
7. Ofra Haza - Open Your Heart [Die Krupps Remix] (4:57)
8. Banderas - This Is Your Life (Easy Life Mix) (6:05)
9. Junkie XL - Reload (Feat. Dave Gahan) (4:38)
10. Zoot Woman - The Model (3:31)
11. Flat Pack - Sweet Child O'mine (Tocadisco Mix) (6:13)
12. Marina Lima - Vestidinho Vermelho (remix) (5:59)

Aqui (clique com o botão DIREITO do mouse escolha "salvar link como")[Eu conferi, o link funciona.]

Bits and pieces

La Reina Madre mandou avisar ao povo de Sampa que tem Bolsas e acessórios dias 25 e 26 de maio no Bardot Salão, juntamente com as camisetas mega-ultra Tozco e mais outras cousas de mulezinha que eu sei que vocês gostam. Vai lá.

Dizem por aí que a Denize faz magia branca nas peças assim que ficam prontas. A pessoa usa a bolsa, o avental, a máscara de dormir e mergulha num oceano de prazer e sensações multicoloridas.

Outro dia mesmo me relataram um fato quase inacreditável, mas como me pediram segredo, não posso contar. Só posso dizer que a pessoa em questão vestiu a máscara de dormir e entrou em transe orgásmico. E não estava só.


+

Premonições com Sandra Bullock e Julian McMahon (de Nip/Tuck) é um filme de suspense sobrenatural/psicológico cuja trama te deixa pensando seriamente se você será capaz de acompanhar os 110 minutos sem dar um nó nas idéias. Mas dá. É bem razaóvel inclusive. Linda (Bullock) acorda um dia e recebe a notícia de que o marido (McMahon) morreu num acidente de carro, depois do choque ela pega no sono e acorda 3 dias antes, aí ela acorda de novo 4 dias depois e assim por diante. Só que estranhamente o filme não é confuso. E também nunca se viu Sandra Bullock atuando tão bem, acho que só em Crash, mas Premonition é todo dela.

A crítica internacional vaiou em coro. Eu achei muito divertido.






+Sexta-feira é dia de compilation... não é?

24.5.07

Acaboooo-oooo-oooo


- Eu sou um dos sobreviventes do vôo 815 da Oceanic. Vocês podem rastrear nossa localização?
- Sim, podemos! Estamos a caminho.

...e todos suspiram aliviados.

Até quando não se sabe.

23.5.07

Passando

Minha amiga, eu quero ver você passar. Mais do que isso, eu quero ver você passar linda e cheia de si por tudo a que tem direito. Os carinhos, os amores, amizades, todos os portos onde amarrou seu barco, todas as assinaturas no seu gesso, os cartões de natal, aniversário, dia dos namorados, as confissões ao telefone, os chás de jasmin, as leituras em voz alta do horóscopo dominical. Eu queria que você se visse como eu te vejo. Nem magra nem gorda, nem alta nem baixa, nem nariguda, barriguda, longelínea, oblonga, achatada, burra, chata, carente, insistente, incoerente. Nada disso. Você precisa ver que nos olhos do meu coração é a Miss Universo que a idade deixa mais bonita. Que no meu segundo caderno você está sempre em cartaz, de quinta a domingo com sessões extras de matinê e é um sucesso de público e crítica. Porque você ... olha, você tem umas coisas engraçadas no jeito de rir e aquelas bobices de se preocupar com o julgamento dos outros a seu respeito e aquela coisa estranha que você faz com o olhar quando alguém fala uma tolice. Não dá pra acreditar que você ainda não se deu conta de que você não é mulher de ficar, entende? É mulher de passar. As que se acostumam em ficar são aquelas pobrezinhas, olhar pela metade, sentadas à sombra embolorada onde não bate sol. Fique se quiser, mas fique pouco. Eu quero mesmo é te ver passar sob o spot da manhã mais emocionante, de faixo de luz rastejante à sua frente iluminando a calçada, amarelo-amanhecer ou laranja-entardecer, não interessa. Importante mesmo é que quando tem você, há luz e enquanto houver a mim, você tem um amigo. Mas deixe disso, não demora não. Eu quero ver você passar!

Rapidinhas sem tirar

É isso mesmo, pode xingar. Andamos por aqui meio ocupados e sem concentração e tempo para a redação de posts inspirados nem coletâneas. Mas alguma coisinha há para comentar com você, que é um dos 10 leitores que vem aqui por dia.

|||||O Teco Apple agora não é mais Blogger, é www.tecoapple.com e nos brinda com a nata da informação indie universal. Eu não sei como esse guri consegue ver e ouvir tudo aquilo. Mas vou lá todos os dias.

||||||Aconteceu alguma coisa estranha comigo ontem à noite. Eu assisti tv. Foi esquisitíssimo. Aquele programa chamado TV Fama parece ser o máximo que o mau jornalismo e a maldade humana conseguem alcançar. Eles têm reporters nos bastidores daqueles eventos de mídia e mostram os artistas em câmera lenta enquanto a voz do "repórter" sugere os rumores mais absurdos a respeito da criatura. Deve ser mesmo uma barra ser famoso.

|||||||No programa do Jô, um humorista engraçadíssimo que está com peça em cartaz no Rio de Janeiro, chama-se Minha Mãe é uma Peça (assista, é no teatro do Leblon, sala Fernanda Montenegro). O que eu acho engraçado é que o Jô vive fazendo piadas de "viados" no programa e quando na presença de um (ou na suspeita de) ele fica bem quietinho. Alguns diriam que é respeito, eu me pergunto se adianta ter respeito só de vez em quando.(reflita)

||||||||Você sabia que as madrugadas do SBT são recheadas de séries americanas bem boas? Tem Arquivo Morto, Verônica Mars, Oz, Supernatural, todos dublados, claro, mas mesmo assim dá de dez a zero na concorrência depois das 2 da manhã. Pena que o Ibope só mede audiência até a uma.

|||||||||Andam publicando por aí fotos de papparazzi que mostram Sharon Stone tomando sol em Cannes e criaram uma celeuma por causa das celulites da atriz. Sim, ela tem celulites na bunda e qual é o problema? A mulher tem quase 50 anos, vão se preocupar com celulite na Lindsay Lohan, pelo amor de Deus! (ou faça melhor, assista a Casino, de Scorsese e não perca seu tempo com esse lixo todo)De mais a mais, não tem creme anti-celilute que remedie a falta de classe.

||||||||||Outro dia me disseram que o equivalente masculino moderno da anorexia é a obsessão pelo corpo cada vez mais musculoso. Se você perguntar a qualquer bombado o que ele acha do seu corpo, ele sempre vai dizer que está muito magro. Reflitamos.

Abriu o sol em Porto Alegre. Com licença, eu preciso trabalhar. Bom dia.

22.5.07

Praticidade

Eu estava passando pelos canais locais daqui de Porto Alegre e, no intervalo de um programa de culinária, me deparei com uma propaganda de humor altamente sublimar: Novo Feijão Namorado, já vem escolhido.

Nem este trabalho a pessoa precisa mais ter. É só casar.

Zapeando




Foi ao ar nos Estados Unidos ontem o último capítulo da primeira temporada de Heroes. Confesso que não achei o melhor de todos, mas encerrou a história de uma forma, digamos assim, épica. Além disso, ainda deu uma amostra de como será a próxima temporada. Pena que alguns dos meus personagens favoritos morrem. Que maneira mais dramática de se tornar um herói senão morrendo, não é mesmo? E a caixa com os DVDs da série sai em Agosto, contendo o piloto inédito e mais zilhões de extras.

+

Amanhã é dia do capítulo duplo de Lost, que encerra a terceira temporada. Desta vez eles estão finalmente resolvendo alguma coisa. Andam dizendo por aí que Charlie vai dessa para uma melhor. Oremos. Ele é sem dúvidas o personagem mais enjoado da série.

+

Terminaram também Ghost Whisperer e Bones, ambas em alto estilo. Cada vez me apaixono mais.

+

Segundo resultados de pesquisas da tv a cabo americana, a 4a. temporada de Nip/Tuck foi a de maior audiência da tv paga no ano passado, com 3.4 milhões de espectadores grudados no episódio final. A série volta em outubro e o DVD com a temporada passada sai em setembro. Ryan Murphy, o criador de Nip/Tuck, está escrevendo um papel especialmente para Madonna, que se diz grande fã do seriado. A clínica de Sean McNamara e Christian Troy mudou-se para Los Angeles, meca do estica/puxa facial.

+

Sábado, dia 7 de julho, acontece o Live Earth, evento nos moldes do Live 8 que reunirá artistas do mundo inteiro em mega concertos nos Estados Unidos, Inglaterra, Austrália, Japão, China, África do Sul e, vejam só, Brasil. Madonna, inclusive compôs uma canção especialmente para o acontecimento, chama-se Hey You e tavez seja a pior coisa que a cantora já fez nos 25 anos de carreira. Esperemos que a apresentação dela no concerto de Londres a redima do fiasco. A edição brasileira acontecerá na praia de Copacabana e poderá ter Lenny Kravitz, Snoop Dogg e Jennifer Lopez, mas nada é oficial.

21.5.07

Máquina de moer carne



Nos anos 70 e 80 aos cinemas de rua entraram em decadência por conta do surgimento das grandes redes de cinema dos shopping centers nos Estados Unidos (fenômeno este que contaminou o resto do mundo anos mais tarde). Restaram aos antigos proprietários dois tipos de público ainda não atendidos pelos cinemas multiplex: o de filmes pornôs e os aficcionados por cinema trash. Para este último grupo fazia-se maratonas com crème de la crème do que havia de mais grotesco no imaginário adolescente: zumbis, banhos de sangue, divagações de mal gosto a respeito do sobrenatural e, é claro, mulheres sensuais que invariavelmente iniciavam o filme participando de orgias dantescas para depois serem brutalmente assassinadas. Tais filmes eram exibidos geralmente em double features, ou seja, 2 pelo preço de um. As salas eram chamadas de Grindhouses pela quantidade de sangue esguichado pela tela.

É este tipo de cinema que os amigos Quentin Tarantino e Robert Rodriguez homenageiam em Grindhouse, um double feature moderno com cara de filme b setentista. A primeira parte, dirigida por Rodriguez, chama-se Planet Terror e conta uma história sem pé nem cabeça que envolve armas tóxicas, mutilação, zumbis e uma heroína com uma metralhadora no lugar de uma das pernas. Death Proof, a de Tarantino, presta tributo aos roadmovies de suspense, aqueles em que um misterioso carro preto assombra e mata jovens inconseqüentes em alguma cidadezinha do Texas. Mas não se engane com a pobreza dos argumentos, deve ter dado muito trabalho para Grindhouse parecer tão tosco. É tudo muito estiloso e caprichado, até os cortes cuidadosamente amadores e os avisos que vez por outra pipocam na tela, coisas do tipo: "o seguinte rolo de filme foi perdido". Há, inclusive, tailers fictícios dirigidos por gente como Rob Zombie e Eli Roth, de O Albergue. Boa diversão para quem tem senso de humor e estômago forte.

Mais Tracey

Tracey Thorn está de single novo na praça, é Raise The Roof, música bonita, vídeo bonito, remixes legais e, de lado-b, King's Cross, orginal dos Pet Shop Boys, lembra?


20.5.07

17.5.07

Mais dela



Um Fenômeno de Parapsicologia

Uma vez um episódio me foi contado sucintamente por uma mocinha. Eu lhe pedi então que anotasse o que me dissera, sem fazer literatura nem estilo, apenas como lembrete para mim, pois eu pretendia fazer uma espécie de conto do que ele narrara.

A moça pegou um bloco de papel e sentou-se num canto de minha sala, meio de costas para mim. E eu fiquei sentada, pensando e sentindo, esperando, vendo de través sua mãozinha rápida demais a correr sobre o papel, enquanto eu compunha mentalmente a história que ali mesmo desenvolvi completamente.

Ela parou e disse: - Não sei como continuar.

Então como se eu já tivesse lido o que ela escrevera antes, ditei-lhe a parte mais importante.
Em breve a mocinha disse: - Está pronto, vou ler alto para você porque minha letra não é boa.

Ao ouvir, meus olhos abriram-se em grande surpresa: ali estava a história quase como eu pretendia contá-la e como a forjara enquanto ela escrevia!

Interrompi a moça para lhe dizer:

- Mas você escreveu como eu, com as minhas próprias palavras! A história está por assim dizer pronta! Como é isso?

Ela respondeu:

- Quando estava escrevendo, tinha a impressão nítida de que você estava ditando para mim, e era só eu copiar. Foi tão fácil.

Não pode ter sido o estilo que usou influenciado pelo meu, pois ela confessou que não lera senão algumas páginas minhas e que não aguentara ler mais, tocava-lhe demais o coração. Além de que nosso convívio pessoal era recentíssimo...

O que aconteceu é que a mocinha havia sido meu receptáculo.

Estou contando esse fato verídico sem entendê-lo. O mistério das relações humanas me fascina.

Clarice Lispector
+

Não deixe de visitar o site oficial da autora, recentemente inaugurado pela editora Rocco. Mas separe algumas horas para degustá-lo.

16.5.07

Discutindo a Relação com Bethânia

-Primeiro você me azucrina, me entorta a cabeça, me bota na boca um gosto amargo de fel.
-Começaria tudo outra vez, se preciso fosse meu amor.
-Depois vem chorando desculpas, assim meio pedindo, querendo ganhar um bocado de mel.
-A chama no meu peito ainda queima, saiba, nada foi em vão.
-Drama!
-Quando voce me deixou, meu bem, me disse pra ser feliz e passar bem. Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci, mas depois como era de costume, obedeci.
-Atiraste uma pedra no peito de quem só te fez tanto bem.
-Eu sei que eu tenho um jeito meio estúpido de ser, mas é assim que eu sei te amar.
-Quero ver o que você faz ao sentir que sem você eu passo bem demais.
-Veja bem, nosso caso é uma porta entreaberta!
-Mas e se o amor pra nós chegar, de nós, de algum lugar, com todo o seu tenebroso esplendor?
-Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima!
-Então tá combinado, é quase nada, é tudo somente sexo e amizade?
-Meu amigo, se ajeite comigo e dê graças a Deus.

15.5.07

De Volta

Parece estranho, mas há detalhes de uma música que a gente só percebe ao ouví-la no headphone. E se você tem a sorte de ter um par desses com cancelamento de ruído externo, então, é uma maravilha. Andei ouvindo Volta, o álbum novo de Bjork, por exemplo, e a faixa Innocence se destacou imediatamente nas minhas conchas acústicas Sony.

Só depois de ouví-la umas 3 vezes foi que me dei conta de uma coisa: ela soa muito parecida com as faixas do último (e delicioso) cd de Nelly Furtado. A razão é simples: o mesmo produtor, Timbaland, aquele que está neste exato momento produzindo o novo álbum de Madonna. A diferença, no entanto, está na raiva. Bjork canta com um ressentimento apavorante. Ela pode estar entoando Ave Maria e ainda assim você percebe uma dor inexplicável. Disse ela numa declaração recente que Volta é um álbum divertido. Deus nos livre, então, de Bjork furiosa.

Na foto, a moça demonstrando todo o charme e malemolência da mulher esquimó no Hurricane Festival.

Engasgado

Você anda guardando muita raiva, ressentimento, medo, insegurança, stress, ciúme ou simplesmente está no seu limite possível de engasgue psicológico? Faça o seguinte: mentalize uma ou mais pessoas que representam todo o lixo entalado em sua garganta e coloque a tocar esta canção.

Para mim fez maravilhas.

Compilation



Edição especial, extraordinária, uma compilation de presente para o Rodrigo, o Tiozinho da Foto, companheiro de cafés, tortas e indiadas noturnas, a quem eu desejo muito sucesso e felicidade.

1. Etta James - Purple Rain (5:45)
2. Depeche Mode - Only When I Lose Myself (4:41)
3. Brett Anderson - Intimacy (2:48)
4. Joss Stone - Tell Me 'Bout It (2:49)
5. Suede & Neil Tennant - Rent (Pet Shop Boys Cover) (4:09)
6. Lisa Hannigan & Damien Rice - Get The Party Started (3:08)
7. Maroon 5 - She Will Be Loved [acoustic](4:37)
8. Ben Folds & Rufus Wainwright - Careless Whispers (3:42)
9. Erasure - Love Affair (3:55)
10. Jody Watley - Borderline (5:01)
11. The Temptations - Just My Imagination [rmx] (4:39)
12. Nelly Furtado - Maneater [Acoustic] (2:59)
13. Daniel Beddingfield - Somebody Told Me (2:50)
14. Kelis Vs Duran Duran - Notorious Trick (3:03)
15. Olive - Im Not In Love (4:41)
16. No Doubt - Love To Love You Baby (4:22)
17. The Killers - Read My Mind [Pet Shop Boys Stars Are Blazing Mix] (7:20)

Aqui. [clique no primeiro "download link"]

14.5.07

Everybody goes to Hollywood

Sábado à tarde, puxei o tiozinho pela orelha para assistirmos a Hollywoodland na Casa de Cultura Mário Quintana. Digo que o puxei pela orelha porque é assim que eu faço com os amigos que estão jururus da vida. Mas não é disso que eu quero falar. Nem do Rodrigo, nem do filme. O que se destacou na ocasião foi um curta-metragem local que nos obrigaram a assistir antes do blockbuster. O com os curtas você sabe como é, não? A gente fica com cara de desentendimento, sem saber quanto tempo aquele nonsense vai durar. Eu geralmente gosto de nonsense desafiador, acho que o curta é uma forma saudável do diretor ou aspirante a diretor exercitar seu ofício. Se a idéia for relevante, é claro.

São dois homens de branco, num cela branca, com porta de ferro branca. Falam numa linguagem absolutamente desinteressante, o que me permitiu observar que a moça do figurino esqueceu de dar uma segunda demão de tinta branca na botina de um deles. E, imagine você, há flashbacks. Que coisa dolorosa um flashback fora do lugar, meu Deus. Foram 15 minutos de um nada incômodo. Quantas incongruências pode um roteiro desta metragem conter, ó céus? Mas, pronto. Está feito. Continuem produzindo, guris. É praticando que se acerta. Eles sabem movimentar a câmera, eles sabem ambientar, só lhes falta um bom roteiro e melhores atores. Ou, quem sabe, os atores são bons e foi o diretor que não acertou a mão? Não sei.

Eu sei que a gente tenta apoiar o cinema local, o nacional, a gente faz força para tanto. Se você perceber, os críticos brasileiros são bonzinhos com a nossa produção e irrascíveis com hollywood. Eles têm medo de falar mal e desencorajar os espectadores. Aí dizem que o filme custou tanto, é do diretor tal, ganhou prêmio em festival, foi exibido na mostra aquela. Dizem que atriz fulana está muito bem no papel de mulher judiada pela vida no nordeste longínquo, dissertam a respeito da trilha sonora do fulaninho premiado com um Grammy latino, dizem que a fotografia do sicrano tem um toque de Affonso Beato ou que a desinteria narrativa lembra um jovem Glauber Rocha. Imagina que um jornalista teria cojones para maldizer uma película dirigida por um global.

Esta condescendência atrapalha muito. Parece que todos os filmes nacionais da "retomada" são bons na mesma medida. O que não só é mentira como também dilui o impacto naqueles grandes filmes que fizemos na última década. Eu recomendo, por exemplo, que você asssita Terra Estrangeira, de Daniela Thomas e Walter Salles Jr., recentemente relançado em DVD duplo, é um grande cinema a respeito do qual pouco se fala. Domésticas - O Filme, de Fernando Meirelles e Nando Olival talvez seja um dos mais bonitos e bem acabados exemplos de que a gente pode, sim, fazer comédia dramática com categoria. Zuzu Angel, O Céu de Suely, Cinema, Aspirinas e Urubus estão aí para provar que a gente pode mais ainda.

Só não espere que eu fale bem de filme ruim. Você já viu A Cartomante? Não veja. Assassinaram Machado de Assis, coitado. Mas não vou enumerar os outros tantos que disperdiçam dinheiro num país em que se precisa de guerrilha para que um filme veja a luz do dia. Não vou falar que nós temos diretores ruins em sua maioria, que a cada ano talvez surja um roteiro que preste, que a infelicidade nordestina cansa, a ojeriza que me deu vendo Lázaro Ramos, outrora tão bem em Madame Satã, caricaturando o sotaque gaúcho nem daquelas dolorosas comédias de erros da Globo Filmes. Mas uma coisa eu garanto, A Cartomante é o mais sério concorrente a pior filme nacional do século.

Voltando ao curta-metragem de sábado, ele tem um mérito indiscutível. Fez Hollywoodland parecer um filmão.

A quem interessar possa


Meu amor,

Já que ainda não nos conhecemos, acho bom você saber algumas coisas a meu respeito. Talvez ajude. Mas tenha em mente que ninguém é imutável, que a natureza das pessoas é rochedo ao mar, pode aos poucos mudar de formato, amolar as pontas, sofrer arestas. Mas prepare-se, eu não sou flor que se cheire.

Entre nós ainda existe um abismo gigantesco, proporcional à minha vontade de me relacionar agora. I'm traveling light, como diria Billie Holiday. Por onde eu vou levo muito pouco e trago tanto quanto for necessário para a sobrevivência. Ando com o coração de cigano, sem casa. É que passei anos curando uma ferida que me causava dor atroz, daquelas injustas de a gente compartilhar. Então guardei pra mim, lambi, tirei a casca, abriu-se centenas de vezes me deixando sempre desconfiado se não tornaria a romper em uma semana, um mês. Por isso não permiti que ninguém mais a visse. Agora, porque Deus é pai, sobrou apenas uma cicatriz esbranquiçada. Cicatrizes são do tamanho da nossa necessidade de lembrar a razão do ferimento, não te parece? É importante a gente lembrar de onde vem, como chegou até aqui, que batalhas travou.

Eu não lembro mais como é a gente se embalar na rede do amor à sombra e água fresca do apaixonamento. Esqueci por falta de prática. Mas penso que deve ser como andar de bicicleta. Só não me peça que pedale com a destreza antes, não de uma hora para outra. Posso te prometer, com certeza, não atropelar ninguém. Nisso eu me garanto. E te prometo também abraços para o teu cansaço e mordidas no pescoço quando não esperas. Prometo que uma das próximas luas cheias será só nossa e que ela vai ter uma canção especial e dançando seremos dois satélites circundando este planeta absurdo. Fará frio? Espero que sim, mesmo não importando.

Vamos ao cinema? Vamos querer ver o mesmo filme e discutí-lo tomando café forte e comendo alguma torta qualquer que tenha nozes? Você gosta daquela de damasco coberta com chocolate branco? Você vai limpar o açúcar da minha camisa, eu sei. E eu vou passar o dedo de leve no seu rosto pensando alguma coisa que não vou dizer. Vamos para casa que está frio e precisamos tirar esta roupa toda. Tem um edredon novo aqui na minha cama, king size. Daqueles que fazem a gente parecer pequenos, quase duas crianças brincando embaixo dele. Vamos voltar a ser criança e fazer bobagens embaixo do edredon? Melhor ainda, vamos virar adultos sacanas e fazer uma bobagem ainda maior?

O que você viu em mim? "Ah", você diria, "eu vi alguma coisa nos teus olhos que decidi querer naquele exato momento em que você os pousou em mim". "E você?" Aí eu explicaria em minúcias como me apaixonei pelas dobrinhas da tua mão, pela maciez do teu ombro, por aquela curvinha imediatamente abaixo da axila, o jeito que você me sorri e de como você sempre soube quem eu era, mesmo antes de me conhecer e ainda assim me faz sentir uma novidade todos os dias. Acho que somos isto: uma notícia boa que o outro quase não espera mais. E você há de ser a manchete principal do dia que serei mais feliz.

Te espero.


13.5.07

Sunday Classics


"Hitchcock é um homem de voz azul-marinho."
|Barbara Harris, atriz de Trama Macabra, último filme de Hitch.|

11.5.07

Aniversários


E hoje é aniversário da mulher, do mito, Dita Von Claire, a dona de uma franja irregular mais cobiçada de Porto Alegre, a musa dos vereadores gaúchos e mais nova mom-to-be da blogosfera. Quase impossível acreditar que esta mulher está fazendo 40 anos.

Brincadeiras à parte, Ditinha, parabéns e saúde pra você, marido e rebento!

*Titio promete que vai procurar uma camiseta extra-p com estampa de David Bowie para o/a/herdeiro(a) da coroa.




E aniversariou ontem uma das maiores amigas que eu tenho. My everlasting, "always something nice to say, Oh what a blessing". Feliz cumpleaños, Jessy darling! Love you with all my heart.

Compilation



Quando me mudei para Londres, deixei sob responsabilidade de um grande amigo em Florianópolis a minha coleção de cds. Algumas centenas de álbuns e singles que eu vinha colecionando com fanatismo e dedicação. O mesmo amigo, quando veio a Porto Alegre, fez a caridade de trazê-los todos no mês passado. Mas eu só tive oportunidade de abrir aquelas caixas esta semana, num dia muito frio. E pra mim, remexer em cds é o mesmo que folhear um álbum de fotos, cada um tem a sua carga emotiva. E de ácaros. Muitos espirros depois, eu selecionei 16 disquinhos e tirei de cada um deles uma música que marcou uma fase importante da minha vida, uma frase, uma verdade, uma mentira piedosa, uma alegria descompromissada. É um balaio mesmo, da coolzice à breguice.

Para saber o nome de cada cd na capa, passe o mouse por cima das miniaturas abaixo:


1. Baxter - Fading (5:51)
2. Madonna - Nothing Really Matters [Kruder & Dorfmeister Remix] (11:08)
3. Marina Lima - Deixa Estar [Nude Trip Short Mix] (3:46)
4. The Beloved - Deliver Me (3:54)
5. Tori Amos - Cruel [Shady Feline Mix] (3:51)
6. Fiona Apple - Limp (3:30)
7. Blossom Dearie - London in the Rain (hotel costes rmx) (3:34)
8. Erykah Badu - Stay (4:58)
9. Lunik - New Day (4:53)
10. Pet Shop Boys - View from Your Balcony (3:45)
11. Shara Nelson - Thoughts of You (4:16)
12. K.D. Lang - If I Were You (3:58)
13. The Carpenters - I Need to Be in Love (3:49)
14. The Brand New Heavies - You've Got a Friend (3:26)
15. Supreme Beings of Leisure - Strangelove Addiction (5:03)
16. Ace of Base - Lucky Love [Acoustic Version] (2:51)


Baixe aqui. (Clique aonde diz "normal download")

10.5.07

Spider-Man 3



Eu sempre esperei dos filmes de super-heróis que me despertassem um mínimo de paixão. Talvez para tentar repetir a sensação da infância ao comprar as revistinhas Marvel, aquela excitação juvenil que a mitologia dos HQs sempre inspira. Eu sempre assisto as adaptações para o cinema e muitas delas me agradam. A trilogia X-Men, por exemplo, tornou-se melhor a cada capítulo, mais bem-acabada e complexa. O mesmo não acontece com O Homem Aranha 3, de Sam Raimi. Me pareceu um filme sem alma. É apelativo demais, artifical e, às vezes, irritante.

A promessa era de que neste terceiro filme acompanharíamos o surgimento de um lado negro nunca antes visto em Peter Parker. Isso exigiria, no entanto, um ator que soubesse expressar alguma cara que não a de pateta, o que dificulta o lado de Tobey Maguire, e um diretor/roteirista mais habilidoso que Sam Raimi. Resulta então num confuso jogo de clichês morais que termina invariavelmente com um tapinha nas costas encorajador. Ah, sim, e muito chororó fake.

A Sony Pictures promete que a série chega ao capítulo 5. Claro, Spider-man é lucro certo, por que não capitalizar? E, de mais a mais, as crianças e adolescentes adoram. Quem sou eu para criticar...

Oremos

Aproveitando a visita de Bento 16 ao país, o Senado queria fazer do dia 11 de maio feriado nacional. A Câmara, muito preocupada com os cofres públicos e o funcionamento da nação rejeitou a proposta, mas ocupou-se em reajustar os salários do executivo em 28,5%, acarretando um gasto de 610 BILHÕES de Reais dos bolsos de quem? De quem? O momento não poderia ser mais estratégico. A mídia está toda ocupada em cobrir a visita do Santíssimo.

A comoção pela chegada do ex-pastor alemão ao nosso país só serve para lembrarmos que somos uma nação de ignorantes retrógrados. Estão todos de orelhas em pé enquanto o burro fala. Besteira. Chegou aqui para condenar o aborto e pregar os ditos valores da família cristã. E veio com tanta força porque, ao que tudo indica, a igreja católica está perdendo terreno por estas bandas. Também pudera, Seu Bento, do jeito em que a pobreza cresce no Brasil, tem cada vez mais gente perdendo a crença no seu Deus. Eles vão lá na sua igreja rezar e pedem saúde, emprego, amor. Lá mesmo eles aprendem que usar camisinha é feio e aborto, nem pensar. Claro, eles esquecem que na sua casa divina também se prega que sexo só pode ser feito depois de casar e exclusivamente para a procriação. Então são católicos quando lhes convém.

Deve ser por isso que precisamos de mais um santo. É demanda demais.

9.5.07

Rapidinhas sem tirar

Annie Lennox está gravando o novo álbum, recheado de participações especiais. Mary J. Blige, Kelis, Pink e...Madonna! O lançamento está previsto para o segundo semestre.

Para quem não lembra de Annie, ela era vocalista do grupo Eurythmics e depois teve uma carreira solo de três lindos álbuns: Diva, Medusa e Bare. Ela tem um registro vocal inimitável e é uma das minhas cantoras favoritas.

Assista Pavement Cracks ao vivo e Waiting in Vain (cover de Bob Marley) no tubo. Aliás, assista a tudo que conseguir.


+O canal TCM americano transmitiu na semana passada um documentário de 2 horas sobre Marlon Brando. É uma coisa de louco para quem gosta de cinema. Há entrevistas antigas recuperadas, depoimentos de atores que contracenaram com Brando e cenas nunca vistas. Tem para baixar na rede, mas parece que o canal TNT (da mesma rede do TCM) deve passar no Brasil.

+A nova colaboração de Diane Keaton e Michael Lehmann, o diretor de Alguém Tem que Ceder, chama-se Minha Mãe Quer que Eu Case. E é fraco de doer. Francamente, o anterior já era bem sem graça.

+Hoje tem LOST. Eu disse que não ia mais ver, mas a coisa está pegando fogo na ilha, entonces, eu não vou morrer de curiosidade só por teimosia.

+A Mme faz o melhor chocolate quente do MUNDO.

8.5.07

Bad, bad system



Eu fui usuário de Windows 98 em outra vida e pra mim o maior avanço do Windows XP foi a possibilidade de recuperação do sistema. Se acontece algum imprevisto que danifique suas configurações, basta você restaurar o sistema para uma data anterior e tudo volta a funcionar zero bala. Claro que não resolve 100% dos problemas, mas é um conforto fenomenal se comparado à versão anterior em que para quase tudo se precisava formatar a máquina. Acho que este seria um recurso de grande valia para o ser humano também.

Digamos que você comprou uma máquina de lavar numa loja e dias depois descobre que na concorrente estava quase a metade do preço. Você restaura o sistema para o dia da compra e opta pela mais barata. Ou quem sabe você tenha causado um dano irreparável na vida de um cidadão por pura estupidez. É só escolher o ponto de reparo, clicar ok e pronto. Que maravilha.

Mas os sistemas operacionais têm ainda, por mais modernos que sejam, uma deficiência seríssima: não aprendem com os erros. Não importa quantas vezes você consertar o seu sistema, ao instalar tal e tal programas, ele insistirá na mensagem de erro. "O disco está corrompido". E não há santo que descorrompa. As pessoas não. Elas, muito embora nem sempre utilizem este menu, podem aprender com o que de errado fazem, porque sabem que não há como recuperar o sistema de uma vida. O problema é que nós nem sempre nos damos conta de que a falha é do nosso próprio funcionamento. E para alguns de nós a única solução seria formatar o HD.

Façamos então o back-up nosso de cada dia.

I just don't know what to do with myself



Vídeo do White Stripes, música original de Burt Bacharach, dirigido por Sofia Coppola e estrelado por Kate Moss. Precisa mais?

E olha que a original já era boa.

7.5.07

Supondo o Errado



"Suponhamos que eu seja uma criatura forte, o que não é verdade. Suponhamos que ao tomar uma resolução eu a mantenha, o que não é verdade. Suponhamos que eu escreva um dia alguma coisa que desnude um pouco a alma humana, o que não é verdade. Suponhamos que eu tenha sempre o rosto sério que vislumbro de repente no espelho ao lavar as mãos, o que não é verdade. Suponhamos que as pessoas que eu amo sejam felizes, o que não é verdade. Suponhamos que eu tenha menos defeitos graves do que tenho, o que não é verdade. Suponhamos que baste uma flor bonita para me deixar iluminada, o que não é verdade. Suponhamos que eu finalmente esteja sorrindo logo hoje que não dia de sorrir, o que não é verdade. Suponhamos que entre meus defeitos haja muitas qualidades, o que não é verdade. Suponhamos que eu nunca minta, o que não é verdade. Suponhamos que um dia eu possa ser outra pessoa e mude de modo de ser, o que não é verdade."

Supondo o Certo



"Suponhamos que o telefone ande em toda cidade enguiçado, o que é verdade. Suponhamos que eu faça uma ligação, e dê sinal de ocupado, o que é verdade. Suponhamos que de repente o sinal de ocupado está soando em chamada, o que é verdade. Suponhamos que não atendam, o que é verdade. Suponhamos que em vez de atendido o número discado, ouço uma linha cruzada, o que é verdade. Suponhamos que por curiosidade simples passo a ouvir a conversa entre um homem e uma mulher, o que é verdade. Suponhamos que, no final da conversa, eu ouça uma frase límpida, o que é verdade. Suponhamos que a frase límpida seja "Deus te abençoe", o que é verdade. Suponhamos que eu me sinta então abençoada, pois a frase foi também para mim, o que é verdade? Sim. A frase era para mim. Não suponho mais. Digo apenas "sim" ao mundo."

Sim. SIIIIM!

Boa semana!

6.5.07

Sunday Classics


"There comes a point where it is just undignified to be a rock 'n' roll star."
Tina Turner, 1971 | Foto: Richard Avedon

5.5.07

Creature Comforts

Creature Comforts é uma série de animação inglesa dos estúdios Aardman, especializados em Stop Motion, aquela técnica que a gente chama de massinha. Eles são os responsáveis por Wallace and Gromit e Shaun, the Sheep. O que diferencia Creature Comforts dos outros é que a voz que você ouve nos bichinhos pertence a pessoas de verdade, entrevistados que contam um pouco da sua vida, sem script. Depois de milhares de entrevistas, eles editam o conteúdo por assunto e criam as animações baseando-se na personalidade de cada entrevistado. Atentem para a foca com sotaque de negra americana.


4.5.07

Buemba!

Anthony Minghella é um diretor com várias missões. A primeira delas - esta fielmente seguida - é deixar o mundo mais chato. O outra é sedimentar a imagem de Juliette Binoche como a de tô-judiada-mas-tem-quem-coma. E finalmente, ele conseguiu fazer um dos roteiros mais sem propósito da história do cinema. Tipo: "Oh, sua vidraça quebrou! Deve ser porque você está sentindo a sua vida metaforicamente invadida. Então, corra! Vá comer a Binoche, coitada, desde o Paciente Inglês que ela não vê um homem em sua cama. Redima-se com o todo poderoso!" Ela bem que merece, tadinha. Desde Mia Farrow não se via uma atriz que sofresse tanto nas telas.

A única coisa agradável nesta bomba é Vera Farmiga, impagável como a prostituta polonesa dizendo, em sotaque carregado nos erres, "I don't want to wear panties that cut my pussy in half!". Mas é só.

Fuja!

I do!




Se tem duas festas que são bregas por excelência, elas são formatura e casamento. Claro, para aqueles que se formam ou se casam é sempre (ou quase) tudo muito lindo e emocionante. Em formaturas, não é raro os formandos entrarem ao som de algo como Vangelis ou Enya, por exemplo. Dá aquele tom de grandiosidade, de filme da idade média, sabe? É cafona demais. De uns anos pra cá, as noivas também têm procurado inovar na sua entrada triunfal na igreja. Em O Casamento de Muriel, a personagem de Toni Collette percorre o altar ao som de I Do, I Do, I Do, do Abba, sua banda favorita. Esta coleção tem umas outras sugestões. Um coral meio louco cantando Killing me Softly, Bowie cantando em francês (um abuso), e La Vie en Rose, em Hindu. Não esquecemos nem da comunidade judaica, com Hava Naguila, para celebrar com os noivos erguidos nas suas cadeirinhas. Maseltov!

1. Mary Beth Maziarz - We've Only Just Begun (3:04)
2. Killing Me Softly (Choir) (3:55)
3. Tom Jones & Dione Warwick - Endless Love (2:39)
4. Barenaked Ladies - Close To You (4:27)
5. Sade - No ordinary love (7:19)
6. Barry White - Just The Way You Are (4:48)
7. Abba - I do I do I do I do I do (3:18)
8. Duran Duran - Ordinary world (5:36)
9. David Bowie - Heros (French-English) (6:03)
10. Françoise Hardy - Amour, Toujours, Tendresse, Caresses (2:59)
11. Manic Street Preachers - Can't Take My Eyes Off You (3:11)
12. Pascal Of Bollywood - La Vie En Rose (hindi-french) (3:09)
13. Sixpence None The Richer - Dancing Queen (4:00)
14. Dalida - Hava Naguila (2:18)

Aqui

*Aproveitem para dar uma olhadinha nesta matéria.

3.5.07

A Vida dos Outros

A Vida dos OutrosOs alemães são mundialmente conhecidos por sua eficácia e frieza. Para as coisas que requerem exatidão, cálculos ou sangue frio ninguém os bate. Daí pode-se imaginar o quanto eles devem ter sido bons em torturar, coagir e controlar os cidadãos da República Democrática Alemã, durante os anos de chumbo da Alemanha Oriental. Aqui no Brasil, a ditadura era burra, manipulada e passional. Lá era precisa e contundente. Para tudo havia um sistema passo-passo, minimamente organizado. É de pessoas assim que A Vida dos Outros trata. O pulo do gato, no entanto, está no quanto de sensibilidade se esconde num espião da Stasi acima de qualquer suspeita.

Este é dos melhores roteiros que eu vi este ano, um filme de uma dimensão humana comovente. Não é de se espantar que tenha levado o Oscar de melhor filme estrangeiro. A Academia tende a premiar nesta categoria filmes que sejam socialmente relevantes. Pena que não o fazem também nas outras.

2.5.07

Discutindo a Relação com o Robertão

-Por que me arrasto aos teus pés? Por que me dou tanto assim? E por que não peço em troca nada de volta pra mim?
-Você comigo não combina, não adianta nem tentar. Não vejo mais razão nenhuma pra continuar.
-Mas acontece que eu não sei viver sem você.
-Você é mais que um problema, é uma loucura qualquer.
-Porque é que eu fico calado, enquanto você me diz palavras que me machucam, por coisas que eu nunca fiz?
-Olha, você tem a vida inteira pra viver e saber o que é bom e o que é ruim.
-Você não sabe quanta coisa eu faria além do que já fiz...
-Uma palavra de carinho jamais ouvi você falar. Seu beijo tão indiferente foi o que me fez pensar.
-Mas sua estupidez não lhe deixa ver que eu te amo!
-Acho bom saber que pra ficar comigo vai ter que mudar.
-Não suporto mais você longe de mim, quero até morrer do que viver assim!
-Você tem que aprender a ser gente.
-Você não sabe que os anseios do seu coração são muito mais pra mim do que as razões que eu tenha pra dizer que não. E eu sempre digo sim. Eu te darei o céu, meu bem, e o meu amor também!

(ela pensa, pensa, deixa correr uma lágrima e sorri)

-Pensando bem, amanhã eu nem vou trabalhar e além do mais, temos tantas razões pra ficar.
-Só você amada amante faz o mundo de nós dois!

E então exploraram o côncavo e o convexo e conversaram sobre os detalhes (nem) tão pequenos deles dois. No dia seguinte, pediram um café da manhã, ouviram as canções que ele fez pra ela e mandaram tudo mais para o inferno.

Cousas


Mas sabe o que eu acho, Sir. Shakespeare? Que a imaginação é uma bosta quando a gente a utiliza para projetar o próprio desejo no outro. E pior ainda quando o fazem com você. Não há ser neste mundo que seja capaz de preencher por inteiro a fantasia alheia. Somos todos um bando de defeituosos neste quesito.

*Tirei esta foto no banheiro do Azul Cobalto, cujas paredes são cheias de poesia.

**

Sabe qual é uma das coisas mais lindas do mundo? Joss Stone cantando Son of a Preacherman. De morrer. Isso sim faz o dia da gente.

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Novos templates cafeína: Um Blues, daquele moço azul que não me deixa em paz e Prensada, da moça que vive prensada em São Paulo. Satisfaçã garantida.

1.5.07

Being There


Cate Blanchett fazendo o papel do jovem Bob Dylan
em I'm Not There, de Todd Haynes


Isso mesmo. O diretor Todd Haynes filmou a vida de Bob Dylan. A diferença das cinebiografias tradicionais está no fato de o personagem principal ser interpretado por seis atores diferentes. Além da senhorita Blanchett ainda temos Heath Ledger, Richard Gere, Christian Bale, Marcus Carl Franklin e Ben Whishaw. Há uma séria aura de mistério envolvendo a produção mas, até onde se sabe, o roteiro foi escrito tendo como base as letras do compositor. Parece que haverá uma avant première no festival de Cannes, que começa dia 16 de maio, mas o lançamento oficial mesmo só em setembro. Eu acho Bob Dylan um tremendo de um chato, mas este filme eu quero ver.