14.5.07

Everybody goes to Hollywood

Sábado à tarde, puxei o tiozinho pela orelha para assistirmos a Hollywoodland na Casa de Cultura Mário Quintana. Digo que o puxei pela orelha porque é assim que eu faço com os amigos que estão jururus da vida. Mas não é disso que eu quero falar. Nem do Rodrigo, nem do filme. O que se destacou na ocasião foi um curta-metragem local que nos obrigaram a assistir antes do blockbuster. O com os curtas você sabe como é, não? A gente fica com cara de desentendimento, sem saber quanto tempo aquele nonsense vai durar. Eu geralmente gosto de nonsense desafiador, acho que o curta é uma forma saudável do diretor ou aspirante a diretor exercitar seu ofício. Se a idéia for relevante, é claro.

São dois homens de branco, num cela branca, com porta de ferro branca. Falam numa linguagem absolutamente desinteressante, o que me permitiu observar que a moça do figurino esqueceu de dar uma segunda demão de tinta branca na botina de um deles. E, imagine você, há flashbacks. Que coisa dolorosa um flashback fora do lugar, meu Deus. Foram 15 minutos de um nada incômodo. Quantas incongruências pode um roteiro desta metragem conter, ó céus? Mas, pronto. Está feito. Continuem produzindo, guris. É praticando que se acerta. Eles sabem movimentar a câmera, eles sabem ambientar, só lhes falta um bom roteiro e melhores atores. Ou, quem sabe, os atores são bons e foi o diretor que não acertou a mão? Não sei.

Eu sei que a gente tenta apoiar o cinema local, o nacional, a gente faz força para tanto. Se você perceber, os críticos brasileiros são bonzinhos com a nossa produção e irrascíveis com hollywood. Eles têm medo de falar mal e desencorajar os espectadores. Aí dizem que o filme custou tanto, é do diretor tal, ganhou prêmio em festival, foi exibido na mostra aquela. Dizem que atriz fulana está muito bem no papel de mulher judiada pela vida no nordeste longínquo, dissertam a respeito da trilha sonora do fulaninho premiado com um Grammy latino, dizem que a fotografia do sicrano tem um toque de Affonso Beato ou que a desinteria narrativa lembra um jovem Glauber Rocha. Imagina que um jornalista teria cojones para maldizer uma película dirigida por um global.

Esta condescendência atrapalha muito. Parece que todos os filmes nacionais da "retomada" são bons na mesma medida. O que não só é mentira como também dilui o impacto naqueles grandes filmes que fizemos na última década. Eu recomendo, por exemplo, que você asssita Terra Estrangeira, de Daniela Thomas e Walter Salles Jr., recentemente relançado em DVD duplo, é um grande cinema a respeito do qual pouco se fala. Domésticas - O Filme, de Fernando Meirelles e Nando Olival talvez seja um dos mais bonitos e bem acabados exemplos de que a gente pode, sim, fazer comédia dramática com categoria. Zuzu Angel, O Céu de Suely, Cinema, Aspirinas e Urubus estão aí para provar que a gente pode mais ainda.

Só não espere que eu fale bem de filme ruim. Você já viu A Cartomante? Não veja. Assassinaram Machado de Assis, coitado. Mas não vou enumerar os outros tantos que disperdiçam dinheiro num país em que se precisa de guerrilha para que um filme veja a luz do dia. Não vou falar que nós temos diretores ruins em sua maioria, que a cada ano talvez surja um roteiro que preste, que a infelicidade nordestina cansa, a ojeriza que me deu vendo Lázaro Ramos, outrora tão bem em Madame Satã, caricaturando o sotaque gaúcho nem daquelas dolorosas comédias de erros da Globo Filmes. Mas uma coisa eu garanto, A Cartomante é o mais sério concorrente a pior filme nacional do século.

Voltando ao curta-metragem de sábado, ele tem um mérito indiscutível. Fez Hollywoodland parecer um filmão.

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