31.5.07

Os Cubos de Mondrian


Por muito tempo um dos grandes medos que me assombravam foi o de ser mal interpretado. Porque é humano esperar algo do outro. A pessoa abre a boca e antes que as palavras saiam, o interlocutor já tem um formulário com o esqueleto do que ele espera ouvir e as possíveis variantes preenchem as lacunas. Mas nem sempre percebemos que este formulário com nosso nome na primeira linha é um retrato mais ou menos fiel da forma com que o outro nos enxerga. Aprendi, talvez um pouco tarde, que se da outra extremidade da falha de comunicação há um estranho, não deve haver razão para mágoas ou auto-flagelo. Um estranho não tem obrigação de esperar o melhor de mim, muito provavelmente não vai e quem há de culpá-lo?

Nunca me fugiu a certeza de que tenho um discurso de cor vermelho-serrote, de fato uma agravância para o ruído de comunicação com as pessoas de tons pastéis. E eu digo coisas que no momento da fala me parecem claras porque eu penso e sinto intensamente a respeito delas. Mas eu nunca desconsiderei a fugacidade da vida na hora de benvir a possibilidade de amanhã mudar de idéia. E se um amigo aproxima-se suspeitoso da minha certeza, sabe como eu sou, tira uma onda ou simplesmente, vestido da mais branca honestidade, me confronta. "Me explica isso, rapaz!" Explico de boa vontade sim. Pode ser que voltemos, cada qual para o seu canto, mais esclarecidos, menos ofendidos e mais amigos.

E se um de nós se recolhe calado? E se os dois se fecharem? Tranca-se a porta e engole-se a chave. Para isso não me parece haver bula. Nem o tempo, coitado, a quem nós delegamos exaustiva responsabilidade de cura, consegue sempre redimir um desentendimento bélico. A verdade é que não há teoria, acho que precisamos deixar a força do inevitável dar ordem às coisas. Desvendar o que em mim fez mal-dizer e ao outro mal-entender. Mas há cadáveres que, depois de bem velados, precisam deitar no abraço da cova mais funda para que possamos seguir vivendo e nos desentendendo com um pouco mais de compreensão.

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