14.5.07

A quem interessar possa


Meu amor,

Já que ainda não nos conhecemos, acho bom você saber algumas coisas a meu respeito. Talvez ajude. Mas tenha em mente que ninguém é imutável, que a natureza das pessoas é rochedo ao mar, pode aos poucos mudar de formato, amolar as pontas, sofrer arestas. Mas prepare-se, eu não sou flor que se cheire.

Entre nós ainda existe um abismo gigantesco, proporcional à minha vontade de me relacionar agora. I'm traveling light, como diria Billie Holiday. Por onde eu vou levo muito pouco e trago tanto quanto for necessário para a sobrevivência. Ando com o coração de cigano, sem casa. É que passei anos curando uma ferida que me causava dor atroz, daquelas injustas de a gente compartilhar. Então guardei pra mim, lambi, tirei a casca, abriu-se centenas de vezes me deixando sempre desconfiado se não tornaria a romper em uma semana, um mês. Por isso não permiti que ninguém mais a visse. Agora, porque Deus é pai, sobrou apenas uma cicatriz esbranquiçada. Cicatrizes são do tamanho da nossa necessidade de lembrar a razão do ferimento, não te parece? É importante a gente lembrar de onde vem, como chegou até aqui, que batalhas travou.

Eu não lembro mais como é a gente se embalar na rede do amor à sombra e água fresca do apaixonamento. Esqueci por falta de prática. Mas penso que deve ser como andar de bicicleta. Só não me peça que pedale com a destreza antes, não de uma hora para outra. Posso te prometer, com certeza, não atropelar ninguém. Nisso eu me garanto. E te prometo também abraços para o teu cansaço e mordidas no pescoço quando não esperas. Prometo que uma das próximas luas cheias será só nossa e que ela vai ter uma canção especial e dançando seremos dois satélites circundando este planeta absurdo. Fará frio? Espero que sim, mesmo não importando.

Vamos ao cinema? Vamos querer ver o mesmo filme e discutí-lo tomando café forte e comendo alguma torta qualquer que tenha nozes? Você gosta daquela de damasco coberta com chocolate branco? Você vai limpar o açúcar da minha camisa, eu sei. E eu vou passar o dedo de leve no seu rosto pensando alguma coisa que não vou dizer. Vamos para casa que está frio e precisamos tirar esta roupa toda. Tem um edredon novo aqui na minha cama, king size. Daqueles que fazem a gente parecer pequenos, quase duas crianças brincando embaixo dele. Vamos voltar a ser criança e fazer bobagens embaixo do edredon? Melhor ainda, vamos virar adultos sacanas e fazer uma bobagem ainda maior?

O que você viu em mim? "Ah", você diria, "eu vi alguma coisa nos teus olhos que decidi querer naquele exato momento em que você os pousou em mim". "E você?" Aí eu explicaria em minúcias como me apaixonei pelas dobrinhas da tua mão, pela maciez do teu ombro, por aquela curvinha imediatamente abaixo da axila, o jeito que você me sorri e de como você sempre soube quem eu era, mesmo antes de me conhecer e ainda assim me faz sentir uma novidade todos os dias. Acho que somos isto: uma notícia boa que o outro quase não espera mais. E você há de ser a manchete principal do dia que serei mais feliz.

Te espero.


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