26.6.07

Batatas [ou A Volta de Dona Edília]

Fiz compras no supermercado. Aquelas compras bestas de todo dia: pão, carne, pêras, iogurte e refrigerante. Era pouca coisa e sabe como é segunda-feira, todo mundo resolve que vai repor o estoque perdido no fim de semana e lotam o mercado no início da noite. Fui para a fila de compras de até 10 itens. Na minha frente, de costas, uma senhora de couro cabeludo aparente e raízes cor de mármore. Muitos casaquinhos de tricô sobrepostos à cacharrel (sim, cacharrel!) de lycra azul-marinho já cheia de bolinhas. Pernas grossas, cobertas por uma meia de lã espessa e mil pulseiras algo douradas nos braços, desviando a atenção das unhas compridas e descascadas vermelho sangue. Era tanta distração visual que eu demorei pra perceber que a velha estava com um carrinho lotado. Ela vira para trás, talvez percebendo meu olhar pesado.

-Essas moça do caixa são tudo umas lesma, né guri?

Demorei pra responder, em estado de choque. Era Dona Edília. Lembra? A mulher ali na minha frente, pele escura, meio "bugra" como dizia minha mãe, rugas magnificadas pelos óculos de armação enorme, daqueles usados nos cartazes das lentes Varilux nos anos 80, pesados, largos. Batom rosa-choque meio borrado e uma aveludada e quase cerimoniosa verruga na bochecha direita que ela fazia questão de mostrar com o rosto sempre em posição militar de sentido. Tomei fôlego, dei um meio-sorriso e respondi que sim com a cabeça.

-Eu vim aqui só pra comprar batata pra fazer uma sopa. Tá apetecendo com esse friozinho, né? Daí me empolguei e acabei fazendo rancho*.

Olhei para o carrinho abarrotado e depois para a placa pendurada acima do número do caixa. Digo ou não digo? Estava quase na vez dela, por isso resolvi avisar.

-Mas, senhora, esta fila é para compras de até 10 itens...
-Maaaaas, guri do céu!!! Eu achei que era o caixa de velho e grávida!

Eu fiquei mais constrangido que ela, juro. Olhou umas 10 vezes para a moça do caixa e para o carrinho. Levou a mão ao queixo e sussurrou:

-Mas ai dessa nigrinha que me mande pra outra fila!

E foi colocando as compras na esteira como aqueles americanos desesperados em véspera de furacão ou ataque nuclear. Aumentou o tom da voz como se estivesse falando com alguém:

-A gente velho não consegue ler letra pequena, vim só pra comprar a batata da sopa, tô com a água no fogão, Deus me defenda se eu demorar muito, né mimosa? [olhando pra menina]

A coitada deu sorriso amarelo:

-Boa noite, senhora. Fez boas compras?
-Ah, mais ou menos...

[*rancho é como os gaúchos chamam as compras em grande quantidade, geralmente aquelas da semana ou do mês.]

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