25.6.07

Corvos

"Cría cuervos y te picarán los ojos."

As vezes, nós espectadores leigos temos certa dificuldade em entender porque determinados filmes são marcos do cinema de algum país ou época. Quem assistir a Cría Cuervos [1976] hoje em dia, por exemplo, encontrará um bom filme a respeito de medo, submissão e as estratégias psicológicas desenvolvidas por aqueles que perdem, de alguma maneira, a figura materna.

Mas não só de conflitos psicológicos fala este clássico de Carlos Saura. Ele é, acima de tudo, uma alegoria para a Espanha recém liberta do regime ditatorial franquista. Suas filmagens coincidiram com a morte de Francisco Franco e a recepção pela crítica mundial abraçou a película como um libelo da nova geração espanhola em busca do futuro e temerosa por não saber como encará-lo.

A pequena protagonista Ana Torrent faz o papel de Ana, cuja infância é habitada por fantasmas e temores. Sua mãe, interpretada por Geraldine Chaplin, morreu de uma doença misteriosa e visita o imaginário da filha com frequência, bem como o pai militar [Hector Alterio]. A única válvula de escape da realidade cruel da menina é sentar-se junto à vitrola e ouvir a música Porque Te Vás, presente como trilha de algumas das cenas mais emocionantes do filme.

Engraçado, se você lembrar dos filmes que retratam crianças de vida difícil como Minha Vida de Cachorro, O Labirinto do Fauno, Filhos da Guerra, Bem-vinda à Casa de Bonecas, Minha Vida em Cor-de-rosa e tantos outros, percebe-se que a fantasia é o que torna a vida dos protagonistas menos insuportável. O que me lembrou Clarice Lispector quando entrevista da pela tv Cultura: "O adulto é triste e solitário. A criança não, a criança tem a fantasia."

Sugestão: assista a Carne Trêmula, de Almodóvar e preste atenção na cena inicial.

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