19.6.07

Escaninhos


|Christian Bale em O Operário [2004] |

Quando via o mundo com olhos de criança eu tinha certas impressões a respeito da aparência das pessoas. Uma pessoa muito magra, esquelética, por exemplo, me dava a impressão de ser infeliz e nervosa. Eu olhava aqueles ossos saltados em volta do pescoço e sentia emanar uma neurose profunda, achava que as pessoas exageradamente magras fossem assassinos e sequestradores em potencial, perigosas até de olhar. Talvez tenha colaborado para esta conclusão uma professora estagiária que eu tive na segunda série primária. Sempre que havia muita bagunça em aula, ela tremia as mãos (iguais a galhos de uma árvore seca), gritava com as pálpebras tremulando e, ao sair da sala, caía em prantos. Professoras estagiárias são seres nervosos mesmo, depois eu descobri.

Já as pessoas brutalmente gordas (não apenas rechonchudas, arredondadas ou oblogas) me pareciam personagens indecifráveis de algum filme europeu da madrugada. Havia nelas um rancor com a vida, eu achava, uma dor crônica de existir. Mesmo que, na época, as pessoas mais gordas que eu conhecera fossem também as mais engraçadas e atenciosas, só que por detrás da atenção e carinho eu pressentia uma pontada de algo negro. Eu tive uma professora de matemática de uns 120 quilos que quebrou uma régua de madeira na cabeça de um colega de aula. Ele gritou "gorda infeliz!" e foi expulso na hora. Será que ele estava certo? pensei eu, ainda recolhendo dados para a minha pesquisa antropológica pessoal.

Claro, você precisa entender que a mente de uma criança simplifica os fatos para facilitar o entendimento da vida. Eu classifiquei o mundo dos loucos e perigosos em muito magros e muito gordos, de forma a minimizar a minha completa ignorância com as relações sociais. Afinal de contas, os ladrões, marginais e sequestradores de tele-jornal eram sempre muito magros e quando a pessoa era excessivamente gorda, diziam que ela tinha obesidade "mórbida" e morbidez para mim aos 9 anos de idade era sinônimo de algo que só os vilões de filmes de terror tinham.

Tendo esse montante de "dados", cheguei à conclusão de que, para uma pessoa ser legal e equilibrada, deveria ser esbelta, forte ou apenas não aparentar estar acima ou abaixo do peso. Fiquei feliz com a minha descoberta. Até que chegou a adolescência e eu conheci homens e mulheres cheios de beleza e esbeltez, mas que se provaram tão neuróticos, marginais e perigosos quanto os muito magros e muito gordos. Daí comecei a construir uma teoria um pouco mais ambiciosa: a loucura das pessoas estaria intimamente ligada à dissonância entre o corpo externo e o ser que o habita. Cansei de contar as vezes em que reconheci um ser esbelto e ágil aprisionado pela opulência de uma vestimenta obesa ou um comilão engraçado restrito à pele e osso e isso aparentava causar um desequilíbrio molecular que levaria a pessoa à loucura, parcial ou completa.

Mais tarde um pouco, adicionei à lista os muito musculosos, as muito plastificadas, os demasiadamente qualquer coisa que fosse. Porque, claro, não é o peso e a aparência de cada um que define ou justifica quem se é por dentro, é o ser interior que comanda este jogo de esconde-esconde emocional. A nossa tendência, no entanto, é pensar "olha que pessoa bonita e atlética, deve ser um sucesso na vida, porque tem sucesso no modo de se apresentar ao mundo" ou então "veja aquela gorda, coitada, deve ser infeliz, fracassada e incapaz, nem do corpo ela consegue dar conta".

Estava mais do que na hora de eu pegar esta pesquisa infantil inútil e jogar na fogueira. Acho que classificar as pessoas em isso ou aquilo é a forma mais sem propósito e contraproducente de se viver.

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