4.6.07

Uma mentira

Ele conheceu o significado da palavra "paralítico" aos 6 anos de idade, quando recebeu o diagnóstico definitivo do amigo com quem soltava pipas no campinho de futebol.

-Mãe, eu vou ficar paralítico pro resto da vida!
-Que é isso, guri?
-Eu tava soltando pipa e pisei numa cobra colorida. O Sandro disse que ela deixa a gente paralítico. Ele viu na televisão.
-Que besteira, rapaz, seja homem! Desde quando pisar numa cobra vai te deixar paralítico?
-Mãe, me leva no médico, meu pé tá doendo!
-É frescura. Deita um pouco que passa.

Deitou-se no quarto com cheiro de praia e inseticida e rezou para que alguém mais chegasse, alguém que entendesse a paralisia, que a fizesse ir embora, que não o dispensasse na primeira tentativa. Mas não o pai. Doeria ainda mais ter que estabelecer comunicação com aquele estrangeiro. O medo de que ele o ridicularizasse por mais esta súplica de aproximação era maior do que a paralisia, era ela própria. Fitou o pé levemente inchado e imaginou veias avermelhadas escalando a perna queimada do sol, viu-a esbranquiçar-se e temeu nunca mais poder andar. E agora? Como ficam os planos de fugir de casa sem aviso assim que se tornasse adulto? A urgência de escapar antes que lhe esvaziassem completamente de vida e de si próprio?

Foi então que chegou a vizinha para tomar café.

-Oi querido. Por que tu não estás lá fora brincando com os guris?
-Eu pisei numa cobra e meu pé tá doendo, tia. O Sandro falou que eu vou ficar paralítico.
-Como era a cobra?
-Era pequeninha, colorida.
-Ela te mordeu?
-Não, eu que pisei nela.
-Deixa a tia ver esse pé.

Examinou com carinho, perguntou onde doía e esboçou um sorriso afetuoso.

-Tu sabias que outro dia, voltando da praia, eu também pisei numa dessas?
-É?
-É. Não tem perigo, querido, a dor vai passar. É uma cobrinha besta. Garanto que ela está sentindo mais dor do que tu. Imagina um adulto bem grande pisando em ti. Dói, não é?
-Dói.
-Então eu vou dar um beijo nesse pé gordo e amanhã tu não vais sentir mais nada.

Pela primeira vez, encheu-se de alguma coisa misteriosamente acolhedora. O que ele era havia se multiplicado em algo maior do que jamais sonhara ser. Por alguns minutos. Decidiu que dalí por diante não andaria mais descalço.

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