1.8.07

Ah, agosto!

"Para atravessar agosto é preciso antes de mais nada paciência e fé. Paciência para cruzar os dias sem se deixar esmagar por eles, mesmo que nada aconteça de mau; fé para estar seguro, o tempo todo, que chegará setembro - e também certa não-fé, para não ligar a mínima às negras lendas deste mês de cachorro louco. É preciso quem sabe ficar-se distraído, inconsciente de que é agosto, e só lembrar disso no momento de, por exemplo, assinar um cheque e precisar da data. Então dizer mentalmente ah!, escrever tanto de tanto de mil novecentos e tanto e ir em frente. Este é um ponto importante: ir, sobretudo, em frente."
Caio Fernando Abreu
[A crônica do Caio, inteirinha, aqui. Como sempre.]

Com sua licença, Caio, digo mais: para atravessar agosto, a gente precisa segurar com força no cabo da sombrinha, como o faz a malabarista na corda bamba, sabendo que pode cair. Até porque no fundo tem-se o vulgar pressentimento que, em agosto especialmente, não há rede de segurança para as emergências. E precisamos compreender que agosto nada mais é do que uma alegoria popular do que há de mais lynchiano na humanidade. E corre-se o perigo de transbordarem lixos tóxicos esquecidos no secreto poço do medo de não ser ou, pior, de não se saber o que é. O que se pode fazer nesses 31 dias de absoluto mistério é buscar o pouco de beleza que dolorosamente desabrocha a cada dia. No fim do caminho chiaroscuro, é inevitável, você há de encontrar um setembro luminoso.

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