20.8.07

Diminutivo

Dona Tânia criou-se, como se diz no Rio Grande do Sul, 'pra fora', na fronteira do estado com o Uruguai. Mal terminou o segundo grau, recém formada em magistério, e casou-se imediatamente com o Seu Dadá Pentecostes (Adamastor, claro), dono de quase metade das terras produtivas da pacata Dom Pedrito. Dizem por lá, nas rodas mais sombrias da sociedade pedritense, que D. Tânia casou grávida da filha Simone, a quem até hoje apresenta como "a minha filha prematura de 6 meses", muito embora a guria já tenha lá seus 40 anos.

Como era de costume no interior do estado, D. Tânia tinha uma "filha de criação" que, diferente de uma filha adotada, é uma criança que você compra da mãe muito pequena para viver na sua casa e trabalhar de empregada em troca de comida e criação, mais ou menos uma escrava bem tratada. Ela era chamada carinhosamente de Taninha, apesar de seu nome ser Alaídes (deve haver algum mito grego ou romano que explique esta transferência).

O fato é que conhecia a família Pentecostes desde sempre, pois veraneavam na mesma rua que nós na praia do Cassino, extremo litoral sul. Todas as famílias moradoras da nossa quadra chegavam sempre nos dias que precediam o ano novo. Os Pentecostes, claro, vinham num Dodge Dart cor-de-vinho, que acomodava inclusive a cadela Alcione, uma poodle gigante que mais parecia uma opulenta ovelha marrom. Lembro que D. Tânia passeava pela rua com Alcione na coleira por uma mão e o telefone sem fio da marca Cobra na outra, causando inveja a todos os vizinhos pelo alcance inacreditável do aparelho, comprado na zona franca de Rivera (razão pela qual, meses depois, meu pai enviou minha mãe ao Paraguai à caça de um "similar mais barato", coitada).

Certa feita, numa manhã calorenta de dezembro, acho que tinha uns 8 ou 9 anos, presenciei a chegada deles. Eu passeava de bicicleta quando a matricarca me avistou: "Lequinho, vem dar um beijo na tia Tânia" e me abraçou, equilibrando entre os dedos um cigarro Charm longo. A casa enorme estava uma sujeira só e D. Tânia girava os braços dizendo:

- Taninha, guria, olha que imundice está a casa!

A menina, com os olhos arregalados e ombros caídos, quase imóvel, analisava o serviço, acho que antecipando o cansaço.

- Vou fazer o seguinte: eu e a Simone vamos passar o dia na praia, enquanto tu lavas esta casa toda a mangueiraço! Daí eu não te atrapalho, né meu amoooor?.
- Tá bem, D. Tânia, obrigada

Simone, que ainda preservava as curvas que lhe deram o prêmio de Glamour Girl 79 pelo Lion's Club, passou apressada com seu biquini enroladinho, besuntada de Rayto de Sol e segurando decididíssima a cadeira de praia:

- Apura, mãe! O sol das 11 é o melhor!

Sentado no muro, equilibrando minha Monareta com os pés, acompanhei o maiô zebrado de D. Tânia sumir em direção à praia.

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