22.8.07

O Novo David Lynch


Sabe A Noite Americana, de François Truffaut? A meta-linguagem, o filme sobre o filme que na verdade é uma celebração da obra do diretor? Pois acho possível dizer que Inland Empire, de David Lynch, seja o seu equivalente. Claro, no universo Lynchiano nada é o que parece, este filme é praticamente uma daquelas bonecas russas, há sempre uma narrativa dentro da narrativa, dentro de outra e assim por diante.

Laura Dern faz uma atriz que ensaia um filme que se torna sua própria vida, para depois tornar e ser filme. Seria mais simples dizer que a atriz faz o papel de Alice que persegue o coelho até o País das Maravilhas e lá encontra corredores e portas que levam a mundos paralelos. Cada uma dessas portas tem pro trás personagens e referências da obra de Lynch, Eraserhead, Cidade dos Sonhos, Twin Peaks, A Estrada Perdida, Veludo Azul e a sitcom Rabbits, feita em 2002 sobre uma bizarra família de coelhos com corpos humanos.

Há um clima de suspense pesado como jamais se viu na obra do diretor, entrecortado por um auto-humor infalível e emocionante. A cena em que um grupo de meninas dança ao som de The Loco-motion (gravação de 62, na voz de Little Eva) é inesquecível. Ainda na trilha há Black Tambourine de Beck, que embala um alucinante passeio pelo Sunset Boulevard e a emblemática At Last, de Etta James. A cena final é uma divertida celebração dos últimos 20 anos de cinema do diretor, com a presença de estereótipos e atrizes de seus filmes passados ao som de Sinner Man, por Nina Simone.

Eu daria um Oscar a Laura Dern. Seu personagem representa a fugacidade do sucesso em Hollywood, a tentativa de sobrevivência naquela máquina de moer carne que é consumo da beleza e juventude. I.E. aliás, é uma ode às mulheres do cinema. Desde Norma Desmond, de O Crepúsculo dos Deuses (1950), às perturbadas mulheres interpretadas por Gena Rowlands nos filmes de John Cassavetes. Percebe-se na interpretação de Dern a força que espreita a fragilidade.

Muito embora seja uma obra-prima isoladamente, Inland Empire faz mais sentido a quem já assistiu outros filmes de David Lynch. Pelo que se pode ler na web, parece que no Brasil chegará direto ao mercado de DVD. Uma pena.

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