10.9.07

Os Longos Braços de Dona Geni

Os olhos de dona Geni eram negros e profundos, circulados todos os dias por olheiras alcantiladas, intensas como sua forma de viver. Talvez pelos traços de sua herança libanesa - o nariz aquilino, as sobrancelhas que avançavam ríspidas como se fossem, a qualquer instante, deslizar com ferocidade pelo nariz e desafiar o interlocutor - tudo que ela dizia soava permanente e irrevogável. Pode ser que desta firmeza toda tenha surgido a minha impressão, ainda criança, de que ela fosse uma mulher ignorante, como me pareciam ignorantes todas as pessoas muito certas de tudo. Mas uma ignorância, quem sabe, inocente, oriunda de um medo constante de não ser amada, razão de muitas ingnorâncias que nos afrontam todos os dias.

Dona Geni, como todas as mulheres cuja natureza lhes impede de ter um filho saído de si, tentava ser um pouco mãe e companheira de cada criança que lhe cruzasse o caminho. Assim foi comigo. Ela e minha mãe eram amigas inseparáveis, foi dona Geni que acompanhou o drama do meu quase não-nascimento através de uma vitrine que separava o corredor opressivo de azulejos azuis da Benificência Portuguesa e a sala de parto. Pela mão dela, aos 4 anos, fui ao primeiro baile de carnaval, aquele em que se veste a criança com fantasias de papel colorido para, no final da tarde, rumarem todos ao mar e sentirem o crepom se desfazer na água e, pressionado pelo vento, deliciosamente acalantar a pele, uma carícia que meu eu-criança sentia solenemente uma vez por ano apenas.

Era exatamente no verão que nossa convivência se tornava mais intensa, muito embora fôssemos vizinhos de quadra tanto na cidade quanto na praia. Só que durante o veraneio, era mais seguro para os pequenos como eu circularem pela rua. Na casa de dona Geni era que se reuniam tanto as crianças quanto os adultos desocupados da vizinhança. Hoje, olhando aqueles tempos com mais distância, tenho a idéia romântica de que respirávamos o verão com mais suavidade, como se a maresia e o sereno naquela época fossem menos apressados. Bastava-nos apenas uma cadeira preguiçosa velha, a roda de chimarrão e o vento. Desta combinação nasciam risadas, histórias e um sentimento quase indescritível de pertencer a algo cujo nome não nos interessava.

Dona Geni nos abraçava a todos com o mesmo carinho e bravura que recebia as turbulências inevitáveis da vida. Se bem me lembro, era um carinho triste de ser mãe de todos e, ao mesmo tempo, de ninguém. Até que um dia, há 10 anos, seu coração parou sem aviso, talvez cansado de tanto bater pelos outros. O meu, quando lembra dela, ainda dispara de alegria e ternura.

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