16.10.07

A vida como ela não é


Vendo a grade da nova programação da tv americana percebi que as comédias de situação (as famosas SitComs) estão em baixa. Não há mais sucessos estrondosos de audiência como Friends, 3rd Rock From The Sun, Will & Grace e tantas outras de um passado recente. Não sei se porque elas eram ingênuas demais e, em tempos de guerra, os ianques preferem assistir a séries sobre investigações criminais fantasiosas, dramas médicos ou eventos sobrenaturais que lhes distraiam daquela pirraça desgraçada de seu presidente abobalhado. Também não me espanta que os super-heróis modernos de Heroes estejam em alta. Se você olhar com atenção, percebe que americano gosta mesmo de programas que exaltem seu poderio, seja ele bélico ou de sobrehumana bondade com o próximo (desde que o próximo seja anglo-saxão). Mas uma coisa a gente precisa admitir: os roteiros da televisão americana estão cada vez melhores, mesmo seguindo fórmulas que se tornam óbvias conforme a temporada avança. Vide Dexter, Bones, Desperate Housewives etc e tal. Eles se esforçam com cada vez mais afinco em criar tramas inteligentes.

Já na tv aberta brasileira a situação é calamitosa. As novelas, orgulho do nosso povo, são um desfile bizarro de falta de talento. Custam e geram um rio de dinheiro, só que no final das contas, perpetuam estereótipos ofensivos e não sabem o que fazer direito quando retratam as minorias sociais. Gente rica de novela (a maioria) ou é muito chata ou muito mau-caráter. Gente pobre sofre, sofre, sofre, mas se dá bem no penúltimo capítulo. Homossexuais não beijam nem transam e se forem lésbicas, morrem. De acidente, claro. Soropositivos e trangêneros, então, estes sequer existem. Ninguém fica solteiro e feliz; ou casa ou morre de alguma doença rara. Os mocinhos não fumam, nem bebem, nem traem. As mocinhas só transam por amor e são muito, muito magras. Ainda dizem que novela é um sucesso por aqui porque retrata a realidade.

Os programas de humor, ah, estes são especialmente escrotos e ofensivos. Não consigo imaginar como alguém com mais de 1/2 neurônio acha graça do Pânico, por exemplo. Aquilo pra mim é tripudiar da miséria humana, é testar o limite da crueldade. Mas não me espanta que ele seja visto como um programa "inovador", já que os outros seguem fórmulas caducas de décadas atrás. Miguel Falabella recentemente reeditou o Sai de Baixo com elenco similar, sem a mesma graça. As praças, escolinhas e zorras da vida ainda tentam seduzir o espectador machista com modelos de biquini assediadas por velhos caquéticos, gays estereotipados e senhoras histéricas. Que saudades de TV Pirata e Os Normais!

Eu faço parte daquela parcela gigantesca de brasileiros que não pode pagar por uma tevê a cabo. A única coisa que eu ainda consigo ver em tv aberta é o jornalismo (só vamos deixar bem claro que esta categoria exclui o Fantástico). Acho que ainda há bons programas jornalísticos, até alguns noticiários locais. A Record News, por exemplo, estreou com uma programação variada e cuidadosa, tem documentários, programas de variedades, até um infame show de celebridades nos moldes do horrendo TV Fama, mas ainda assim prefiro assistir a Record News do que ter que aturar o insuportável Fausto Silva.

No final das contas, a melhor solução acaba sendo sempre desligar a tv. Deus abençoe o controle remoto, a internet e o dvd.

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