30.12.08

Another one bites the dust ou Adriana é minha pastora

Porto Alegre, 31 de dezembro de 2008.

2008, amigo velho

Lá mesmo esqueci que o destino sempre me quis só
Eu ando bem, obrigado. Mais sozinho e menos solitário, por incrível que pareça. Estar só para mim tem sido um reencontro misterioso. Entendi, com uns trancos seus, que sempre fui assim e desisti de querer ser diferente para me enquadrar na multidão. A minha natureza sozinha, você já deve ter percebido, não faz de mim infeliz. Faltava mesmo era eu enxergar, coisa que eu fiz muito nestes seus dias sorrateiros. Obrigado, mil vezes obrigado, meu velho.

A uma hora dessas, por onde andará seu pensamento?
E você, já está de malas prontas? Deve ser difícil partir assim com hora marcada, um pouco em cada lugar do mundo e receber vários adeus, graças a Deus, ser dispensado de forma tão desumana. Em Pequim, Berlim ou aqui no Bonfim, o povo estourando espumante barato, já com a vassoura atrás da porta, com aquela cara de idiota, achando que tudo será diferente e melhor, sem qualquer esforço. Dizem que a culpa é sua das coisas não terem dado assim tão certo. Não repare, amigo, as pessoas são assim mesmo.

Saia dessa vida de migalhas
É difícil ouvir o coração da gente ao cair da tarde, especialmente porque esta é a hora mais estranha do dia, ainda não é noite e também não é mais tarde. É como ter trinta e poucos anos e sentir que chegou a hora de construir alicerces que já deveriam ter sido erguidos anos antes. É o momento que nos impõe as obrigações de preparar o terreno para a noite chegar, fazer o que tem de ser feito, as compras, o banho, colocar o lixo na rua, responder os telefonemas perdidos. Você fez isto com tanta naturalidade que me dá até inveja, sabia?

Observe tudo embaixo ser menor do que você, como tudo é
E quando aquele clarão dos fogos iluminar o céu, estaremos já meio embriagados à espera do primeiro dia de janeiro, pequenos, muito pequenos, você há de nos olhar lá de cima, os minúsculos pontinhos brancos enredados em si mesmos, jogando oferendas ao mar, dando pulinhos nas ondas imundas que nós mesmo poluímos, saudando a beleza que nós mesmos estamos esgotando; o que passará na sua cabeça?

Eu me despeço, eu em pedaços, como um silêncio ao contrário
Você foi tão legal comigo, tão claro e honesto. Eu só posso agradecer.

Um beijo deste seu amigo,

24.12.08

Bells



01 Count Basie - Good Morning Blues (Real Tuesday Weld Clerkenwell Remix)
02 Louis Armstrong - Zat You, Santa Claus? (The Heavy Remix)
03 Ella Fitzgerald - What Are You Doing New Years Eve? (Mangini vs. Pallin Mix)
04 Billie Holiday - I've Got My Love To Keep Me Warm (Yesking Remix)
05 Louis Armstrong - What A Wonderful World (The Orb Remix)
06 Shirley Horn - Winder Wonderland (Christian Prommer Remix)
07 Jimmy Smith - God Rest Ye Merry Gentleman (Oh No Remix)
08 Nina Simone - I Am Blessed (Wax Tailor Remix)
09 Dinah Washington - Silent Night (Brazilian Girls Remix)
10 Mel Torme - The Christmas Song (Sonny J Remix)
11 Nina Simone - Chilly Winds (Fink Remix)

Um Natal muito elegante. Indeed.

Pode baixar.

15.12.08

Better than a work of fiction


Estamos parecendo uma gravadora em tempos de crise, leitor querido. Lançamentos escassos, re-edição de títulos antigos e falta de novidades. Mas não é isso. A verdade é que nas internas a coisa está intensa, com muito trabalho e pouco tempo. Então hoje eu vou re-editar uma compilation que só existia em CD. Um disquinho bastante especial que eu fiz para Ticcia em 2006, mas que nenhum de nós achou que deveria disponibilizar nos blogs. Até semana passada, quando ela me ligou pedindo. Então aí está. Remasterizada, em som estereofônico de alta fidelidade, mas sem perder o swing.

1. Natalie Merchant - She Devil (5:55)
2. Alex Gopher - The Child (4:33)
3. Cassandra Wilson - Killing Me Softly with His Son (5:09)
4. Rosemary Clooney - I wish you Love (3:05)
5. Carla Bruni - Those Little Things (Ces Petits Riens) (2:09)
6. Evan Dando - Knowing Me, Knowing You (Abba Cover).mp3 (2:18)
7. Fun Lovin Criminals - We Have All The Time In The World (3:38)
8. Gotan Project - Una Musica Brutal (4:11)
9. Françoise Hardy - Le Temps De L'amour (2:25)
10. Dimitri From Paris - Une Very Stylish Fille (3:18)
11. David McAlmont & David Arnold - Diamonds Are Forever (Radio Mix) (3:53)
12. Garbage - You Look So Fine [Fun Lovin' Criminals Mix] (3:38)
13. Diana Ross And The Supremes - My World Is Empty Without You (Tranzition Mix) (4:53)
14. Mina - Cry Me A River (5:22)
15. Des'ree - Little Child (3:54)
16. Suzanne Vega - Small Blue Thing (3:55)
17. Nina Simone - Please Read Me (3:07)
18. Isaac Hayes - It's Too Late (6:51)

Aqui

12.12.08

Compilation Re-editada


Uma das minhas compilations favoritas para quem não tem.

1. Blondie - Maria (talvin rythmic remix) (7:26)
2. Bjork - Isobel (Portishead remix) (6:08)
3. Madonna & Massive Attack - I Want You (6:23)
4. Marvin Gaye - Let's Get It On (Da Producers MPG Groove Mix) (4:22)
5. Alison Moyet - The First Time I Ever Saw Your Face (3:17)
6. Cesaria Evora - Besame Mucho (Senor Coconut's Chachacha Remix) (3:49)
7. Shirley Bassey - Slave to Rhythm (5:01)
8. David Bowie - I'm Deranged (3:47)
9. George Michael featuring Mutya - This is not Real Love (4:53)
10. Eva Cassidy - True Colors (4:50)
11. Natalie Merchant - Tell Yourself (acoustic version) (5:09)
12. Agnetha Fältskog - Fly Me to the Moon (2:49)
13. Sheryl Crow - I Shall Believe (5:37)

Aqui.

1.12.08

Madonna, a gaúcha


Enquanto canta Miles Away na turnê Sticky and Sweet, aparecem mapas de alguns lugares do globo atrás de Madonna. E não é que uma gaúcha que foi a um dos show da etapa norte-americana conseguiu flagrar o RS e Porto Alegre no telão? Deu na coluna do Roger Lerina hoje.

26.11.08

Barcelona chata



Woody Allen já tem uma carreira sedimentada como diretor e esteta que ultrapassa qualquer julgamento que se possa fazer a respeito de suas obras atuais. O outro lado da moeda de se estar no patamar daqueles profissionais que criaram estilos e definiram o rumo de gêneros do cinema é que sempre se espera que eles consigam superar a genialidade do passado e entreguem uma obra definitiva a cada novo trabalho. O que, infelizmente, ainda não aconteceu com Vicky Cristina Barcelona, seu novo lançamento com Scarlett Joahansson, Javier Barden, Penelope Cruz e Rebecca Hall.

Desde quando seus filmes se passavam em Nova York, Woody Allen já utilizava filtros nas lentes das câmeras para melhor controlar a luminosidade, o que propiciava sempre uma atmosfera enfumaçada, intimista e sedutora. Só que Barcelona não tem a imponente sombra dos arranha-céus de Manhattan, nem o nevoeiro melancólico da ponte do Brooklin ao entardecer. Abafar a luminosidade da paradisíaca cidade espanhola é destituí-la de um dos seus bens mais preciosos, a luz do sol. No filme, tudo ficou opaco e todos vestem tons pastéis enfadonhos.

Vicky (Rebecca Hall) e Cristina (Scarlett Johansson) são duas amigas americanas que vão passar as férias de verão em Barcelona na casa da tia de uma delas (a veterana Patricia Clarkson, aqui desperdiçada) e acabam se envolvendo com Juan Antonio (Javier Barden), um atormentado artista plástico, que, por sua vez, tem uma ex-esposa colérica e perturbada, Maria Elena (Penélope Cruz). Vicky é toda certinha e está de casamento marcado com um rapaz igualmente certinho, porém completamente desprovido de personalidade. Já Cristina, que em alguns momentos funciona como um alter ego feminino do Woody Allen dos anos 80, é mais libertária e infantilóide.

Numa trama que vai do nada a lugar algum em 90 minutos, Allen construiu seu filme mais enfadonho dos últimos tempos, caminhando lado a lado com Match Point e Scoop, sendo que este último tinha bem mais humor, e o primeiro, mas densidade - esqueçamos o péssimo O Sonho de Cassandra, é melhor não falar dele. Vicky Cristina é contemplativo e sexy, seu maior mérito, graças à dupla de atores espanhóis, que fogem do estereótipo elitista do rico neurótico, marca registrada do diretor - além, é claro, da trilha sonora impecável.

Da recente safra do diretor, os últimos traços de inventividade ficaram em Melinda/Melinda (2004) e Igual a Tudo na Vida (2003). Este ano, Allen voltou à sua amada Nova York para filmar Whatever Works, com Evan Rachel Wood no elenco, além Larry David, um dos idealizadores da série Seinfeld e protagonista de Curb Your Enthusiasm. Quem sabe voltando para casa, depois destas idílicas e longas férias filmando na Europa, ele volte a acertar.

16.11.08

Apagando o fogo com gasolina

Em 1982 Giorgio Moroder, o mago dos primórdios da música eletrônica - que havia, na década anterior, criado o que hoje chamamos de techno quando produziu I Feel Love de Donna Summer - foi recrutado para fazer a trilha sonora do filme A Marca da Pantera (Cat People). Para os vocais da canção homônima, sugeriu o vozeirão elegante de David Bowie e povoou o arranjo com batidas e guitarras góticas, muito bem aproveitadas anos depois por bandas como Depeche Mode, The Cult e Sisters of Mercy. Bowie fez muito mais do que cantar, ele compôs a letra que contém uma das frases mais marcantes da música pop: Putting out the fire with gasoline.

Eis que apagar o fogo com gasolina, apesar de a expressão parecer inventiva, não é algo novo e tampouco deixou de ser usual. Ora, quem deseja extinguir algum mal não deve fornecer a ele justamente mais daquilo que o alimenta, certo? Perdoem, mas a Martha Medeiros em mim não resiste em perguntar: não estaríamos nós todos em algum momento apagando fogo com gasolina e saíndo fatalmente queimados destes incêndios tão freqüentes que nós mesmos agravamos?

Quando alguém diz eu não suporto mais este emprego e pede demissão, sem perspectiva de algum outro trabalho ou proposta, está aparentemente apagando um fogo: o descontentamento de trabalhar em determinada empresa. Resolveu se rebelar contra o destino que lhe punha amarras nos pulsos e calcanhares e se libertar. Voar, voar; subir, subir. Mas para onde mesmo? Um vôo kamikaze. Esta dita liberdade nada mais é do que uma outra prisão, sem barras nem algemas, mas é dela que você vira prisioneiro. Apagando o fogo com gasolina.

É como aquele cara que tem um profundo descontentamento consigo mesmo e pensa que só com o carro perfeito, a mulher perfeita ou o corpo perfeito poderá ser validado como gente de primeira categoria. Ele compra o carro, a dolorosas prestações. Se sujeita a estar com a mais gostosa - sim, parece um contra-senso "sujeitar-se" e "a mais gostosa" na mesma frase, mas às vezes não é - mesmo que isso custe um pouco de paz e muito dinheiro. Malha, malha, levanta peso, corre, toma bomba, shakes, proteína, albumina e termogênicos. Tudo isso pra dizer que é saudável e cuida do corpo - mesmo que isso vá custar a sua saúde e um rim ou fígado daqui a alguns anos. Vira uma vítima de um ciclo destrutivo e cinco, dez, quinze anos depois percebe que a estima de si está mais baixa e dependente da validação dos outros do que lá no início. Apagando o fogo com gasolina.

E a mulher que serve de saco de pancadas ao marido, a que se deixa abusar moralmente. A que está sempre errada no final das contas. Que mesmo exímia malabares, trazendo e levando filhos pro colégio, fazendo o que pode com o que tem, ou às vezes fazendo muito do muito pouco, mesmo assim, ainda que tire água de pedra, o cara insiste em colocá-la no lugar da inutilidade, da gente que não presta, como se ela só servisse pra burro de carga e, a seu lado, valesse menos do que a sua sombra. Ela, esta infeliz que não soube escolher o parceiro porque nunca aprendeu o que é respeito, quer acima de todas as coisas "salvar seu casamento". Acha que deve ter calma para fazer tudo certo e conseguirá recobrar a paz no lar. Um dia os filhos já não lhe ocupam mais tanto tempo e ela consegue se dar conta que poderia ter sido tão feliz - ou ao menos tentado. Se não tivesse perdido seu tempo apagando o fogo com gasolina.

É pela falta de respeito próprio? É por não saber fazer diferente? Ou porque seria mais fácil violentar a si próprio do que respeitar-se e fazer aquele esforço extraordinário de galgar as dificuldades e conquistar o melhor para si? E quem faz isso consegue enxergar o que faz?

Acho que, quando escreveu aquela letra, David Bowie queria mesmo era falar da forma contraditória como se mostra a atração sexual, como se manifesta o desejo. Eu é que fiz a bobagem de achar que poderia ser outra coisa.

De qualquer forma, quem quiser ver Tina Turner interpretanto Cat People, num registro raríssimo e delicioso, clique aqui.

13.11.08

Segundos de Sabedoria


"It's not having what you want, it's wanting what you've got"


Da filósofa americana Sheryl Crow, algo como "o que importa não é ter o que você deseja, mas desejar o que você tem", do hit Soak Up The Sun. Tão verdade, não é mesmo?

11.11.08

Fever

Coff coff, febre febre, trabalho trabalho.

O mundo seria um lugar bem mais feliz se toda farmácia do mundo tivesse Padma Perkesh, a farmacêutica que explica no melhor estilo Bollywood os efeitos colaterais dos remédios. A personagem é de Tracey Ullman e faz parte do excelente show State of the Union.


8.11.08

Mudernidade

Dia 04 deste mês, a RBS TV colocou no ar em Porto Alegre seu canal digital. O padrão digital é a forma mais moderna de transmissão de imagem e som, sem perda de sinal. Aliás, a antena de transmissão implantada pela RBS tem um sinal poderosíssimo, há registros de gente captando o canal em Caxias do Sul com uma antena externa. Na região metropolitana, no entanto, é possível captá-lo com uma antena UHF interna. Mas é necessário ter um conversor, pois nossas televisões, na sua maioria, não estão preparadas para decodificar este tipo de transmissão. Os aparelhos ainda são grandes demais, aproximadamente do tamanho de um videocassete e custam de 250 a 1000 reais, um preço ainda bastante salgado.

|Vantagens

A principal vantagem da tecnologia é que ela dá adeus aos chuviscos. Se o sinal estiver muito fraco, a imagem pode congelar, mas nunca há chuviscos.

Para quem tem uma TV LCD, a coisa fica melhor ainda. Alguns programas são transmitidos em Alta Definição (o tal HD), no formato widescreen e com uma riqueza de detalhes incomparável. Por enquanto, a Rede Globo produz em HD apenas a novela A Favorita, A Grande Família, alguns quadros do Fantástico e transmite vários filmes espalhados pela programação com imagem comparável ao Blu-Ray (substituto do DVD). Mas por que tão poucos? É que as câmeras de alta definição são muito caras e as emissoras ainda não têm equipamento suficiente para gravar tudo em HD. Mas vão, gradativamente, aumentando seu arsenal até que tudo seja produzido no formato.

Os filmes de visual caprichado ficam um primor. Ontem passou Mulheres Perfeitas (The Stepford Wives), de Frank Oz e as cores eram de cair o queixo.

| O lado negro

Aqui em casa, numa LCD de 32 polegadas, assistir À Favorita é uma experiência que dá um pouco de medo. Apesar daquela abertura fantástica ficar mais bonita ainda, a alta definição revela todas as imperfeições na pele dos atores, o que indica que os profissionais de iluminação e maquiagem ainda precisam aprender muito a adaptar seu trabalho ao novo padrão. Todos os atores parecem suados, lustrosos e é possível ver os cravos no nariz de Giulia Gam, por exemplo. Elisângela parece um urso panda, com suas olheiras salientes e Glória Menezes só falta levantar o dedo e dizer "telefone ... minha casa..." para ficar ainda mais parecida com o E.T.

Pouca gente no Brasil pode ter uma TV LCD e um receptor para receber a TV digital. Está tudo muito caro. No mercado de TV por assinatura, a chamada NET Digital e a fraca concorrente TVA Digital, que alardeam nas propagandas possuirem "imagem de DVD", não transmitem uma imagem à altura do nome. Eles comprimem o sinal para poderem oferecer mais canais e manter o preço, o que ocasiona uma perda significativa na qualidade da imagem. O assinante da NET que quiser o sinal HD, por exemplo, precisa pagar em média 800 reais pelo aparelho HD MAX e mais um adicional na assinatura para ter alguns poucos canais em alta definição.

Falta muito ainda para a tecnologia fazer diferença no cotidiano do telespectador comum, mas como todo avanço tecnológico, há de começar de alguma maneira. A partir de 2009 os outros canais como Band, Record e Rede TV devem iniciar suas transmissões para a região metropolitana. Dizem que a ULBRA TV também já está com o equipamento comprado.

6.11.08

The L Word



O amor é um negócio estranho, bicho, diria Elis Regina. Para ela deveria ser ainda mais. Era pisciana de ascendente em câncer. Dizem na astrologia que são os dois signos que mais sofrem de dor de amor. Peixes porque romantiza tudo e esquece de avisar ao parceiro dos seus desejos sempre tão secretos e câncer porque gosta de sofrer, senão fica sem assunto. Elis cantava com a mesma intensidade com que vivia seus relacionamentos. Teve filhos talentosos e, na mistura de amor com trabalho, teve parceiros amorosos que eram também grandes produtores musicais. Morreu de que, mesmo? Ah sim, depressão, tristeza, falta de amor. Aos 36 anos.

Quanto a mim, o amor passou... Nas Cartas de Amor, de Fernando Pessoa, esta é a frase que mais me chama a atenção. O escrito segue, conversando com o amor cara a cara, pedindo que conservem alguma ínfima lembrança dos bons momentos de forma civilizada. Não me parece dirigido metaforicamente a alguém em especial, mas uma árida constatação de que o autor já teria vivido tudo que precisava viver em relação ao amor e já não guarda mais esperanças de arder qualquer chama ainda naquela existência.

What's love got to do with it? Perguntava Tina Turner no seu maior sucesso de 1984, também título da sua cinebiografia protagonizada pela sempre fantástica Angela Basset. O que tem o amor a ver com isso? A jovem Ana Mae Bullock conheceu Ike Turner aos 18 anos e ficou com ele até não aguentar mais apanhar em 1976, depois de uma sangrenta briga nos corredores de um luxuoso hotel em Dallas. Com o rosto inchado e ensopado de sangue, chegou na portaria do Ramada Inn mais próximo com 36 centavos na bolsa pedindo abrigo, depois de fugir do marido. Alguns anos depois, tornou-se a cantora que mais lotou estádios nos anos 80 e uma das celebridades mais queridas no meio musical. Mas ainda não descobriu a resposta para a própria pergunta.

Love is a losing game, ou no jogo do amor só se perde. Amy Winehouse não faz idéia de como soa verdadeira a sua interpretação da melhor canção do álbum Back to Black. Além de ser um complicado e interessante jogo de palavras, a letra consegue ser dolorida e envolvente ao mesmo tempo. E voltamos ao tema de sempre. Enquanto alguém se apaixona aqui, outra ali ao lado está com o coração em frangalhos. Uma sabe que o apaixonamento um dia acaba, a outra se agarra à certeza de que ele há de reaparecer em breve. Ou não. Pode demorar e, segundo nosso amigo Pessoa, pode nunca mais acontecer.

Parece triste.

*Foto do filme espanhol Azulescuroquasepreto um dos meus filmes favoritos daquele país.

4.11.08

É Roliúde, meu bem



Este é o novo projeto de Marc Collin, produtor do Nouvelle Vague, para o qual ele recrutou vozes femininas como Skye Edwards (ex Morcheeba), a brasileira Cibelle e até Juliette Lewis - com a minha favorita do CD, This Is Not America, versão cool e sexy do sucesso de David Bowie - para cantarem canções de filmes do anos 80. De Footloose a Flashdance, de Furyo, em Nome da Honra a Arthur, o Milionário Sedutor. Tem de tudo aí.

Quer dizer, aqui.

01. A View to a Kill (ft. Skye of Morcheeba) [original by Duran Duran]
02. Call Me (ft. Skye of Morcheeba) [original by Blondie]
03. When Doves Cry (ft. Nadeah) [original by Prince]
04. Eye of the Tiger (ft. Katrine Ottosen) [original by Survivor]
05. Cat People (Putting Out Fire) ft. Dea Li [original by David Bowie]
06. Flashdance... What a Feeling (ft. Yael Naim) [original by Irene Cara]
07. Footloose (ft. Cibelle) [original by Kenny Loggins]
08. This is Not America (ft. Juliette Lewis) [original by David Bowie]
09. Arthur's Theme (Best That You Can Do) ft. Nadeah [original by
Christopher Cross]
10. Together in Electric Dreams (ft. Nadeah) [original by Phil Oakey]
11. Reality (ft. Nancy Danino) [original by Richard Sanderson]
12. Forbidden Colours (ft. Nadeah) [original by David Sylvian]
13. It's Wrong for Me to Love You (ft. Bianca Calandra) [original by Pia Zadora]
14. For Your Eyes Only (ft. Dea Li) [original by Sheena Easton]
15. Don't You (Forget About Me) ft. Leelou [original by Simple Minds]

3.11.08

O dia da marmota


Em Feitiço do Tempo (Groundhog Day, 1993), o repórter Bill Murray vai ao interior da Pensilvânia, escalado para fazer uma matéria chata sobre um evento aparentemente desinteressante: o dia da marmota, um mito local que anuncia a proximidade do final do inverno. O problema é que o personagem de Murray se vê preso no tempo e acorda sempre no mesmo dia, presenciando e participando dos mesmos eventos. Esta previsibilidade lhe permite, depois do choque inicial, manipular os resultados. Ele diz a Andie MacDowell o que ela deseja ouvir para conquistá-la e posa de herói com os moradores locais, pois ele vive aquele 2 de fevereiro todos os dias.

É bem curioso como o personagem reformula a realidade conforme vai aprendendo com ela - a seu favor, é claro. Ele constrói uma série de mentiras que seguramente agradarão ao outro, até chegar num ponto em que fica difícil saber o que ele realmente quer para si.

A mentira e a realidade têm, cada qual com suas idiossincrasias, mais em comum do que se pode imaginar. Não nos damos conta dessa semelhança assustadora porque estamos ocupados, na maior parte do tempo, em viver o que chamamos de realidade. O que é real? Acordar de manhã (ou ao meio-dia ou de madrugada), trabalhar, estudar, almoçar, conviver com colegas, familiares e amantes, cumprir com obrigações, sair à noite, beber e dormir novamente.

É possível que esta tão real e palpável rotina seja, para nosso espanto e horror, uma mentira - ou quem sabe uma seqüência delas? Sim. Eu posso mentir que amo, eu posso mentir que meu trabalho me dá prazer, que meu casamento está na mais intocada paz, que minha existência me traz felicidade depois da soma e subtração do bem e do mal. Minto minhas ambições, minha tolerância, meu afeto, minhas intenções; minto que mudei, que me gosto, que faço por mim o melhor, que escolho a mais pensada tranqüilidade perante as opções oferecidas no descarte do destino.

Minto desenfreada e perigosamente para mim mesmo e nem me dou a chance de perceber que sim, estou mentindo a mentira mais deslavada do mundo. Chamo de acreditar que vai dar certo a uma coisa que eu sei que não existe. Prometo um bocado de mim ao outro que não me pertence. Acredito piamente porque este acreditar completa e valida a minha mentira. E depois compreendo porque não durmo tranqüilo, porque eu preciso que a ficção me diga quem eu sou através das mais belas e inusitadas metáforas visuais ou verbais, seja através da obviedade do folhetim diário e do livro de auto-ajuda ou pela mais complexa e desordenada trama de um cultuado filme.

O que ela faz afinal de contas? Aí está a ironia. A ficção - o sonhar acordado, a fantasia bem contada - nos representa e explica repetidamente que estamos mentindo. Estamos deixando de viver o que há de mais verdadeiro em nós, abafamos nosso real desejo, deixamos de obedecer nossa vontade primordial. Eu termino de ler aquele livro e digo "daqui para frente tudo vai ser tão diferente". Por alguns momentos eu acordo, mas péra aí, cadê a vida que eu deixei aqui? Sumiu. Mas em dez minutos eu preciso estar no trabalho, cumprir meu prazo, fazer o que eu venho prometendo aos outros a vida inteira - e que nunca tive para dar. E volto a acreditar na mentira.

30.10.08

Sangue Bom


O poster acima faz parte da campanha de marketing viral de True Blood, nova série da HBO americana, que mostra um mundo em que os vampiros saem do armário em razão de um sangue sintético desenvolvido pelos japoneses chamado Tru Blood. Como não é mais necessário matar humanos para se alimentarem, os vampiros não mais se escondem. É assim que a garçonete Sookie (Ana Paquin, a menina de O Piano, lembra?) se apaixona pelo vampiro de olhar oblíquo Bill Compton. Tenho acompanhado religiosamente o seriado e atesto, certifico e assino em baixo.

Ainda na campanha viral, um site de relacionamentos (Lovebitten.net), o da bebida Tru Blood (Truebeverage.com) e a Liga dos Vampiros Americanos (Americanvampireleague.com).


29.10.08

Serenity Now!


Em um dos episódios mais memoráveis de Seinfeld, Frank Constanza (pai de George) é aconselhado por seu cardiologista a dizer "serenity now" cada vez que a sua pressão arterial ameaçasse subir. Algo como "serenidade agora", uma forma de auto-relaxamento. Em vez de dizer, ele gritava bem alto, com as mãos para cima em posição de louvor. Desde então, a frase virou grito de guerra de quem está de saco cheio, se sentindo abusado, quando lhe faltam com o respeito, enchem o saco, abusam da paciência.

Está sendo vítima de assédio moral ou psicológico do chefe? Serenity now!
Sua amiga egoísta só sabe falar de si e faz tudo pra chamar a atenção? Serenity now!
Seu dito "amigo" está dando em cima da sua namorada? Serenity now!

Não, não vai resolver a situação. Se o chefe assedia os funcionários moralmente, ele vai continuar assediando porque é assim que ele é e porque poder, na concepção dele, é ter autoridade para ser um calhorda. Se a amiga é egoísta e precisa da atenção de tudo e todos, muito provavelmente não vai conseguir se enxergar, nem que você desenhe. E geralmente quem dá em cima da namorada dos amigos não vale sequer a preocupação, muito menos a amizade.

Serenity now é um mantra para você lembrar que nem o chefe, nem os pseudo-amigos, nem qualquer pessoa tem o direito de te desequilibrar. E que às vezes cuidar da própria sanidade é a menor maneira de mandar alguém à merda.

27.10.08

Notável

Ana Maria Bahiana, a jornalista brasileira que mais conhece cinema esteve em Porto Alegre neste final de semana com o curso "Como Ver um Filme", ministrado todo numa sala de cinema do Moinhos Shopping. Além de explicar, tanto quanto o tempo permitia, o processo de pré e pós produção, falar sobre as possíveis estruturas dos roteiros, contar sobre os grandes diretores de fotografia, apontar a missão da direção de arte, trilha sonora, e figurinos, assistimos também a cenas de Apocalipse Now, Onde os Fracos Não Têm Vez, Maria Antonieta, 2001 - Uma Odisséia no Espaço, O Iluminado, A Era da Inocência e mais alguns.

Há de se considerar que para muitos de nós aquilo não era novidade, mas os toques e as curiosidades que a experiente jornalista salpicava entre um clip e outro eram uma delícia que não tem preço. Ao contrário de muita gente que tem espaço para falar de cinema nos veículos de hoje em dia, Ana Maria Bahiana critica sem afetações e sabe ser objetiva até falando da prótese peniana usada por Sean Penn no novo filme de Gus Van Sant. Além de tudo, é um doce de pessoa. Nem precisava ser, mas é.

22.10.08

Totally screwed up



Fatal (Elegy, 2008) de Isabel Coixet me deixou chateado por alguns dias. Me pareceu que o filme tenha sido uma tentativa de a diretora entender os homens. Ou quem sabe fazer as pazes com eles, já que em seus filmes anteriores (Minha Vida Sem Mim e A Vida Secreta das Palavras) eles não foram muito bem desenvolvidos, até porque não importavam à narrativa. E para entrar de cabeça e em alto estilo no universo masculino, escolheu adaptar uma obra de Philip Roth, O Animal Agonizante.

O problema é que, para Coixet, nós continuamos seres bem pouco evolvidos, fracos, imaturos e inseguros. E a fodona super-heroína do filme, o pássaro ferido, a fênix que renasce das cinzas e supera todas as adversidades, a Scarlet O'Hara madrilenha é Penelope Cruz, daí você tem uma idéia de como estamos mal. 

Mesmo assim, Fatal é daquela beleza precisa, quase cirúrgica cultivada por Coixet. O capricho das ambientações, o cuidado de colocar o personagem na cena como se fizesse parte de uma pintura renascentista, com seus detalhes de cor, sombras e expressão fazem da fotografia talvez o mais irrepreensível da película.

Mas é tão difícil acreditar nestas pessoas, elas são tão distantes, tão ocupadas com o vazio da sua superficialidade. São uns intelectualóides egoístas e sintéticos para os quais a ausência de traços mais humanos impede a identificação da platéia.

Mesmo assim, me chateei. E talvez porque ele pinta, de forma muito competente, um quadro bem trágico das relações amorosas, em que as pessoas acabam juntas mais por falta de opção do que por escolha própria. Fatal incomoda bastante, é o que eu posso garantir.

21.10.08

A little perspective

Pois então, caro leitor. Seu blogger está implicando conosco e tirando meus posts do ar. Tudo porque alguém anda fazendo queixas das músicas que eu compartilho com vocês, questões de direitos autorais, blá blá blá. Aquela novela...

Mas vamos contornando a situação como der. De qualquer forma, quem quiser aquela compilation re-editada de sexta-feira [Perspective], pega aqui.

Infelizmente, os comentários dos posts apagados são irrecuperáveis. Perdoem o Blogger, ele não sabe o que faz.

13.10.08

Cortada em Dois


Talvez não tenha sido uma boa escolha ir assistir a um filme francês em plena quarta-feira, imediatamente após um cansativo dia de trabalho. Especialmente porque o horário da sessão me obrigava a sair correndo da empresa para, em 20 minutos, chegar ao cinema, comprar o ingresso e correr para dentro da sala escura. O estigma do filme francês chato, criado, suponho eu, pela nouvelle vague e o estilo contemplativo e observador de alguns de seus representantes, persegue os filmes produzidos naquele país; muito embora eu tenha fé de que nem todo filme francês seja enfadonho. Foi esta fé que me levou a assistir Uma Garota Dividida em Dois (La Fille Coupée en Deux, 2008), de Claude Chabrol.

A garota do título é Gabrielle (Ludivine Sagnier, de Les Chansons D'Amour e Swimming Pool), dividida entre a paixão pelo escritor famoso Charles Denis (François Berléand) que nada de sério quer com ela e um violento ricaço (Benoit Magimel, de A Professora de Piano) que praticamente a coage a casar com ele. A protagonista, claro, ama quem não a quer: o escritor mais velho, melhor de cama, porém casado. Acaba se acomodando com o mais fácil (aparentemente), ou seja, casar com o rapaz mimado, herdeiro de um pequeno império, sabendo que ele tem um quê de psicopata. Talvez seja justamente a violência que melhor descreva as fantasias de Gabrielle. Cada um dos amantes representa um lado da moeda da sexualidade humana: a dor fantasiada e a real. O ciúme e a doença. O consentimento e a invasão.

A história do filme foi adaptada por Chabrol a partir de uma história real, acontecida no início do século XX em Nova York, um escândalo envolvendo o triângulo amoroso que culminou em tragédia e foi notícia dos jornais do mundo inteiro. Na adaptação francesa, os personagens não se desculpam por absolutamente nada e têm o trunfo de sempre defender suas escolhas, por mais bizarras e auto-destrutivas que possam parecer. O que já é um grande mérito nos dias de hoje, em que é mais comum ver pessoas arrependidas e procurando uma forma de colocar a culpa nos outros ou nas coisas pelo seu próprio fracasso pessoal.

Por outro lado, há duas coisas que me incomodam profundamente em Uma Garota Dividida em Dois: a lentidão da narrativa, quase sonolenta; e a forma com que o potencial impacto dos personagens foi diminuido pelo excesso, a maneira um tanto caricatural com que a câmera de Chabrol enquandra esta bizarra realidade. O que bastou para me fazer cochilar uns 5 minutos. Mas nada que tenha abalado a minha fé.


10.10.08

Compilation Insensata


1. Paula Morelenbaum - Insensatez (3:54)
2. Bajofondo (Feat. Gustavo Cerati) - El Mareo (4:35)
3. Dj Shadow - This Time (I'm Going Try My Way) (2:59)
4. Everything But the Girl - Mirrorball [DJ Jazzy Jeff Sole Full Remix] (4:28)
5. BungaLove - Aphrodisiaco (4:22)
6. Forro in the Dark - Wandering Swallow (feat. Bebel Gilberto) (4:13)
7. Adriana Calcanhotto - Três (3:50)
8. David Byrne & Brian Eno - One Fine Day (4:55)
9. Shirley Bassey - For All We Know (2:45)
10. Natalie Cole - You Gotta Be (3:46)
11. Ani DiFranco - Smiling Underneath (4:59)
12. Dinah Washington - Cry me a River (2:49)
13. Fiona Apple - The First Taste (4:46)
14. Esther Phillips - Makin' Whoopee (2:46)
15. Marisa Monte - Vai Saber? (4:00)
16. Fernanda Takai - Insensatez (3:36)

7.10.08

Morelen-quem?

O novo álbum de Paula Morelenbaum não é só elegante e sofisticado, ele tem parcerias com Bajofondo, Ryuichi Sakamoto, Marcos Valle, João Donato dando novas roupagens a composições que Paula garimpou nos acervos de antigas gravadoras. Tem Ternura Antiga, de Dolores Duran, O Samba E O Tango, com os músicos e o remix do Bajofondo e O Que Vier Eu Traço, em seu inspirado arranjo electro-bossa.

Certamente uma das melhores surpresas de 2008.

Para tê-lo inteiro, clique aqui.


1.10.08

Nomes aos bois


Eu tenho uma amiga que dá nomes e apelidos de gente às coisas. O laptop chama-se Borges, o Ford Ka é o "O Gordo" e a televisão tem um nome que eu agora esqueci. Um dia ela me ligou pedindo ajuda, dizendo que o "Borges estava bravo" e não queria mais escrever. Fui lá e conversei com o Borges, que me contou transtornado que ela havia apagado arquivos essenciais para o bom funcionamento dele. Claro, você entende aí que o computador não me disse nada, que na verdade eu cheguei lá e verifiquei que ela (ou alguém, não sei) resolveu apagar arquivos sem saber o que eram ou para que serviam, o que fez com que o sistema não conseguisse fazer a associação dos atalhos na área de trabalho com os programas e arquivos relacionados a alguns deles. Um dia eu encontrei com ela, cara de cansada, suada. "O gordo me deixou na mão, acreditas?" E eu perguntei quando tinha sido a última vez que ela tinha levado o gordo no médico pra fazer um check up e assim continuamos na brincadeira. Porque é realmente divertido brincar de humanizar as coisas. O que não me parece funcionar muito bem é quando fazemos um coisa quase inevitável: dar nome de gente a sentimentos. 

"Morro de saudades do Pedro. Nunca esqueci o Pedro. Sempre que eu me sinto só, eu penso no Pedro". Vamos traduzir, o Pedro é o nome do ex-namorado, o último (ou pelo menos o mais marcante) que fez o cidadão ou a cidadã em questão feliz, em casa, contente. Aí, sempre que a casa ameaça ruir, a criatura pensa que é o Pedro que está fazendo falta. Ela pensa que ninguém é igual ao Pedro, que nobody does it better, que o Pedro é que é o cara. Esquece que se terminou, algo havia de errado. Que o Pedro, a pessoa, não era bem o parceiro dos sonhos. Mas que o Pedro, o sentimento, ah este é imbatível, representa a última vez que você se sentiu protegido, querido, desejado, maior do que o mundo, do que as coisas fúteis e os dias longos e as noites frias. 

Então chega um momento em que você já não sabe mais fazer a distinção entre Pedro, a pessoa e o sentimento. E quando você sente aquele abandono brutal no domingo à tarde, acha que está morrendo de saudade do Pedro, mas na verdade queria mesmo era repetir a sensação que tinha quando vocês se abraçavam e era como se um anjo safado abrisse suas asas para te acolher do mundo que não consegue te entender e do qual você já desistiu. E você uma vez, pelo menos, fez sentindo do encontro com alguém, achou que valia a pena, que existe isso que alardeiam nos filmes, livros e canções, que felicidade não é uma palavra proibida no seu dicionário.

Só que este sentir-se maior e mais possível não precisa atender pelo nome de alguém específico. É injusto até com o pobre do Pedro, que já nem lembra mais que você existe e está tentando, do jeito dele, ser feliz e namorar e tocar a vida da forma que consegue. É mais injusto ainda com você que perpetua essa equação em que felicidade = o outro. E passa anos infeliz, sem saber que a felicidade muda de nome conforme você a experimenta, e se ontem foi Pedro ou Luíza, hoje pode ser Ana ou Roberto e amanhã pode ser Fernando ou Maria. E nenhuma dessas pessoas terá a chance de te conhecer e, de repente, te fazer feliz se você não se der conta de que está buscando reviver um momento que não mais existe. A Ana, o Roberto, o Fernando e a Maria agradecem. E o Pedro também. 

*A foto que ilustra o post é do filme A Janela da Frente (La Finestra di Fronte, 2003), do diretor turco Ferzan Ozpetek, o mesmo de Um Amor Quase Perfeito (Le Fate Ignoranti, 2001). Altamente recomendável para quem está pensando em amar de novo.

30.9.08

Lost


Hoje é dia do tradutor. Parabéns aos colegas que tentam todos os dias dizer o indizível.

29.9.08

My pride and joy

Minha mãe ontem me surpreendeu. Primeiro porque eu descobri, pasmo, que ela aos 17 anos foi morar sozinha, numa cidade longe dos pais (um militar irascível e a outra, mãe disciplinadora furiosa); trabalhava como professora e morava numa república onde, ela mesmo conta, "se divertia à beça!". E lembre-se, caro leitor, que estamos falando de 1950, no interior do Rio Grande do Sul.

Outra coisa que me espantou - desta vez menos pela ousadia e mais pela sapiência - foi a seguinte frase: "Quem guarda rancor dos pais vira um adulto fatalmente infeliz". O que é tão verdade e, ao mesmo tempo, o tipo de coisa que só uma (boa) mãe pode dizer. Esta, aos 70 e tantos anos, é a minha mãe, senhoras e senhores.

26.9.08

Compilation



Músicas que narram histórias que começam e terminam e começam e... mais ou menos como tudo que a gente passa na vida. 

1. Michael Jackson - Got to Be There (3:24)
2. Esther Phillips - What a Diff'rence a Day Makes (4:31)
3. Dean Martin - Sway (2:49)
4. Marvin Gaye - Sexual Healing [Original Vocal Version] (4:39)
5. Des'ree - Strong Enough (4:44)
6. Dinah Washington - Mad About The Boy (2:51)
7. Terence Trent D'Arby - We Don't Have That Much Time Together (4:53)
8. Aretha Franklin - Rock Steady (3:13)
9. Tina Turner - It's Gonna Work out Fine (2:50)
10. Annie Lennox - Keep Young and Beautiful (2:17)
11. Peabo Bryson/Roberta Flack - Tonight, I Celebrate My Love (3:31)
12. Sarah Vaughn - Moon River (2:51)
13. Galt MacDermot - Aquarius (4:45)

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24.9.08

Um porto mais alegre ao mar de Adriana


A minha resenha do show de Adriana Calcanhotto em Porto Alegre, no sábado.


A minha única ressalva é que a platéia não podia ser mais apática. 

**

A pessoa ao meu lado cantava "Eu ando pelo mundo prestando atenção em FLORES que eu não sei o nome. FLORES de Almodóvar, FLORES DE FIDEL CASTRO, FLORES". Eu caí na gargalhada e ela ficou ofendida, disse que é fã desde o início dos tempos e sabe de cor to-das as músicas da Calcanhotto. 

**

"Suas asas, amor, quem deu fui eu..." ela estava querendo me testar, eu sei. Testar a minha fé, a minha perseverança e bravura. O arranjo novo é de doer de bom e fez dela uma nova música. 

22.9.08

Mad Men






Esta á a abertura da série Mad Men, ganhadora ontem do Emmy de melhor série dramática. A seqüencia presta homenagem ao designer Saul Bass, responsável pelas primorosas aberturas dos filmes de Alfred Hitchcock.

Mad Men mostra a vida de uma agência de publicidade durante a transição cultural que os Estados Unidos sofreram no início dos anos 60 e tem roteiros caprichadíssimos. Assisti à primeira temporada e fiquei muito impressionado com a franqueza e a sofisticação que vi. No Brasil, a série volta pela HBO Plus em outubro.

17.9.08

O olhar da cegueira


"A única coisa mais assustadora que a cegueira é ser a única pessoa que consegue enxergar"

O cinema que você testemunhará em Ensaio Sobre a Cegueira (Blindness, 2008), de Fernando Meirelles é bastante parecido com aquele de Crash - No Limite (2004) e Babel (2006). Da mesma forma que Paul Haggis e Alejandro González Iñárritu conduziram seu olhar desafiante sobre a diversidade dos nossos tempos, Meirelles consegue explorar alguns becos escuros da maldade humana e a nossa precariedade social, tendo como combustível a obra de José Saramago.

Julianne Moore é a única que consegue enxergar, num mundo tomado pela epidemia de uma curiosa forma de cegueira contagiosa. Em vez da total escuridão, a doença de Saramago torna a visão (ou a ausência dela) num mar de branco. O desafio desses personagens sem nome é sobreviver à quarentena em que são depositados, num hospício abandonado, onde há racionamento de comida e formas brutais de opressão vão aos poucos eliminando o que havia de civilizado naqueles personagens.

O espectador é propositalmente privado de referências. Não se sabe ao certo em que cidade a trama acontece, muito embora as cenas externas tenham sido filmadas em São Paulo - o que torna algumas paisagens urbanas familiares a nós brasileiros apenas. Há sinais em português, inglês, espanhol. O elenco tem norte-americanos, latinos e orientais, mas nenhum personagem tem nome. Tudo que se sabe é que aquele micro-mundo pode ser qualquer cidade justamente porque não é lugar algum. O que importa mesmo são os movimentos internos, o que acontece com estas pessoas numa situação extrema, como seus papéis sociais se desenrolam, da bondade à brutalidade, despidos de qualquer forma de adequação paradigmática.

A linguagem visual escolhida por Fernando Meirelles merece um louvor. Há três pontos de vista servindo de marcação para os atos da história. Um inicial, de edição rápida e brilhante, anunciando a chegada da doença; outro mais cru, em alto contraste, que pontua a vida no isolamento pelos olhos da protagonista; e outro, talvez o mais relevante, o olhar interno, representado pelo personagem de Danny Glover. Em vários momentos, o diretor presta homenagem a artistas que representaram em sua obra uma humanidade solitária, como Lucien Freud (Double Portrait, ao lado), reproduzindo o imaginário das obras sem qualquer cerimônia.

Mas não dê ouvidos ao que eu - ou quem quer que seja - tenha a dizer sobre Blindness. Apenas assista e depois me conte o que você enxergou.

15.9.08

I drove all night*

Voltando de Rio Grande para Porto Alegre, o carro pifou no meio do quase-nada. Melhor reformular: o carro pifou próximo a Turuçu, a "capital nacional da pimenta", segundo informava um outdoor. "Pane elétrica" é um termo muito descritivo, descobri depois de algumas horas no celular chamando a assistência rodoviária que a concessionária responsável por aquele trecho da estrada fornece. Foram rápidos e ajudaram no que podiam, ou seja, aconselharam acionar a seguradora.

Problema número dois: meu irmão não lembrava com qual seguradora o corretor havia firmado contrato. A documentação chegou toda pelo correio e ele, claro, jogou o envelope em algum lugar da escrivaninha de casa. Já estava anoitecendo, um frio do cão e eu no celular tentando descobrir os 0800 das possíveis seguradoras. Depois da quarta tentativa frustrada, o corretor, que nas últimas duas horas estava confortavelmente acomodado em algum cinema de Porto Alegre, retornou a ligação e forneceu a informação.

Seguro acionado, guincho a caminho. Como a distância excedia 100 km, não tínhamos direito a taxi. A solução era que fôssemos espremidos até o nosso destino na cabine do caminhão. O guincheiro, que vinha da cidade vizinha, demorou cerca de 1 hora para chegar. Estava no aniversário de quatro anos do filho, explicou-nos depois. Por volta das 21.30 estávamos eu, meu irmão e o guincheiro, ouvindo música sertaneja a caminho de Porto Alegre. "O senhor sabe que não é qualquer um que trabalha com essas seguradoras, né? A gente tem que ter caminhão novo, celular, seguro, enfim, preencher todas as lagunas."O cidadão falava, falava, falava. E eu já meio zonzo, imóvel, segurando uma muda de manjericão que minha irmã havia me dado em Rio Grande.

Por volta da meia-noite, deixamos o carro em frente à oficina mecânica e peguei um taxi para casa. E foi assim que uma viagem de 4 horas durou 9.

*I Drove All Night, música composta pela dupla Billy Steinberg e Tom Kelly (os mesmos de Like a Virgin) especialmente para Roy Orbinson, que a gravou em 1987 mas só a lançou comercialmente em 92. No vídeo, os jovens Jason Priestley e Jennifer Connelly. Neste meio tempo, em 89, foi sucesso na voz de Cyndi Lauper, em um de seus melhores álbuns, A Night to Remember. Anos depois foi também gravada por Celine, a hedionda.

10.9.08

Only an expert can deal with the problem















Com tanta correria e confusão para conseguir um ingressinho que seja para ver a turnê Sticky Sweet de Madonna no Brasil, quase ninguém deu bola para a notícia de que Kylie Minogue se apresentará dia 9 de novembro em São Paulo com sua KylieX 2008 Tour. Proponho um jogo: vá ao show da kylie com um caderninho e anote tudo que ela chupou da Madonna. É divertido.
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Chegou o novo browser do Google, é o Chrome. Leve, bonito e simples. Só faltam algumas funcionalidades do Firefox para eu usá-lo oficialmente aqui.
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Matérias minhas para a Revista Paradoxo: Martin Buscaglia, o homem-orquestra e Laurie Anderson no Sesi.
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Eu vi o primeiro episódio da terceira temporada de Dexter. Caiu na rede sexta-feira e será transmitido pela tv americana dia 28 de setembro. Bem, poderia ser melhor, mas já está de bom tamanho. Ótimo mesmo foi a season première de Bones, episódio duplo, em que Temperance Brennan e o agente Seeley Booth resolvem duas mortes misteriosas em Londres. O melhor de tudo é o recado na secretária eletrônica da personagem principal: Technically you have not reached Temperance Brennan, but if you leave a message, it will reach her... Me... Temperance Brennan.

3.9.08

Apreciando o Silêncio

Sempre que perguntado a respeito do Coldplay, eu digo que eles têm lá seus momentos, mas, via de regra, os acho uns chatos. Eis que surge um daqueles momentos. Ignorem a música meia boca, mas apreciem o vídeo de Viva La Vida em que eles homenageiam Enjoy The Silence, do Depeche Mode. Chamaram, inclusive, Anton Corbijn, o homem que cuida do visual do Depeche desde o início.


31.8.08

Sunday Classics


François Truffaut e Steven Spielberg durante as filmagens de Contatos Imediatos do Terceiro Grau, em 1976

29.8.08

Losing My Religion

Deu na Ilustrada que o R.E.M. fará shows em Porto Alegre, em novembro próximo. Será?

Presente


01. Love Is Strange (3:21)
02. Tougher Than The Rest (4:14)
03. Time After Time (4:29)
04. Alison (3:05)
05. Downtown Train (3:09)
06. Driving (2:26)
07. One Place (4:50)
08. Apron Strings (Live) (2:54)
09. Me And Bobby D (4:23)
10. Come On Home (4:12)
11. Fascination (Live) (4:17)

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28.8.08

Porto Alegre, 28 de agosto de 2008

Meu amor,

Sentei ao computador umas muitas vezes nos últimos dias escrevendo e apagando esta mensagem para ti. Comedido e condenando a mim mesmo por não ter cem por cento de certeza se devia ou precisaria te escrever uma linha que fosse, tendo em vista o sentimento que eu guardo por ti a todo o momento, que deveria teoricamente dispensar a necessidade de enviar qualquer outra mensagem, via carta, e-mail ou blog.

Mas hoje acordei forte e intenso como o café que tomo agora. E a maior das surpresas: não amanheceu chovendo. Sinto-me ainda mais forte quando o sol contraria as previsões e se impõe com sua luz mesmo que lhe mandem se esconder por entre as nuvens. E lembro da tua bravura de perseguir teu destino, sem ressentimento algum com a vida e as impossibilidades que ela as vezes te impõe. De prevaleceres apesar das ausências e da falta de abraços apertados, do olhar de amor de quem mais te importa e da compreensão do mundo. Perdoa o mundo, a vida, o destino, eles esquecem de vez em quando como é bom te ter nos braços. Tu, no entanto, respondes a tudo isso com teu talento e tua habilidade de parir a beleza todos os dias, nas paletas que escolhes pincelar, nas doçuras que só tu consegues expressar, no jogo misterioso onde duelam a meiguice e o silêncio.

Eu escrevo mesmo para te dizer que o meu gostar de ti vira todos os dias um bicho diferente, felinos inquietos, pré-históricos, todos loucos para acasalar com o teu querer. Cada um deles faminto pelo teu colo, teu abraço, teu cafuné na juba. Te garanto, meu amor, que eu tenho impressão hoje de que tu sempre estiveste aqui comigo, mesmo quando não nos conhecíamos e tentávamos viver em outras casas. Meu endereço sempre foi no teu coração. Meu comprovante de residência é o beijo que te dou todas as noites.

Te desejando um bom dia, na certeza de que logo vamos nos ver e orgulhoso da tua determinação em viver apesar das nuvens cinzentas, deixo um beijo cheio do meu mais precioso carinho,

A.

27.8.08

Insanidade Temporária



* Na revista Paradoxo desta semana, matérias minhas sobre o novo espetáculo de Marisa Orth e o filme Mamma Mia!.

* Ingressos na mão para o Porto Alegre em Cena, colega? Eu já. Primeira fila para ver de quantas formas Laurie Anderson consegue dizer "A guerra é uma merda" e terceira, para ouvir Adriana Calcanhotto cantando Seu Pensamento no meu ouvido.

* Neste domingo ainda tem o uruguaio Martin Buscaglia no Santander Cultural por 10 Reais.

25.8.08

Canções de Amor


Christophe Honoré dirige Louis Garrel

O personagem de Louis Garrel em Canções de Amor (Les Chansons D'Amour, 2007) é um cara que começa o filme com duas namoradas em um triângulo amoroso, para logo após a morte de uma delas, tornar-se um cético desiludido. Não há muito no filme que nos aguce a empatia imediata, é tudo muito diferente da realidade. É difícil imaginar no Brasil, por exemplo, um homem de 30 anos cantando por bulevares enquanto pergunta a Deus onde ele anda. O niilismo definitivamente não combina conosco, afinal de contas, aqui é a terra do "Não chore, Deus vai dar" - e que é assunto para uma outra conversa.

Acho que o longa engancha o espectador justamente no quesito desilusão amorosa. Todos, acredito eu, já passamos (ou passaremos) por aquela fase em que pensamos ter já nos despedido definitivamente do apaixonamento, da esperança de viver um amor sem desilusão. A fase da negação, de proibir-se o flerte com qualquer coisa mais abstrata, de apenas acreditar no chão abaixo dos pés e mais nada. De não se deixar acarinhar, de não dar chance de aproximação a ninguém e, quando der, a qualquer momento esperar aquela frase desastrosa, aquela proposta que põe tudo a perder. E geralmente ela vem.

No filme, Garrel não faz distinção de sexo na hora de escolher os abraços e carinhos. Começa com duas namoradas, seduz um rapaz, outra menina. Tudo isso, com cara de quem tocou um "foda-se" definitivo na vida. A cara de quem não acredita. O que é uma grande mentira. Se não acreditasse, não continuaria buscando. Igualzinho a eu e você, o personagem do filme de Christophe Honoré mente que não fantasia, que já não tem mais sonhos de viver um grande amor. Uma grande mentira.

22.8.08

Compilation


Taí uma nova compilação, com uma inédita da Duffy, Sharleen Spiteri, a vocalista do Texas, mash-up de Peggy Lee com Iggy Pop (e ficou bom!), a melhor faixa do cd novo do Beck, a novata Martina Topley, o uruguaio Martin Buscaglia (que faz show em Porto Alegre semana que vem), os queridinhos do Belanova, Trash Pour 4 fazendo uma cover do 10.000 Maniacs, Natalie Cole super cool, Cyndi Lauper apaixonada, uma belezura do Lunik, remix do Cardigans e Roisin Murphy (Moloko) com sua cover electro-chic do Bryan Ferry, feita para o novo comercial do perfume Gucci pour homme, estrelado por James Franco.

Tá bom assim?

1. Duffy - Put It In Perspective (3:29)
2. Sharleen Spiteri - It Was You (3:15)
3. Peggy Lee - Fever (Passenger mix) (3:06)
4. Beck - Orphans (3:15)
5. Martina Topley - Baby Blue (2:29)
6. Martin Buscaglia - Presiento Que Esta Noche Soy Un Lirio (1:32)
7. Belanova - Baila Mi Corazón (Lounge Mix) (2:59)
8. Trash Pour 4 - More Than This (3:35)
9. Natalie Cole - Don't Say Goodnight (Ladies' Version Slow Grind) (5:40)
10. Cyndi Lauper - Can't Breathe (3:58)
11. Lunik - Lie (5:20)
12. The Cardigans - Higher (Remixed by Nåid) (3:52)
13. Roisin Murphy - Slave To Love (3:40)

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21.8.08

O monte Fuji


Lívia: ... já que, sendo jornalista, onde quer que eu trabalhe, o que eu faço é quase sempre pelo, er, leitor.
me: ... e as vezes o leitor é uma pessoa mesquinha e cruel
Lívia: Yo, se é!
e eu tenho essa coisa assim, de ser aprovada, de precisar da aprovação de outrem pra me legitimar. Menos hoje que ontem, of course, mas ainda assim. ... é uma merda.
me: Sei como é. Quem nao me conhece acha q eu sou a pessoa mais feliz do mundo, que tô sempre bem e decidido, but deep down inside I sometimes am nothing but a little boy lost in a storm
Lívia: abre um guarda chuva! :-)
but I got it. ;-)
me: that's how i manage life, sweetie...it's all about the umbrellas ellas-ellas
Lívia: É que fica complicado quando a gente usa o pronome errado pro guarda-chuva.
em vez de 'o quê', 'quem'.
ou mesmo o quê.
mas 'quem' é pior.
me: O guarda-chuvas é a nossa coragem, oras.
Lívia: Sim. E quando a gente só encontra a coragem, er, num ombro amigo?
num amor maravilhoso?
me: Mas o ombro amigo e o amor são só instrumentos para externar o que a gente já tem dentro
Lívia: sim.
me: (esse papo tá tão karatê kid...)
Lívia: metáforas de calendário japonês.
rs
aqueles, sabe, com o monte fuji pra ilustrar?
me: hauhauhauhauhau

20.8.08

O Viajante


Wim Wenders esteve palestrando em POA na última segunda-feira e deixou algumas boas mensagens que eu relatei na matéria para a Paradoxo desta semana. Leiam.

Les Poupées Russes


- Você é o homem perfeito.
- Engano seu. Eu não sou perfeito. Se tem alguém errado na terra, sou eu!
- Foi o que eu disse: você é perfeito.
- Acho que não sou quem você pensa que eu sou.
- Sei que você nem sempre é perfeito...que tem problemas, defeitos, imperfeições, mas quem não tem? Eu gosto dos seus problemas...me apaixonei por seus defeitos. Eles são fantásticos.
______________________________________

Pensei nas garotas que conheci, com quem transei ou só desejei. Elas eram como bonecas russas. Passamos a vida inteira nesse jogo, querendo saber quem será a última... a menorzinha que estava escondida dentro das outras desde o início. Não podemos ir direto até ela, temos que seguir as regras... abrir uma após a outra e nos perguntar: "Esta é a última?"

Bonecas Russas (Les Poupées Russes, 2005)

18.8.08

Mamma Mia!


Agnetha Fältskog e Annifrid Reuss, do Abba, eram grandes vocalistas. Pode ser que a música do grupo seja um pouco exagerada no tom, um tanto brega, mas ninguém seria capaz de negar a qualidade vocal do grupo e sua pegada pop irresistível. Fãs do mundo inteiro assistiram ao musical Mamma Mia!, o maior sucesso no West End londrino em cartaz de 1999. Era uma questão de tempo até que Hollywood apresentasse sua versão, a ser lançada no Brasil dia 12 de setembro.

Meryl Streep faz o papel principal, Donna, uma mulher que vive com a filha Sophie (Amanda Seyfrid) em uma ilha grega e não sabe bem quem é o pai da menina, já que o verão em que a concebeu foi bastante "emocionalmente conturbado". Entre as opções: Colin Firth, Pierce Brosnan e Stellan Skarsgård. Às vésperas de seu casamento, Sophie resolve convidar os três possíveis pais para descobrir qual deles a levará ao altar. Desembarcam lá também as antigas amigas de Donna, interpretadas por Julie Walters e Christine Baranski (que tem a melhor cena do filme ao cantar Does Your Mother Know? [assista]).



As qualidades vocais do elenco são um verdadeiro desastre (com exceção de Baranski e Seyfrid), o que poderia não ter importância não fosse o filme um musical com meia dúzia de diálogos. Atrapalha um pouco também o fato de Mery Streep fazer o papel de uma mulher de 40 e poucos anos quando na verdade já beira os 60. Mas o poder das músicas do Abba prevalece bravamente e supera as cenas de apelo camp e o roteiro quase inexistente, fazendo deste um filme tão ruim que chega a ser bom. Talvez por preservar uma certa ingenuidade, Mamma Mia! funciona razoavelmente bem. Muito embora não possua qualidade técnica alguma, seu conjunto agrada. É divertido, descompromissado e, quando termina, dá vontade de assistir novamente.

As canções do filme:

1. "I Have a Dream" – Sophie
2. "Honey, Honey" – Sophie
3. "Money, Money, Money" – Donna, Tanya, e Rosie
4. "Mamma Mia" – Donna
5. "Chiquitita" - Tanya e Rosie
6. "Dancing Queen" – Donna, Tanya, e Rosie
7. "Our Last Summer" – Sophie, Sam, Harry, e Bill
8. "Lay All Your Love on Me" – Sky e Sophie
9. "Super Trouper" – Donna, Tanya, e Rosie
10. "Gimme! Gimme! Gimme!" - Eleneco
11. "The Name of the Game" – Sophie e Bill (extra do futuro DVD, ausente na versão do cinema)
12. "Voulez-Vous" – Elenco
13. "SOS" – Sam e Donna
14. "Does Your Mother Know" – Tanya e Pepper
15. "Slipping Through My Fingers" – Donna e Sophie
16. "The Winner Takes It All" – Donna
17. "I Do, I Do, I Do, I Do, I Do" - Donna e Sam
18. "When All is Said and Done" – Sam
19. "Take a Chance on Me" – Rosie e Bill
20. "Mamma Mia" (Reprise) – Elenco
21. "I Have a Dream" – Sophie
22. "Dancing Queen" – Donna, Tanya e Rosie
23. "Waterloo" – Elenco
24. "Thank You for the Music" - Sophie

17.8.08

Sticky and Sweet



Estou de mal com Madonna. O último álbum, Hard Candy, está miles away (sacou?) do que ela pode e merece fazer. Chamar Timbaland e Justin Timberlake para produzí-lo me pareceu um retrocesso na carreira musical de vanguarda que pontuou alguns dos cds anteriores. Soou como uma opção confortável para garantir boas vendagens e fazer as pazes com a juventude consumidora norte-americana. Mas ela, como boa leonina que é, sabe o que fazer para chamar a atenção. É seu último trabalho inédito pela Warner e talvez esta seja uma forma de sair da gravadora pela porta da frente, ou seja, vendendo bem em território yankee. Hard Candy chegou ao primeiro lugar nas paradas de 37 países, incluindo os Estados Unidos.

Tem mais, dia 23 começa a turnê Sticky and Sweet, com 47 datas confirmadas (quase todas esgotadas) na Europa e América do Norte e mais umas duvidosas que devem incluir o Brasil, Argentina, México e o resto do mundo. Não há dúvidas de que ao vivo, ela será ainda mais adorada. Conseguirá superar tudo que já fez, utilizará no palco tecnologias jamais vistas em shows de música, inovará nas coreografias e re-escreverá a própria história e, muito provavelmente, conseguirá a proeza de, aos 50 anos, definir como serão as turnês pop dali por diante.

50 anos. Não parece, claro. Não apenas porque ela preserva muito cuidadosamente sua imagem, corpo e mente, mas especialmente porque sempre voltou com um trabalho jovem e desafiador. Aos 30 lançou Like a Prayer, aos 39 foi Ray of Light e aos 46, Confessions on a Dance Floor (só para citar os mais importantes), sempre desafiando o público a encarar algo novo sem deixar de ser assumidamente pop. E quando sobe ao palco, provoca um suspiro, faz com que a platéia prenda a respiração por alguns segundos, em várias ocasiões durante o concerto. Quem então perderia seu precioso tempo em pensar na idade daquela mulher no palco?

Mas o fato é que ela tem 50 anos e não há absolutamente nenhum artista pop que se assemelhe sequer a Madonna.

Ok, já não estou mais tão de mal.

15.8.08

Forró no Escuro


Hoje em dia, dizer que uma banda gravou com Bebel Gilberto confere a ela (a banda, claro) um certo selo de qualidade cool. Afinal de contas, constam na lista Thievery Corporation, Mike Patton, Towa Tei, Amon Tobin e outros colaboradores indie/jazzy/bossa. É sinal de que a moça tem um certo tino para a sofisticação. A banda Forró in The Dark, com quem a filha de Miúcha gravou Wandering Swallow (uma versão de Juazeiro em inglês, gravada originalmente por Peggy Lee nos anos 50), não é exceção.

Este Bonfires of São João é um álbum bastante sofisticado e conta, além de Bebel, com David Byrne cantando Asa Branca (assita ao vídeo), o que por si só já é um motivo para escutá-lo. Além disso, mistura clássicas composições de forró e xaxado com debochadas canções próprias, sob uma produção arrojada, trazendo ainda faixas instrumentais belamente executadas.

O CD foi lançado no mercado americano e europeu no final do ano passado e nunca chegou a terras brasileiras. Uma pena.

Download

Para saber mais sobre a banda, veja o site oficial.

13.8.08

He's got the power!


David Lynch, o homem em pessoa, esteve cara-a-cara com a high society universitária de Porto Alegre no encontro Fronteiras do Pensamento. Tirando as peruas sentadas atrás de mim que mal faziam idéia de que outros filmes o diretor fez além de Veludo Azul, algumas perguntas imbecis e o preço salgado do ingresso (100 reais), foi um encontro deveras interessante.

Mas o que eu vim aqui dizer mesmo é que a minha matéria sobre o encontro com Lynch está na capa da Revista Paradoxo. Olhem lá.

Playmobil


Em São Paulo, num café da Oscar Freire, sentei-me com meu amigo para tomar um cappuccino e comer um mini-sonho de baunilha que, evidente, estava em falta quando chegou a minha vez de fazer o pedido. Ele havia comprado a revista de Joice Pascowitch que eu folhei em 10 minutos, sem achar nada de muito interessante. "Engraçado como as pessoas em São Paulo parecem tão modernas que esta modernidade chega a ser um esforço coletivo que, teoricamente, busca a individualidade, mas acaba caindo na vitimização pela moda. Eles esperam que as revistas e os sites de comportamento lhes digam o que vestir. Isto para mim não é ser moderno, é fazer parte de uma triste linha de produção quase industrial, ficam todos com cara de Playmobil", comentei. A moça da mesa ao lado levantou ofendida.

12.8.08

Sampa


Eugênio, o beagle. Meu incansável companheiro de alojamento.


Krathong-Thong e Caipirinha de lichia, no Mestiço.


Ir a São Paulo é muito, muito bom. O problema é que nunca há tempo para se fazer tudo e visitar a todos. Choveu desde a minha chegada até o momento em que embarquei de volta rumo à capital gaúcha. E chuva significa comer fora. O jantar no Spot já é programa obrigatório (e altamente recomendado), conheci o novo restaurante turco na Augusta, o Kebab Salonu, aconchegante, delicioso e com um atendimento impecável, perfeito para um almoço longe das filas. Na Paulista, o restaurante do Reserva Cultural permite que você almoce vendo o caos paulistano só pela vitrine, bem ao lado do MASP, e ainda decide que filme vai assistir depois. O Mestiço continua lindo, a aquipe é gentilíssima e a caipirinha de lichia é a melhor de Sampa. Todos estes complementam o cardápio e o atendimento com uma trilha sonora fantástica. No Itaim, há o La Pasta Gialla, (do restaurateur Sérgio Arno) bonitíssimo e com opções imaginativas de massas e carnes, além do The Fifties, onde os hamburguers têm gosto de comida de verdade, num ambiente que parece um diner americano. A feijoada do Consulado Mineiro, na Benedito Calixto, é pura tarde de sábado.

Mas o que realmente fez destes lugares ainda mais especiais foi a companhia dos amigos, o carinho, as risadas, os brindes. Quero voltar logo.

Ainda teve o show da Marisa Orth e David Lynch no retorno a Porto Alegre. Mas isto é assunto para daqui a pouco.

1.8.08

Presente


Na falta de uma compilation, Mar Dulce [novo link - a senha para descompactar é: psylence].

Das coisas bonitas


Eu preciso registrar um agradecimento. Bem, na verdade vários. É o seguinte, eu adoro, ADORO, receber presentes. Fico todo faceiro. O problema que eu tenho uma certa incapacidade de dizer obrigado, me encabulo. Eu tenho intenção de ligar e dizer algo como, "pôxa, você acertou na mosca, que coisa bonita isso de você me enxergar num presente tão lindo". Mas acaba que eu me encabulo mesmo e não ligo. Acabo passando por mal-educado, coisa que eu não sou. Então, queridos, eu vou usar o blog. É o lugar onde eu fico à vontade.

Não reparem. 

Álvaro, Words Failed Me. Adorei demais o livro, o imã da Emily Dickinson faz um sucesso na minha geladeira.

Alex-Bsb, amigo querido, o livro das capas de disco virou uma bíblia pra mim. Serviu para me convencer que na próxima encarnação ainda faço capas de disco. O problema é que na próxima existência talvez as capas (e muito provavelmente os discos) não mais existirão.