14.1.08

Três Filmes

O novo filme de Brian de Palma, Redacted, é um documentário de mentirinha, aliás, de mentironas. Este formato curisoso de ironia, os documentários forjados são geralmente muito ácidos nos objetos que retratam. Aqui há vários tipos de mídia contemporânea ligados ao formato documental, até um falso curta-metragem, supostamente francês, contando a rotina dos soldados americanos numa barricada no Iraque. É dificíl não encarar Redacted como ficção, muito embora ele tenha sido filmado em vídeo digital, pelas mãos dos próprios atores. Acontece que a "realidade" daquela guerra parece mesmo saída de algum roteiro hollywoodiano. O evento que levou de Palma a realizar Redacted foi o estupro e assassinado de uma família iraquiana por um grupo de soldados americanos, evento este esmiuçado nos mínimos detalhes no filme.

A cena final, uma montagem de fotos tiradas de jornais retratando os horrores daquela guerra, é de tirar o fôlego. Um filme importante e bem mais relevante que o similar Leões e Cordeiros.

*O termo 'redacted' é utilizado na língua inglesa para se referir àquelas informações confidenciais contidas em documentos liberados pelo governo que são censuradas com tarjas pretas.



I'm Not There, de Todd Haynes, conta vários estágios da vida e carreira de Bob Dylan tentando adapatar para a narrativa cinematográfica o estilo de compor letras utilizado pelo cantor. São várias vozes, vários alter egos, para cada um deles, uma linguagem visual diferente. Cate Blanchett, que levou ontem o Globo de Ouro de atriz coadjuvante por seu Dylan, é quem melhor se sai, muito embora corra cabeça à cabeça com o ótimo Heath Ledger. Também interpretam Bob Dylan: Christian Bale, Richard Gere, Marcus Carl Franklin e Ben Whishaw sem muito impacto.

O título original do filme é o mesmo de uma canção inédita de Dylan apresentada pela primeira vez ao público no filme.

Confesso que não esperava uma narrativa tão fragmentada e essencialmente alegórica como a que encontrei em I'm Not There. Acho que é isso mesmo, o que se pode dizer com total certeza é que este é um filme bonito. Mais nada.



Além de iconoclastas de carteirinha, os Irmãos Joel e Ethan Cohen sempre flertaram com a lei de Murphy nas temáticas de seus filmes. Levaram ao extremo em seus roteiros aquilo que pode e dá errado. Onde Os Fracos Não Têm Vez (No Country For Old Men, 2007) é o everest de sua técnica. É aquele filme que reúne tudo que os anteriores tinham de melhor (vide o humor de Fargo (1996), a acidez de Arizona Nunca Mais (1997), a fotografia de E Aí, Meu Irmão, Cadê Você? (2000) e a profundidade de O Homem Que Não Estava Lá (2001), um dos mais genias da dupla).

As interpretações de Tommy Lee Jones e Javier Bardem (vencedor ontem do Globo de Ouro de melhor ator coadjuvante) são as mais marcantes da filmografia de ambos. O roteiro, também vencedor do Globo de Ouro, é um primor, muito embora exija atenção redobrada do espectador. Recomendadíssimo. Um dos melhores filmes dos últimos anos.

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