13.3.08

Partilhando Amor

HISTÓRIA DE LUI
Eunice Jacques*

Ela vendeu o carro flamejante, juntou outras economias, comprou a própria casa e deixou o lar materno disposta a enfrentar a própria vida. E, apesar dos protestos e temores familiares, assumiu-se adulta e mulher e mudou-se com meia dúzia de pertences. Geladeira, fogão, a cama e pouco mais. Além de Lui, é claro. Lui é um pastor alemão que é seu encanto e que por ela é encantado.

Tanto empenho e tantas transformações tinham lá seus motivos. O maior deles era um amor mal resolvido. Por quatrocentas razões, mas mal resolvido. Sabem aquele tipo de amor que tem tudo para morrer e não consegue? Era dessa estirpe, das terríveis. Num fim de tarde, inesperadamente, o amado bateu-lhe à porta. Aquela história: a vontade de correr ao abraço de tanta saudade, a fortaleza de manter-se à distância, o constrangimento, o faz esconder a paixão, o lado social, o queres-beber-alguma-coisa? Depois, vem-conhecer-a-minha-casa. E foram os dois. Quando entraram no quarto, eis que havia Lui, maravilhoso e divino, deitado de todo o comprimento na cama dela. E com a cabeça no travesseiro e tudo.

Ele, repentinamente, segurou-lhe os ombros e, com a boca muito próxima, disse: “Não suporto cachorro dentro de casa. É ele ou eu.” “É ele”, respondeu ela, prontamente. E o amado se foi pela mesma porta em que entrara.

Mas sabem o que é amor renitente, possuído, o amor que deixa sem graça tudo o que está distante do ser amado? Passados alguns dias de rancoroso e aflito silêncio, também num fim de tarde, ele voltou. Bateu à porta e quando ela viu quem era, por mais que tentasse não conseguiu esconder o ar de plena felicidade. Ele também feliz percebeu. Mas, como a história estava mal resolvida já há alguns meses, quedaram-se nos cotidianos. Naquelas conversinhas bobas em que os dois sabem que estão fingindo. E o que é melhor: um sabe que o outro também sabe.

E Lui ali perto, numa boa, fingindo igualmente que não estava com ciúmes. Até dormitou, diga-se a bem da verdade.

Então o amor mal resolvido resolveu resolver-se. E foi absolutamente natural que, entre juras e afagos, os dois procurassem a cama. E mal nela haviam chegado quando começou uma tempestade, com raios e trovões.

Esqueci de contar que Lui detesta trovoadas.

Na primeira que escutou, procurou companhia. E com todo o peso de uma pastor alemão assustado, se jogou em cima justo daquele que lhe roubava a atenção da dona.

Os outros dois tentaram de tudo: um colchonete macio no outro quarto – que Lui rejeitou fazendo um lago de pipi; bolinhos de carne dos quais teve súbito fastio, o famoso “olha o gato” para o qual se fez de surdo. E todo o resto que se possa fazer a um cachorro mimado.

Passaram a noite em claro. Mas se contentaram – e a história é absolutamente verdadeira, quase nada inventei – viram os três o nascer do sol sentados à soleira da porta. Partilhando amor, cada um do seu jeito.

Não seja bocó, esta não é uma história sobre um pastor alemão.

*Eunice Jacques, já falecida, era minha cronista favorita da Zero Hora.

2 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. simplesmente a-do-rei teu blog!!!! cheguei aqui hoje, como quem não queria nada e fiquei... a manhã toda lendo tuas histórias... e trabalhar que é bom, pula! um gde bjo!! e parabéns!!!

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