28.7.08

Uma idéia

Um dia o Rei teve uma idéia.
Era a primeira da vida toda, e
tão maravilhado ficou com aquela
idéia azul, que não quis saber de
contar aos ministros. Desceu com ela
para o jardim, correu com ela nos
gramados, brincou com ela de
esconder entre outros pensamentos,
encontrando-a sempre com igual
alegria, linda idéia dele toda azul.
Meu primeiro livro, com meu nome na folha de rosto, me chegou no dia do meu aniversário de 8 anos. Era Uma Idéia Toda Azul, de Marina Colasanti, composto por pequenos contos, de fácil leitura, mas para mim ainda hoje misteriosos e cheios de sentidos escondidos. Reis, fadas, unicórnios e princesas, o extremo oposto do que se lia nos anos 80, sem qualquer vestígio de futurismos e menções às novas tecnologias. Me alargou o vocabulário, com toda certeza. "Mãe, o que é um bastidor? Quem era Kublai-Khan? O que é uma harpa? Que gosto tem uma tâmara?". A cada explicação se desvendava um mistério da compreensão, mas estabeleciam-se outros, pois criou-se em mim uma fome de conhecer aquelas coisas que moravam no lugar das idéias. E as ilustrações de traços um tanto bizarros me assustavam e, sem que eu percebesse, compunham na minha imaginação um mapa nada geográfico de mundos desconhecidos cuja existência me era certa. Não sabia bem onde eles moravam, se era possível chegar lá de ônibus, ou se seria necessário viajar no tempo para andar por aqueles jardins e castelos. Mas eu tinha certeza de que os personagens viviam naquele lugar estranho, de contornos azulados. Na impossibilidade da locomoção física, a minha passagem para aquele mundo se dava sempre que eu voltava à leitura do meu livro magrinho, cujos cantos eu havia mordido, numa mania infantil de comer livros.

No conto que dá nome ao livro, um rei tem uma idéia e, temeroso de perdê-la nos afazeres habituais de um monarca, resolveu trancá-la na Sala dos Sono. O rei envelheceu sem perceber e depois que a velhice lhe afastou das obrigações de governar, foi buscar a idéia guardada. Ela já não tinha mais graça, pois o tempo havia passado para ele apenas e castigado sua vontade de ser.

Tive hoje a idéia de escrever este texto e aprendi com o rei que as idéias, por menos interessantes que possam parecer, não merecem ser abandonadas.

Para ler Um Idéia Toda Azul, com as ilustrações originais, baixe aqui.

8 comentários:

  1. Meu lindo, um beijo aqui, nós dois de chapéus pontudos e azuis.

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  2. Ai que coisa linda e boa de se ler numa segunda-feira que é o dia oficial de esquecer idéias na sala do sono.
    Obrigadinha. :*)

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  3. Olá

    Curiosamente li também "Uma idéia toda azul", mas li aos nove anos e me perdi nesse mundo de palavras novas e moral que eu precisava de um adulto pra explicar...

    Obrigad apelo link

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  4. Adorei, Grande Alex! O livro, e tanto quanto - ou talvez mais - o seu texto.
    E acho que o Pedro e o Luis também vão gostar.
    Parabéns por hoje!
    Abração, do
    Alvaro

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  5. Anônimo12:41 PM

    vi sua foto no blog das gorduchas e te achei um gato! rsrs! sonhei com voce!

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  6. até hj ainda quero saber que gosto tem uma tâmara. Mas ach que não vou saciar esse desejo, pra não perder o encanto dos contos que lia na infância.
    bjo

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