17.9.08

O olhar da cegueira


"A única coisa mais assustadora que a cegueira é ser a única pessoa que consegue enxergar"

O cinema que você testemunhará em Ensaio Sobre a Cegueira (Blindness, 2008), de Fernando Meirelles é bastante parecido com aquele de Crash - No Limite (2004) e Babel (2006). Da mesma forma que Paul Haggis e Alejandro González Iñárritu conduziram seu olhar desafiante sobre a diversidade dos nossos tempos, Meirelles consegue explorar alguns becos escuros da maldade humana e a nossa precariedade social, tendo como combustível a obra de José Saramago.

Julianne Moore é a única que consegue enxergar, num mundo tomado pela epidemia de uma curiosa forma de cegueira contagiosa. Em vez da total escuridão, a doença de Saramago torna a visão (ou a ausência dela) num mar de branco. O desafio desses personagens sem nome é sobreviver à quarentena em que são depositados, num hospício abandonado, onde há racionamento de comida e formas brutais de opressão vão aos poucos eliminando o que havia de civilizado naqueles personagens.

O espectador é propositalmente privado de referências. Não se sabe ao certo em que cidade a trama acontece, muito embora as cenas externas tenham sido filmadas em São Paulo - o que torna algumas paisagens urbanas familiares a nós brasileiros apenas. Há sinais em português, inglês, espanhol. O elenco tem norte-americanos, latinos e orientais, mas nenhum personagem tem nome. Tudo que se sabe é que aquele micro-mundo pode ser qualquer cidade justamente porque não é lugar algum. O que importa mesmo são os movimentos internos, o que acontece com estas pessoas numa situação extrema, como seus papéis sociais se desenrolam, da bondade à brutalidade, despidos de qualquer forma de adequação paradigmática.

A linguagem visual escolhida por Fernando Meirelles merece um louvor. Há três pontos de vista servindo de marcação para os atos da história. Um inicial, de edição rápida e brilhante, anunciando a chegada da doença; outro mais cru, em alto contraste, que pontua a vida no isolamento pelos olhos da protagonista; e outro, talvez o mais relevante, o olhar interno, representado pelo personagem de Danny Glover. Em vários momentos, o diretor presta homenagem a artistas que representaram em sua obra uma humanidade solitária, como Lucien Freud (Double Portrait, ao lado), reproduzindo o imaginário das obras sem qualquer cerimônia.

Mas não dê ouvidos ao que eu - ou quem quer que seja - tenha a dizer sobre Blindness. Apenas assista e depois me conte o que você enxergou.

7 comentários:

  1. Alexandre2:19 PM

    Saí do cinema com a certeza de que daqui um tempo tenho que rever o filme. A mesma sensação que tive, aliás, ao ler o livro. Achei a adaptação muito bem realizada, o que foi uma grata surpresa, já que o "Ensaio", pela temática e pela narrativa, não é um filme que facilmente eu pudesse imaginar nas telas do cinema. Gostei muito das interpretações. Julianne Moore impecável (sempre)e Mark Rufallo coloca uma sutil arrogância na personagem do médico - antes da perda da visão - que vai dando lugar a uma certa fragilidade que o faz se enxergar após a cegueira. E acho que é essa, exatamente, a viagem dessa personagem dentro da história. Senti que o roteiro, e a adaptação do Fernando Meirelles como um todo, deram ênfase no filme a um aspecto do livro relacionado ao papel da mulher. Me parece que tanto o livro quanto o filme apontam o olhar e a postura da mulher diante das coisas como a saída para a cegueira. A cegueira dos homens que enxergam e não vêem. Como se só o olhar feminino - que não a toa é representado pela mulher do médico - pudesse fazer com que todos trilhassem de novo o caminho do afeto, da humanização. Como se só através da mulher fosse possível um novo abrir de olhos que faça cada um enxergar-se a si mesmo e ao outro. Tanto é assim que a fragilização de uns e a brutalização de outros é muito mais contundente nas personagens masculinas. Enquanto que a solidariedade e a força surge nos atos das personagens femininas. Teria muito mais para dizer, isso é só um pedaço. Diz o homem da venda preta "uma coisa que não tem nome, essas coisa é o que somos". Se essa frase é, de certa forma, uma síntese da história, a direção, os atores, a fotografia, a trilha sonora, a cenografia transpuseram isso para a tela de maneira brilhante.

    ResponderExcluir
  2. Ah, mas nessas horas me dá um orgulho dos meus leitores!

    É isto mesmo, Alexandre. Concordo 100%. Especialmente pela cena que reproduz o quadro do Rembrandt, logo após a morte da "peixe-morto".

    É demais.

    ResponderExcluir
  3. Bem, eu adorei os dois filmes com os quais você compara. Babel e Crash.
    Prometo voltar pra comentar depois de assistir.
    Aliás tem blog novo do Saramago no ar, tá sabendo?

    http://blog.josesaramago.org/

    Bezzos,

    ResponderExcluir
  4. aninha7:29 PM

    se não me engano, os sinais em português, inglês e espanhol se devem ao fato de o filme ter sido rodado em são paulo, montevidéo, e uma cidade no canadá que não lembro o nome.

    ResponderExcluir
  5. Fui ver na segunda-feira a noite. O mesmo gosto do livro, por sinal bastante fiel ao Saramago. Não deixem de ler o livro please! É muito bom. Quero ler o Nas Intermitências da Morte também, que deve seguir a mesma linha. E acabei de ver no jornal Srta sobre o blog do Saramago - vou correndo lá.

    ResponderExcluir
  6. Eu assisti hoje, e não conseguia me levantar da cadeira pra ir embora e voltar pro mundo e ver sua cegueira não alegorizada.

    ResponderExcluir
  7. É sensacional, mesmo. Fernando é um dos grandes diretores hoje. Vale a pena ser revisto.
    ;-)

    ResponderExcluir