13.10.08

Cortada em Dois


Talvez não tenha sido uma boa escolha ir assistir a um filme francês em plena quarta-feira, imediatamente após um cansativo dia de trabalho. Especialmente porque o horário da sessão me obrigava a sair correndo da empresa para, em 20 minutos, chegar ao cinema, comprar o ingresso e correr para dentro da sala escura. O estigma do filme francês chato, criado, suponho eu, pela nouvelle vague e o estilo contemplativo e observador de alguns de seus representantes, persegue os filmes produzidos naquele país; muito embora eu tenha fé de que nem todo filme francês seja enfadonho. Foi esta fé que me levou a assistir Uma Garota Dividida em Dois (La Fille Coupée en Deux, 2008), de Claude Chabrol.

A garota do título é Gabrielle (Ludivine Sagnier, de Les Chansons D'Amour e Swimming Pool), dividida entre a paixão pelo escritor famoso Charles Denis (François Berléand) que nada de sério quer com ela e um violento ricaço (Benoit Magimel, de A Professora de Piano) que praticamente a coage a casar com ele. A protagonista, claro, ama quem não a quer: o escritor mais velho, melhor de cama, porém casado. Acaba se acomodando com o mais fácil (aparentemente), ou seja, casar com o rapaz mimado, herdeiro de um pequeno império, sabendo que ele tem um quê de psicopata. Talvez seja justamente a violência que melhor descreva as fantasias de Gabrielle. Cada um dos amantes representa um lado da moeda da sexualidade humana: a dor fantasiada e a real. O ciúme e a doença. O consentimento e a invasão.

A história do filme foi adaptada por Chabrol a partir de uma história real, acontecida no início do século XX em Nova York, um escândalo envolvendo o triângulo amoroso que culminou em tragédia e foi notícia dos jornais do mundo inteiro. Na adaptação francesa, os personagens não se desculpam por absolutamente nada e têm o trunfo de sempre defender suas escolhas, por mais bizarras e auto-destrutivas que possam parecer. O que já é um grande mérito nos dias de hoje, em que é mais comum ver pessoas arrependidas e procurando uma forma de colocar a culpa nos outros ou nas coisas pelo seu próprio fracasso pessoal.

Por outro lado, há duas coisas que me incomodam profundamente em Uma Garota Dividida em Dois: a lentidão da narrativa, quase sonolenta; e a forma com que o potencial impacto dos personagens foi diminuido pelo excesso, a maneira um tanto caricatural com que a câmera de Chabrol enquandra esta bizarra realidade. O que bastou para me fazer cochilar uns 5 minutos. Mas nada que tenha abalado a minha fé.


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